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Roberto Smeraldi

Com manguezais ameaçados, teremos menos pescados à mesa

Além do desmatamento amazônico e do desastre do petróleo no Nordeste, chegou a hora de se preocupar com os mangues, onde se reproduzem várias espécies de peixes e crustáceos

25 de novembro de 2019 | 18:57 por Roberto Smeraldi, O Estado de S.Paulo

As más notícias ambientais sempre repercutem à mesa, pois a maioria dos ingredientes mais cobiçados tende a ser vulnerável a alterações ecológicas. Mas nem sempre elas são percebidas na hora e, às vezes, acabam sendo compreendidas quando o prejuízo já se torna inevitável.

Pode ser o caso de notícias recentes como a retomada drástica do desmatamento amazônico ou o desastre do petróleo no Nordeste. Mas tem um ecossistema pouco conhecido e considerado, que exerce uma influência enorme e insuspeitada sobre nosso cardápio: o mangue. E chegou a hora de se preocupar seriamente com ele. Em 30 de outubro passado, o governo federal publicou uma daquelas medidas que pouco chamam a atenção, uma alteração no Plano de Ação Nacional para os manguezais, que retira sua proteção em relação a uma das principais atividades que o ameaçam, a carcinicultura, isto é a criação de camarão de cativeiro.

Moqueca baiana com robalo e camarão.

Moqueca baiana com robalo e camarão. Foto: Patricia Cecatti

No Brasil sobra uma área de aproximadamente 13 mil quilômetros quadrados de manguezais, o que pode parecer pouca coisa em relação ao tamanho do país, mas representa quase 15% do que tem no mundo inteiro: um patrimônio único que faz com que nossos mares sigam ainda pescosos apesar da ampla difusão de práticas insustentáveis. Ou seja, sem eles, nossa pesca já teria acabado há tempos. Porém, ao longo dos últimos 20 anos, perdemos mais de 20% desse ecossistema complexo e delicado.

Vamos ver então – além dos impactos ambientais - o que implica essa medida do ponto de vista de nosso cardápio, ou seja quais ingredientes ela tira ou acrescenta de nossas cozinhas.

O principal impacto direto é aquele de acabar com caranguejo, siri, mexilhão, sururu e outros moluscos ou bivalves que vivem no próprio mangue. Portanto, adeus patolas fritas, casquinhas, paellas, caldinhos e companhia.

Da mesma forma, a medida contribui para tirar definitivamente de nossa mesa o camarão rosa, que se reproduz no mangue. OK, o produto já era tão caro... mas de vez em quando, num dia de festa, a gente ainda fazia um sacrifício.

Robalo no forno ao vinho branco, com batatas, cebola e tomate.

Robalo no forno ao vinho branco, com batatas, cebola e tomate. Foto: Felipe Rau/Estadão

Mas aí vem o principal: o fato é que 2/3 dos pescados de nossa pesca comercial - que não é uma pesca de mares profundos - se reproduzem no mangue! Dessa forma a retirada da proteção do mangue condena robalo, tainha, pescada, corvina, prejereba... e dezenas de outras espécies que ainda chegam à banca da feira.

Bem, mas o que ganhamos em troca disso tudo? Sim, vamos ter mais daquele camarão cinza de cativeiro (Litopenaeus vannamei), aquele famoso camarão para quem não gosta de frutos do mar: sem gosto, com cheirinho de sulfitos e textura borrachuda.

Nossos governantes parecem não gostar muito de torta capixaba, de bobó, de moqueca, de escondidinho... e nem se interessar pelo futuro de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas empregadas na cadeia dos produtos que dependem do mangue. Mas provavelmente nem sequer imaginam isso, e portanto, é bom contar para eles o que uma simples canetada pode significar.

E os cozinheiros - profissionais ou amadores - estejam avisados; nossa chance de seguir com a diversidade que nossos mares ainda nos oferece está em grande parte vinculada a como protegeremos esse ecossistema meio esquecido.

 

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