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Designer holandesa provoca público em intervenções com comida

Imagine um funeral e, no lugar do preto onipresente, o lugar exala branco. Uma mesa exibe um banquete e, nela, todas as comidas, louça e acessórios são alvíssimos. A ideia, no mínimo, dá uma chacoalhada na cabeça – se comida é prazer e funeral é luto, por que um banquete, e tão chocantemente branco? Foi pensando nessa quebra de paradigma que a holandesa Marije Vogelzang propôs a “instalação” quando ainda era estudante de design.

08 dezembro 2015 | 16:27 por anapaulaboni

Depois de se formar, em 2000, ela não parou mais de trabalhar com comida e, ao longo dos anos, criou outras produções artísticas que envolvem o ato de comer, e não só o que está dentro do prato. Alguns desses trabalhos foram mostrados em imagens ontem na palestra que ela deu no What Design Can Do!, no Teatro Faap, em São Paulo. O evento de design, que existe há cinco anos em Amsterdã e reúne grandes nomes internacionais da área, teve lugar fora da Holanda pela primeira vez.

Outra mostra do trabalho de Marije foi um banquete de Natal feito para 40 pessoas desconhecidas, que ela montou com lençóis caindo do teto com buracos para cada comensal colocar a cabeça e poder comer. Com a vista de dentro, nada deve importar a não ser a comida. “As pessoas, em geral, se vestem muito formalmente num jantar como o de Natal. Com o pano, é mais fácil haver integração sem julgamentos”, disse ela ontem.

Cenas do jantar de Natal com as pessoas separadas por lençóis.

Com esse tipo de trabalho, Marije passou a se intitular, ao longo dos anos, uma eating designer, refutando o título de food designer. “Eu acho que a comida já é perfeitamente desenhada pela natureza, e eu sou uma designer inspirada pelo verbo comer. Então, trabalho com a psicologia do comer, o ato de dividir a comida.”

Sobre a partilha da comida, um dos projetos traz mulheres ciganas de Budapeste servindo visitantes em tendas com lençol que não deixam as pessoas verem seu rosto. Enquanto elas servem a comida na boca de quem está sentado à sua frente, contam histórias de vida, numa tentativa de quebrar o preconceito contra ciganos. “Se aquela pessoa está dividindo a comida com você, você não pode odiá-la.”

Ciganas servem visitantes na boca, em projeto em Budapeste.

Ainda sobre dividir comida, Marije mostrou um trabalho em que os comensais recebem pratos quebrados ao meio, para poder trocar sua metade com quem está sentado à frente. Um tem um pedaço de melão, o outro, fatias de presunto cru. E assim eles precisam um do outro para uma perfeita combinação.

Veja o vídeo do projeto com ciganas em Budapeste.

Autora do livro Eat Love (coma amor, sem edição em português), hoje ela coordena um departamento na Design Academy Eindhoven chamado Food Non Food, com 32 alunos, além de prestar consultorias para restaurantes, hospitais e supermercados.

Pratos quebrados fazem comensais trocarem uma metade com melão por outra com presunto.

O evento, que termina nesta terça-feira na Faap, contou ainda com palestras de nomes como Alex Atala e Marcelo Rosenbaum.

Marije em palestra no What Design Can Do! em São Paulo. FOTO: José de Holanda/Divulgação

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