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Comida

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E no 40º dia Noé fez um doce

Por Dias Lopes

05 dezembro 2012 | 22:00 por redacaopaladar

Judeus e cristãos acreditam que após o dilúvio universal a arca de Noé parou no alto do então submerso Monte Ararat, na Turquia. Assim está escrito no Gênesis, primeiro livro da Bíblia. Quando as águas baixaram, o patriarca deixou a embarcação e ofereceu um sacrifício a Deus pelo fim da inundação que puniu a iniquidade humana. A seguir, na condição de primeiro homem a receber orientação para comer carne, Noé teria preparado um assado que saboreou e ofereceu aos familiares com os quais tinha enfrentado os 40 dias e 40 noites de chuvas torrenciais, junto de um casal de cada espécie animal.

Os turcos, que hoje professam majoritariamente o islamismo, acrescentam uma história apetitosa a esse relato. Afirmam que Noé e familiares também improvisaram um doce para comemorar o final do dilúvio, com os poucos suprimentos que restavam. Fizeram um pudim (uma sopa grossa, na verdade) à base de grão-de-bico, arroz, figos e damascos secos, zestes de laranja, uvas-passas, mel, avelãs, pistaches, snoobar, baunilha e água de rosas. Hoje, serve-se a sobremesa em tigelas, decorada com canela em pó, lascas de amêndoas e sementes de romã.

Raspa de arca. Do pouco que sobrou da viagem, nasceu o pudim de noé. FOTO: Divulgação/Fundação Cultural Turca

Se acreditarmos na versão, trata-se do doce mais antigo do mundo. Chama-se asure (em turco) ou ashure, palavra derivada do árabe ashura, que significa décimo. Destina-se ao uso litúrgico. Saboreia-se o pudim de noé (segundo nome do doce) no décimo dia do Muharrem, primeiro mês do calendário islâmico ou hegírico, que se baseia no ano lunar e tem 12 meses de 29 ou 30 dias. É um período sagrado, com ápice no dia 10, o Dia do Asure, em que os muçulmanos sunitas (mais numerosos no Islã) festejam a passagem vitoriosa do profeta Moisés pelo Mar Vermelho, fugindo do faraó. Atualmente, porém, inúmeros turcos preparam asure o ano inteiro.

+ Veja a receita do asure, o pudim de Noé

Muitos fiéis sugerem que os ingredientes do pudim de noé sejam no mínimo dez. Mas o doce não tem uma receita padronizada. É feito de variadas maneiras por ricos e pobres, sempre em grande quantidade, para a distribuição entre parentes e conhecidos, independentemente da linhagem islâmica a que pertençam ou da religião professada por eles. Os muçulmanos dizem que o dinheiro gasto na preparação do asure “sempre foi uma boa ação”. Segundo explicam, não se trata de uma sobremesa comum. Além da origem sagrada, seu ritual de consumo simboliza partilha, solidariedade, fraternidade e amor.

Alguns povos vizinhos da Turquia elaboram o asure sob diferentes nomes. Mas o país euro-asiático, que abrange a região famosa da Capadócia e está na moda no Brasil graças à novela Salve Jorge, da Rede Globo, reivindica energicamente sua paternidade. Convém levá-lo a sério. Em 2006, a Turquia, entrou em “guerra” com os gregos de Chipre, na disputa do baklava – doce de massa folhada recheado com nozes, pistache, amêndoa ou snoobar, temperado com mel ou calda de açúcar, água de rosas, flor de laranjeira ou xarope à base de suco de limão, eventualmente cravo, canela ou cardamomo, encontrado no Brasil em restaurantes árabes.

O baklava desfrutou de grande prestígio em todo o Império Otomano, que tinha como capital Constantinopla, hoje Istambul, a maior cidade da Turquia. Foi o doce predileto dos sultões. No século 16, era preparado na Turquia, Síria, Egito, Argélia, Bulgária, Sérvia, a maior parte da Grécia e da Hungria e grandes porções da Pérsia e Arábia, além dos principados tributários da Transilvânia, Valáquia e Moldávia. Mas o asure gozou de prestígio equivalente, com uma vantagem: nenhum doce turco ou de qualquer outro país o suplanta em pedigree e significados.

>> Veja todos os textos publicados na edição de 6/12/12 do ‘Paladar’

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