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Neide Rigo

Da manga-rosa quero a verde

Quando verde, a manga pode ser comida como legume ou fruta ácida e bebida como suco

09 janeiro 2013 | 22:04 por Neide Rigo

Se eu lhe pedisse para descrever uma manga, o que você diria? Doce, suculenta, perfumada? Talvez se lembrasse dos fiapos no dente e do formato ovado, redondo, de coração, ou ainda a cor rosa- vermelho-pêssego e o detalhe daquela manga espada massageada e depois furada para sair o sumo, que às vezes escorre em fio pelo antebraço. E destacaria a doçura e o perfume das frutas às vezes bicadas antes por sabiás e maritacas. Você pensou na manga madura. Afinal é assim que ela fica no seu melhor ponto, para se comer ao natural.

Mas a fruta a que me refiro aqui é a verde. Não é doce nem suculenta, mas ainda assim é uma manga. Tratar como iguais mangas verdes e maduras é como esperar um comportamento coeso de homens feitos e bebês. Então, foco nas diferenças.

Versátil. Quando verde, a manga pode ser comida como legume ou fruta ácida e bebida como suco. FOTO: Felipe Rau/Estadão

Como as frutas asiáticas – caso da banana, jaca e manga – e mesmo outras exóticas americanas, como abacate e mamão, desembarcaram aqui sem manual de instrução, inventamos de comê-las apenas doces, que é mais fácil: basta esperar que caiam de maduras. Mas, se formos às origens, encontraremos preparos frescos ou conservas, doces com as maduras e salgados com as verdes, ou os dois para uma mesma fase da fruta, sem falar nas polpas sem sal nem açúcar embaladas em lata, esticando as possibilidades de aproveitamento da safra.

O fato é que manga verde é um excelente legume ou simplesmente uma fruta ácida como o limão ou tamarindo. E acidez na cozinha todo mundo sabe o valor que tem. Basta sal ou açúcar para definir seu destino.

Desde que as primeiras mangueiras indianas chegaram ao Brasil, há pouco mais de 300 anos, o desperdício nos pomares é absurdo. Mas quem dá conta de comer tanta manga madura em tão pouco tempo? Nem mesmo os bandos de periquitos. E se fizéssemos como asiáticos e as comêssemos assim que ficam rechonchudas, mas ainda verdes?

Como não vamos encontrar manga verde nos supermercados ou hortifrútis, para a maioria dos leitores isso talvez seja um luxo. Mas para muitos brasileiros que estão na zona rural ou perto de praças com mangueiras, é fruto fácil. Já notou quanta mangueira carregada de frutos de vez (ainda não maduros) há nesta época do ano nas ruas e quintais de São Paulo?

E não me refiro às mangas sem fibras haden, tommy atkins, keitt, ou palmer. Muitas mangueiras rústicas e até mangabeiras nativas já foram substituídas por essas variedades mais interessantes do ponto de vista comercial.

Elas frutificam o ano inteiro graças a artimanhas como o estresse hídrico: uma forma é interromper a água das plantas irrigadas para bloquear o crescimento e induzir a floração e outra é simular o mesmo feito a partir da aplicação de agrotóxico sufocante para as raízes e danoso para o meio ambiente. Por isso, encontramos essas mangas, maduras ou quase, o ano todo. Mas verdes, nunca. Nem elas nem as rosa, espada, bourbon, coquinho e dezenas de outras variedades espalhadas pelo País.

Ficou com água na boca?