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Deixa o ar entrar nos velhos châteaux

  Bordeaux Oxygene

21 junho 2012 | 07:59 por luizhorta

É falar em Bordeaux e já consulto meu saldo bancário. Também olho no espelho para ver se estou vestido direito, endireito o nó da gravata e mando engraxar os sapatos, porque a região é imediatamente relacionada, na nossa cabeça, a preços altos e solenidade. Foi essa imagem negativa, de coisa inacessível, para banquetes e comemorações esporádicas e garrafas muito caras, que fez surgir o grupo Bordeaux Oxygène (BO2).

O vinho, como parte do mundo da cultura, é afetado pela moda. E a moda atual é gastar menos e beber mais largadamente, sem muito salamaleque. No caso do BO2, grupo surgido cerca de dez anos atrás, composto de jovens produtores, a moda é ser informal. Eles têm mansões, mas preferem morar despojadamente. O château ficou para turismo e visitas.

Fazem vinhos com notas altas da crítica, mas os preços são pagáveis e os vinhos são para serem bebidos e não só comprados e guardados. Não usam ternos ingleses nem parecem banqueiros – estão mais ligados ao street wear e podem aparecer em qualquer evento parisiense sem ares de camponês rústico, nem de financista esnobe.

Estão muito longe da imagem do aristocrático dono de château bordelês. São “oxygenados”, engraçados, animados e bebem vinho porque é bom. Fui visitá-los e voltei aliviado: Bordeaux pode ser para todo mundo e a qualquer hora.

Ficou com água na boca?

A ideia de modernizar a cara de Bordeaux tem autoria. Todos os produtores do BO2 com quem conversei apontaram Alice Cathiard (agora Tourbier, depois de casada), do Smith Haut-Lafitte, e Benoit Trocard, do Clos Dubreuil, como criadores do conceito. Os pioneiros foram colegas no curso de enologia da Universidade de Bordeaux, alunos de Dennis Dubordieu. Foi ali que nasceu o movimento. Se todos os membros eram jovens, produziam e bebiam Bordeaux, por que a região tinha uma imagem de vinhos caros, difíceis e para magnatas britânicos? Trocard voltava de um estágio na Austrália; Alice chegava com a família vinda de outros negócios.

Fui visitá-los e provei seus vinhos. Estive com 14 dos 18 atuais membros do grupo. A constatação primeira é visível no mapa: eles não são vizinhos nem pertencem à mesma região. No seu meio há Grands Crus de Saint Estephe, de Graves, negotiants e amantes dos vinhos que aprenderam na unha a fazê-los. São, de certa maneira, ou, melhor dizendo, eram outsiders. Nenhum tinha três séculos de produção na região. Os mais enturmados com Bordeaux vendiam vinhos havia gerações, caso das famílias Audy e Mau. Mas a maioria chegou depois, apaixonada pelo vinho e sem tradição na sua produção. Como viam o vinho como prazer e não como obrigação ancestral, foi mais fácil dar uma chacoalhada na imagem da região.

Seus vinhos mantêm o estilo de cada região. Não há um estilo Oxygène de vinho, nem a turma trabalha em conjunto na produção de um vinho identificável como Oxygène. Se há um resumo para sua atividade, eles levaram para os châteaux austeros um estilo de vida, uma maneira de abordar a bebida mais próxima do mundo real.

O grupo original cresceu – Bordeaux atrai novos investidores, várias propriedades vão mudando de mãos e Oxygène só cresce. Ninguém tem a perder se Bordeaux sair dos preços estratosféricos, abandonar o aspecto superior e distante e pousar em todas as mesas.

Olhe bem para essa turma, suas roupas, seus modos e sua simpatia. Eis a nova Bordeaux. O estilo Oxygène vai dar o tom no futuro da bebida.

Oxygenados provados:

*Produtores de Bordeaux, em geral, não trabalham com uma só importadora, vale pesquisar nas que os importam (Mistral, World Wine, Grand Cru e outras) e comparar ofertas e preços.

Brillette (Moulis en Médoc) - Vinho mais moderno, fino e equilibrado

Malartic-Lagravière (Pessac-Leognan) - Muito clássico

Larrivet Haut-Brion (Pessac-Leognan) – Bordeaux de grande estilo, para guarda

Lafon-Rochet (St. Estephe) – Um dos mais notáveis do grupo, intenso e elegante

Girolate (Entre-Deux-Mers) – A atrevida ideia de fazer um grand cru dos Despagne

Beau Sejour (St. Emilion) – Imponente vinho com tradição e evolução

Gloria (St. Julien) – Clássico e refinado château, bom para guarda

Clos Fourtet (St. Emilion)  – Excelente cru, situado dentro da cidade de St.Emilion

Clos Dubreuil (St. Emilion) – Vinho de Trocard, um dos fundadores do Bordeaux Oxygene

Brown (Pessac-Leognan) – Elegante e equilibrado, uma boa aposta para o futuro

Poujeaux (Moulis en Medoc) – Tradicional e refinado blend do Médoc. Excelente

Bonalgue (Pomerol) – Comentado ao lado, um Pomerol de fina qualidade

Smith Haut-Lafitte (Graves) – Um dos meus favoritos do grupo

Thieuley (AOC Bordeaux) – Um dos mais tradicionais, com ótima qualidade

 

Ficou com água na boca?