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‘Dominando a arte’ de fazer títulos de livros

Becky Krystal

15 julho 2015 | 22:38 por redacaopaladar

Vamos brincar de terminar a frase? Eu digo “Dominando a Arte…” Você completa: da cozinha soviética? Da cozinha chinesa? De esculpir em melões? Da cozinha francesa? Se você gosta de cozinha, há apenas uma resposta: da cozinha francesa. Os prateleiras de livros estão inundadas com títulos que usam o termo popularizado pelo clássico Mastering the Art of French Cooking (dominando a arte da cozinha francesa), o inspirador livro de Julia Child, Simone Beck e Louisette Bertholle, cujo primeiro volume foi publicado em 1961 (e que inacreditavelmente não tem versão traduzida no Brasil).

Agora, a primeira parte do título batiza muitos gêneros – existe livro que ensina a dominar a arte do tiro de longa distância e a dominar a arte de fazer colchas de retalhos –, mas é intensamente usada mesmo em livros de receitas. O que Judith Jones, que editou Mastering the Art of French Cooking pensa disso? “Eu acho que um livro de receitas deve ter sua própria identidade, seu próprio título, seu próprio significado”, diz a editora aposentada. “Estão pegando carona em um livro que teve sucesso em vez de criar algo original.” Jones admite ter sentimentos fortes sobre o tema. Ela não quer parecer mal-humorada, mas a impressão que fica é que ela não está sozinha em sua crítica. “Sempre me senti intimidada por Julia Child, por seu rigor e sua erudição”, diz Nathalia Dupree, autora de Mastering the Art of Southern Cooking (dominando a arte da cozinha sulista, sem edição em português) lançado em 2012 e que teve como sequência, neste ano, o livro que ensina a dominar a arte dos legumes sulistas. “Eu não teria chegado a esses títulos por mim, mas o editor queria.”

MASTERING THE ART OF FRENCH COOKING

Autor: Julia Child, Simone Beck, Louisette Bertholle

Devorador de chapéus. O título do clássico de Julia Child também teve lá suas rejeições. Na época em que estava sendo publicado, Alfred Knopf, fundador da editora que leva seu nome e que lançou o livro, não gostou da ideia. “Quando eu, toda triunfante, mostrei o título para o sr. Knopf, ele fez uma careta e disse: ‘bem, se esse título vender bem, eu como o meu chapéu’”, escreveu Jones em suas memórias The Tenth Muse (a décima musa, também sem edição no Brasil), lançado em 2007. “Gosto de pensar em todos os chapéus que ele teve de comer.” Jones recorda como ela e Child debateram o título do livro em uma longa troca de correspondências. Quando Jones sugeriu Mastering the Art of French Cooking, ela relata em suas memórias, Child escreveu concordando: “Implica escopo, fundamentos, livro de receitas e França.” O título transmite ainda que aprender a cozinhar é um “processo contínuo”, Jones diz agora. E o gerúndio é chave. “Está sempre melhorando, sempre mudando. Ninguém domina.” Houve também uma série de outras possibilidades rejeitadas até que chegassem ao título. Entre elas: Um Mapa para o Território da Comida Francesa e Método na Loucura da Cozinha.

MASTERING THE  ART OF BAKING

Autor: Anneka Manning

 O processo de batizar um livro de receita é “longo e extenuante”, diz Maria Guarnaschelli, vice-presidente e editora sênior da W.W. Northon & Co. “Acertar um título é uma das coisas mais difíceis do mundo.” Hoje em dia, a discussão vai além do editor e do autor para incluir um gerente, um publicitário e um grupo de discussão. Algumas palavras-chave podem funcionar bem, Guarnaschelli diz. “Clássico” é um deles. “Bíblia” também está na moda, embora quando estivesse editando A Bíblia do Bolo (1988), de Rose Levy Beranbaum, Guarnaschelli tivesse dúvidas de que decolaria. Hoje o termo é tão ubíquo quanto “Dominando a Arte de”.

MASTERING THE ART OF VEGAN COOKING

Autor: Anne Shannon

Editora: Grand Central Life&Style (336 págs., US$ 15,59)

Novos livros de receitas que usam essa frase continuam sendo lançados. No fim de outubro será a vez de Mastering the Art of Italian Cooking, de Lidia Bastianich e sua filha Tanya Manuali. “Tudo o que pega é válido”, diz Guarnaschelli, mas é importante que o título represente precisamente o que o livro traz. O prefixo Mastering the Art of indica que tudo o que está entre a capa e a contracapa é abrangente, diz Anneka Manning, autora e editora australiana especializada em livros de receita que ensinam a dominar a arte de aves, carnes e caça (2012) e a dominar a arte da confeitaria (2013). Para atender à promessa do título, Manning diz, ela incluiu informações básicas como coberturas e massas de torta no volume sobre confeitaria e uma lista de diferentes cortes no livro de carnes, além de instruções passo a passo e muita fotografia.

LIDIA’S MASTERING THE ART OF ITALIAN CUISINE

Autor: Lidia Matticchio Bastianich,

Tanya Bastianich Manuali

De forma similar, Dan Shannon diz que ele e sua mulher Annie tentaram uma abordagem completa da dieta vegana em Mastering the Art of Vegan Cooking, publicado neste ano. “Se você está chamando um livro de Mastering the Art of, você tem que ter mais do que uma seleção de receitas genéricas”, diz Dan Shannon. Ao folhear seu livro, o leitor encontra dicas de como economizar, conselhos sobre como manusear jalapeños, um guia para montar uma lancheira e receitas para usar sobras. A capa e o título de um livro de receitas são importantes porque são a primeira impressão que você causa em um comprador em potencial, Manning diz. Mas como um autor ou editor de livros de receita, algumas vezes você pode exagerar em algo. Embora possa atrair público inicialmente, a maioria dos cozinheiros amadores provavelmente não vai perder muito tempo escolhendo entre títulos. O que eles querem saber, diz Manning, é se a receita vai funcionar e se o prato vai ficar gostoso. O livro de Child e suas coautoras entregou o que prometeu. “Mastering the Art of French Cooking é um clássico absoluto e sempre assim será”, afirma Manning. Se você decide ecoar esse título, ela diz, “você tem obrigação de ser respeitoso em relação ao que isso significa e ao que já representou”.

MASTERING THE ART OF SOVIET COOKING

Autor: Anya Von Bremzen

Editora: Crown Publishing Group (338 págs., R$ 80,14)>

Reputação. “Julia Child foi a melhor professora que conheci”, diz, categoricamente, sua editora, Judith Jones. Essa reputação significa que outros autores e leitores, de maneira consciente ou não, veem o livro como uma sigla de qualidade. “Você está se colocando disponível para comparação. E uma vez que você faz isso, você se abre para as críticas”, diz Dupree, a autora do livro de cozinha sulista. Ela diz que sente aflição pela sugestão que o título de seu livro pode fazer de que a cozinha da região sul dos EUA pode estar no mesmo nível da francesa. “Seria diferente se não tivesse existido uma Julia Child”, ela diz. Até agora, Annie e Dan Shannon dizem que eles não receberam críticas negativas sobre o título de seu livro. “Eu acho que nós tentamos de tudo para entregar algo equivalente ao peso do título”, diz Dan Shannon. “Se conseguimos ou não, é o leitor quem diz.”

/TRADUÇÃO ISABELLE MOREIRA LIMA

Veja a íntegra da edição do Paladar de 16/7/2015

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