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De onde sobra, para onde falta: iniciativas combatem o desperdício de alimentos

Evitar o desperdício de alimentos é mais que uma causa, é necessidade. Conheça projetos que ajudam a combatê-lo e veja como evitá-lo na cozinha de casa

22 de agosto de 2021 | 05:00 por Renata Mesquita, O Estado de S.Paulo

Shakshuka com crosta de tapioca, nhoque de banana-da-terra com ragu de costelinha, peito de frango com creme de espinafre e farofinha crocante de couve. Essas poderiam ser a descrição de pratos no cardápio de restaurantes, mas são receitas criadas a partir de “restos” da geladeira pelo nutricionista Luciano Almeida, fundador do app Restin Brasil

A startup criada por Luciano faz a ponte entre empresas ou produtores com alimentos excedentes com restaurantes ou clientes finais – e oferece os produtos a preços mais acessíveis. A principal missão da Restin é contribuir com a redução do desperdício de alimentos de uma forma sustentável e lucrativa. Para incentivar a conscientização, Luciano promove lives semanais no Instagram da empresa (@restinbrasil), nas quais o convidado abre a geladeira e, sob sua orientação, ao vivo, prepara um prato com os restos de alimentos que encontrar. “Cozinhar o restinho de comida que tem na sua geladeira já contribui para a redução do desperdício”, conta. 

Luciano Almeida, sócio fundador da Restin Brasil 

Luciano Almeida, sócio fundador da Restin Brasil  Foto: Restin Brasil

E não é papo de empreendedor idealista. O mais recente estudo sobre o desperdício de alimentos, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), aponta que a maior parte do desperdício acontece nos domicílios, responsáveis por descartar 11% do total dos alimentos produzidos no mundo. Enquanto isso, serviços alimentares (restaurantes) e estabelecimentos varejistas (mercados) desperdiçam 5% e 2%, respectivamente. No total, o estudo estima que 931 milhões de toneladas de alimentos foram para o lixo em 2019 – cada banana passada, que poderia virar um delicioso bolo, conta. 

Nos mercados e feiras, parte do desperdício é resultado de produtos descartados por estarem próximos ao vencimento ou apenas por não terem determinado padrão estético. Mas há muita gente que, como Luciano, está empenhada em resolver esse problema. Fundada pelo engenheiro mecânico Roberto Matsuda e pela engenheira de alimentos Nathalia Inada, o Fruta Imperfeita (@fruta.imperfeita) é um serviço de delivery de cestas de frutas e legumes que, apesar de frescos e saborosos, acabariam na lata do lixo por não serem bonitos.

Cesta de alimentos, como legumes, verduras e frutas para famílias carentes pelo Banco de Alimentos do CEAGESP

Cesta de alimentos, como legumes, verduras e frutas para famílias carentes pelo Banco de Alimentos do CEAGESP Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Assim como a faz a Restin, outras empresas buscam estabelecer conexões que viabilizem a doação ou venda de alimentos que seriam descartados para organizações ou mesmo consumidores, visando o combate do desperdício. E a tecnologia se mostra cada vez mais uma grande aliada nessa missão. A recém-lançada B4 Waste (@b4waste) é também uma startup que oferece um marketplace que conecta o varejo com o consumidor. Mercados, empórios e mesmo restaurantes e confeitarias criam lojas dentro do app e ofertam produtos próximos do vencimento por preços atrativos (no mínimo 50% do valor original).

Foi a partir do cotidiano dos seus próprios trabalhos no setor de alimentos, onde presenciaram muito desperdício, que, tanto Luciano como Daniel Neuman, sócios da B4 Waste, começaram a questionar novas formas de consumo. “No meu restaurante, eu via muita comida ir para o lixo, havia muita perda, tanto alimentar como financeira”, conta Daniel, também fundador da The Gourmet Tea. A B4 Waste já tem parceria com grandes marcas do varejo, como Mambo, Natural da Terra e confeitarias como Ofner e Carole Crema, que diariamente sobem no app produtos próximos ao vencimento, com preços atrativos. 

Os sócio Luciano Kleiman, Daniel Neuman e Hyung Jun Kim, da startup B4waste 

Os sócio Luciano Kleiman, Daniel Neuman e Hyung Jun Kim, da startup B4waste  Foto: B4Waste

O debate sobre o desperdício de comida nunca esteve tão em alta por aqui como atualmente. De um lado, o Brasil bate a marca de 19 milhões de pessoas (quase 10% da população) vivendo em uma situação de insegurança alimentar grave – isto é, passando fome. De outro, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 30% da produção de alimentos no País é desperdiçada – o Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam comida no mundo – do plantio à mesa das famílias, em média 27 milhões de toneladas de comida recebem o mesmo destino: o lixo. Cada um de nós, brasileiros, joga fora em média 60 kg de comida por ano. “Um cenário de triste contradição, em que tanta gente não come e tanto alimento é simplesmente descartado”, avalia Luciana Chinaglia Quintão, presidente da ONG Banco de Alimentos. 

Fundada por Luciana há mais de 20 anos, a ONG Banco de Alimentos é um grande ator dessa cadeia que atua no combate ao desperdício de alimentos e à fome por meio da distribuição de excedentes de mercados e empresas para entidades sociais. A ONG já atua com 42 entidades situadas em São Paulo, que atendem mais de 23 mil pessoas. 

Com proposta similar, o Comida Invisível (@comidainvisivel), da advogada Daniela Leite, conecta quem quer doar um alimento em bom estado – podem ser pessoas, empresas e restaurantes – com quem precisa de comida, por meio de geolocalização, sem qualquer transação financeira. “Não importa quem vai levar os itens, o que importa é recuperar o valor da comida e lutar contra o desperdício”, diz Daniela. Pelo app, de forma simples e rápida, é possível doar ou receber a qualquer hora do dia desde um pacote de farinha até dúzias de caixas de frutas e hortaliças.

 

Desde 2019, o Comida Invisível já recuperou mais de 150 toneladas de alimentos. Exemplo entre os doadores está o restaurante Arturito, da chef Paola Carosella, que costuma subir na plataforma alimentos que seriam descartados, como claras de ovos orgânicos quando só são usadas as gemas, ou legumes que são utilizados para fazer o caldo. 

Prato cheio

 A alimentação no Brasil, ainda hoje, está relacionada ao excesso. Quem nunca ouviu a típica frase “é melhor sobrar do que faltar” nos almoços de família? “É preciso mudar o nosso modo de consumir, o desperdício está na nossa cultura”, afirma Gustavo Porpino, especialista no tema da Embrapa, que colaborou como revisor do estudo da ONU. No relatório da Embrapa usado pela ONU, eles identificaram que 77% da população brasileira considera importante que a comida servida à mesa seja fresca e 68% responderam que acham importante ter a despensa cheia. “Desperdício é um hábito, e hábitos só mudamos com educação e recorrência”, avalia Daniela, que está prestes a lançar uma plataforma de educação dentro do Comida Invisível, com cursos online como o de manual de boas práticas, além de diretrizes de como doar e receitas de aproveitamento.

Compras em menor quantidade, armazenamento e preparo dos alimentos de forma correta, uso integral de alimentos e reaproveitamento de sobras são algumas das mudanças em casa que podem fazer a diferença (confira mais dicas para evitar o desperdício em casa abaixo)

A ONG Banco de Alimentos combate o desperdicio de alimentos e minimiza os efeitos da fome, por meio da colheita urbana de alimentos (sobras de comercializacao e excedentes de producao, ainda dentro da validade) que seriam descartados 

A ONG Banco de Alimentos combate o desperdicio de alimentos e minimiza os efeitos da fome, por meio da colheita urbana de alimentos (sobras de comercializacao e excedentes de producao, ainda dentro da validade) que seriam descartados  Foto: ONG Banco de Alimentos

Porpino ressalta a importância de reforçar políticas de alimentação voltadas para o fortalecimento de sistemas circulares. “É uma tendência global. O Brasil tem muito potencial de avançar, por exemplo, no desenvolvimento de soluções com foodtechs para reduzir o desperdício de alimentos.”

Sustentabilidade

O mesmo relatório da ONU citado no início do texto abre as discussões com a seguinte frase: "Se o desperdício de alimentos fosse um país, seria a terceira maior fonte de emissão de gases de efeito estufa”. Pois, a esse cenário todo é necessário também somar as perdas ambientais. Quando desperdiçamos alimentos, não é só o próprio alimento que estamos jogando fora, também é desperdiçado todo o esforço para que ele chegue até a mesa – isso envolve desde mão de obra, até emissões globais de gases de efeito estufa, gasto de energia e transporte. Ao combater o desperdício, também trazemos mudanças para o meio ambiente. 

Projetos que ajudam a reduzir o desperdício 

Banco Ceagesp de Alimentos: o maior entreposto de alimentos da América Latina recebe doações de produtos em bom estado, mas que seriam descartados pelos seus permissionários. Todas as quintas-feiras ocorre a distribuição de alimentos para cerca de 550 famílias que estão em situação de vulnerabilidade. www.ceagesp.gov.br

B4Waste: o aplicativo é um marketplace que conecta empresas (mercados, empórios, restaurantes e cafés) com pessoas, oferecendo produtos próximos do vencimento por preços atrativos. Disponível para iOS e Android. b4waste.com.br 

Comida Invisível: a plataforma viabiliza a doação de alimentos – em bom estado, mas que seriam descartados por algum motivo – a ONGs ou a pessoas físicas por meio de geolocalização, além de trazer conteúdos com objetivo de mudar o hábito de consumo de alimentos. comidainvisivel.com.br 

Food Keeper: aplicativo que reúne uma série de dicas de armazenamento para ajudar a manter a qualidade dos alimentos, o que maximiza a vida útil de cada um. Por meio do app, você pode agendar no seu calendário quando um alimento está próximo da data de validade. Disponível para iOS e Android. 

Fruta Imperfeita: trabalha em parceria com os produtores buscando aproveitar as frutas e legumes que são rejeitadas pelos grandes supermercados. Os produtos vêm direto dos produtores com alguma imperfeição no formato ou na cor, mas igualmente deliciosas, frescas e nutritivas. Esses produtos são selecionados e entregue nas casas dos participantes, semanalmente. www.frutaimperfeita.com.br 

Restin Brasil: plataforma conecta produtores e mercados com alimentos de excelente qualidade, porém fora do padrão estético ou próximos da validade. www.restin.com.br 

ONG Banco de Alimentos: o projeto recolhe alimentos que já perderam valor de prateleira no comércio, mas ainda estão perfeitos para consumo humano e distribui às instituições sociais cadastradas. Saiba como ajudar em bancodealimentos.org.br 

#SemDesperdício: lançada pela WWF-Brasil, Embrapa e FAO, a iniciativa nasceu para ampliar a consciência dos consumidores brasileiros sobre o desperdício de alimentos e gerar um impacto positivo na mudança de hábitos de consumo alimentar. www.semdesperdicio.org 

 

Pequenas (grandes) atitudes contra o desperdício

Especialistas no combate ao desperdício como Daniela Leite, do Comida Invisível, e Luciano Almeida do Restin Brasil, entregam algumas dicas para evitar o desperdício em casa e prolongar a vida útil de ingredientes.

Para combater o desperdício, aproveite o máximo de cada alimento, desde o talo até as cascas

Para combater o desperdício, aproveite o máximo de cada alimento, desde o talo até as cascas Foto: Fernando Sciarra/Estadão

10 maneiras de reduzir o desperdício de alimentos em casa:

1. Olhe a geladeira e a despensa antes de ir ao mercado

2. Faça o cardápio da semana com o que tem na geladeira e somente depois veja o que realmente precisa ser comprado. 

3. Evite fazer a “compra do mês”;  faça compras ao longo da semana, isso ajuda a evitar que algum legume fique esquecido na gaveta da geladeira, além de garantir sempre alimentos mais frescos. 

4. Deixe os produtos que vencem primeiro visíveis no armário

5. Aproveite o máximo de cada alimento, desde o talo até as cascas.

6. Conserve os alimentos adequadamente para que durem mais tempo 

7. Prepare algumas porções e congele para agilizar no dia a dia (e congele-os em embalagens apropriadas, como plástico ou vidro).

8. Seja criativo para aproveitar ingredientes da sua geladeira ou freezer. 

9. Prepare apenas a quantidade de comida necessária.

10. Não ligue para a beleza. Um ingrediente que não seja esteticamente perfeito pelo lado de fora pode ser ótimo para purês ou sucos. Se você não levar aquela batata torta para casa, ela provavelmente será jogada fora.

Na cozinha:

●  Banana em todas as fases: quando ela está verde, é ideal para a fazer a biomassa ou frita. Quase madura, é ótima crua ou grelhada. Madura, vai bem crua, em salada de frutas ou compotas. Escura e passada, está no ápice da doçura perfeita para fazer bolos e pães. 

●  Legumes (cenoura, beterraba ou couve): um ótimo método de conservação que recupera a qualidade dos legumes murchos é colocá-lo em uma travessa de água potável e deixar na geladeira. Volta a ficar perfeita. 

● Talos e folhas de legumes como cenoura, salsinha ou brócolis vão bem crus nas saladas ou podem ser transformados em molhos, como pesto, batidos com azeite, alho e oleaginosas.  

 

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