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Esta inglesa só quer que você coma o que você ama

Para Ruby Tandoh, autora de livros de receitas, o que vale na cozinha é o sabor, não as modinhas - que incluem a pregação da comida 'detox' e a restrição ao glúten e à lactose

07 fevereiro 2017 | 16:54 por Tejal Rao

The New York Times

De Sheffield, Inglaterra

Todo começo de ano é a mesma coisa: todo mundo vira especialista no que se deve ou não comer, e até em que quantidades.

Quem certamente está fora dessa é Ruby Tandoh que, no momento, está na cozinha, fritando pedaços de banana-da-terra até ficarem dourados por fora e macios por dentro.

A autora de livros de receita de 24 anos, que conquistou um verdadeiro fã-clube no Reino Unido, não aprova a criação de regras para as compras, o preparo e o consumo dos alimentos; ao contrário, defende as delícias da variedade e os pequenos prazeres cotidianos da cozinha livre.

Ruby Tandoh, 24 anos, é  autora de livros de receitas.

Ruby Tandoh, 24 anos, é autora de livros de receitas. Foto: Andrew Testa|NYT

"Parece até que posso ouvir as vozes das tias me aconselhando a não encher muito a frigideira", diz ela, movimentando-se sobre o linóleo para virar as fatias chiando no fogão.

Ruby mora em Sheffield, região cujos moradores nunca se cansam de dizer que há mais árvores que gente. Ficou famosa há uns anos, depois de participar da série de TV The Great British Bake Off.

Desde então, já lançou dois livros de receitas e escreveu artigos para o Guardian, Elle Reino Unido e outras publicações que contam histórias complexas do nosso relacionamento com a comida, além de resenhas de fast-food para a Vice UK. E em seu estilo franco, ela parece quase alérgica ao esnobismo alimentar.

No segundo livro, Flavour: Eat What You Love (Sabor: Coma o que Você Ama, em tradução livre), destaca o repertório de uma cozinheira entusiasmada e hábil, da mesma forma interessada no conceito feminista da "Teoria do Brilho" – que valoriza a noção da amizade para acabar com a competição feminina – e no que Harry Styles, do One Direction, gosta de pedir de sobremesa.

Ruby ficou famosa no Reino Unido depois de participar da série de TV "The Great British Bake Off".

Ruby ficou famosa no Reino Unido depois de participar da série de TV "The Great British Bake Off". Foto: Andrew Testa

O avô paterno, que imigrou de Gana para o Reino Unido, morreu há dois anos e, desde então, seu interesse pelos sabores ganenses só fez aumentar. Ela levanta as mangas do suéter para tirar a tilápia inteira da marinada de alho - ela vai fritar o peixe inteiro e servir com a banana e uma salada de cebola crua, tomate e ervas com molho caseiro apimentado - e começa a aquecer a sopa de amendoim até as vidraças ficarem embaçadas com o vapor e o ambiente perfumado pelo aroma irresistível.

"A linguagem de alguns dos nossos autores culinários mais populares passou de 'sabor' e 'apreciação' para 'limpeza' e 'leveza'", lamentou ela em um artigo que escreveu para a Vice UK no ano passado. Analisando mais a fundo as tendências de popularização das opções sem glúten e sem açúcar, da valorização da alimentação "limpa" e do bem-estar, ela descobriu que, muitas vezes, há uma mensagem moralizante e restritiva nas entrelinhas.

"Vi a cultura da dieta tomar conta dos livros de receita em geral e da vida dos amigos meus, que nem nisso estão interessados", desabafa.

Um bom exemplo é o brownie de batata doce: versões sem farinha e sem açúcar começaram a pipocar nos blogs de culinária e em fóruns de defensores da dieta paleolítica, promovida, em parte, pelos alérgicos. "Eu cheguei a fazer a receita porque fiquei curiosa. É um horror", confessa Ruby.

Tilápia assada inteira, banana-da-terra frita, salada de cebola crua, tomate e ervas e sopa de amendoim.

Tilápia assada inteira, banana-da-terra frita, salada de cebola crua, tomate e ervas e sopa de amendoim. Foto: Andrew Testa|NYT

Marian Burros escreveu sobre a "dieta da alimentação limpa" no New York Times em 1996, quando o conceito estava começando a ganhar força. O regime era vendido como algo novo, com um padrão vago de consumo saudável que ia além das opções orgânicas. Os seguidores se preocupavam em maximizar o valor nutricional de alimentos que definiam como "puros".

Desde então, o termo inchou e passou a incluir chás, desintoxicação à base de líquidos, alimentos crus, superalimentos e várias dietas que pregam o bem-estar.

Ruby não está interessada em apresentar nada que se pareça com uma "contradieta". "Alguns dos bolos mais deliciosos que já comi levam óleo de coco, mas não acredito em catequização através de ingredientes", afirma.

Para Bee Wilson, escritora e colunista do The Guardian, o ataque de Ruby na revista "pegou todo mundo de surpresa" e deu início ao debate entre autores – que, diga-se de passagem, ficaram felizes com o fato de a moça ter articulado os receios que já sentiam em relação à modinha. "O pessoal sentiu que ela era muito mais sincera que a maioria que está nesse ramo. É abrangente, inteligente e aborda o tema sob várias perspectivas", analisa.

Seus interesse pela culinária africana vem do avô paterno, que imigrou de Gana para o Reino Unido.

Seus interesse pela culinária africana vem do avô paterno, que imigrou de Gana para o Reino Unido. Foto: Andrew Testa|NYT

Ruby foi criada em Essex, com pais que sempre estavam preparando sopas e refogados substanciosos, inspirados em livros vegetarianos. Seu pai trabalhava nos Correios, a mãe era diretora de escola e a família assinava a revista The Observer, que trazia a elegante coluna de Nigel Slater. "A grana era curta e eu achava as receitas superespeciais comparadas ao que comíamos no dia a dia", relembra.

Embora tenha trabalhado apenas um dia em um restaurante londrino, ela ficou meses na cozinha de um albergue em Lisboa. Cozinhando diariamente para trinta pessoas com uma verba de apenas 25 euros, descobriu o valor das refeições de um prato só, que valorizam os ingredientes baratos e alimentam um batalhão. Hoje em dia, ela prepara pratos doces e salgados em casa, todos os dias, para si mesma e a namorada.

"O sabor torna a comida um prazer; por isso, a base das receitas deste livro é o gosto e não a apresentação, o prestígio, o fator saúde ou a moda", escreve na introdução de sua nova obra.

E elas abrangem o país todo: há uma torta de peixe luxuosamente cremosa, feita com hadoque defumado e ervilhas, coberta com uma camada grossa de purê de batatas (veja a receita). Há também uma sopa de lentilhas com suco de limão e um merengue opulento com creme e cerejas. Ruby é uma confeiteira de mão cheia e suas receitas exploram uma variedade de açúcares que são facilmente encontrados no Reino Unido: mel, açúcar mascavo, açúcar em calda e melado.

Torta de peixe puxada na sidra.

Torta de peixe puxada na sidra. Foto: Andrew Scrivani|NYT

É raro um autor de livros de receitas que fale da relação comida/ansiedade com os leitores e todas as complicações que interferem no prazer que se pode tirar dos alimentos, mas Ruby escreveu sobre sua luta para superar um transtorno alimentar quando era adolescente e faz questão de dar seu apoio a quem os enfrenta.

No período de festas, tuitou mensagens positivas para os seguidores que por ventura estivessem se sentindo vulneráveis, estimulando-os, com palavras e emojis, a ser gentis consigo mesmos. "O Natal pode ser complicado para quem tem um relacionamento difícil com a comida. Cuidem-se!", escreveu.

O cuidado consigo mesmo também forma a base de seu estilo culinário e é a principal mensagem de cada receita. Ela acredita que obter prazer com a comida é inerentemente gratificante e restaurador e que preparar a própria refeição é um ato de amor consigo mesmo. Mas ditar regras? "Coma o que gosta" é o mais próximo que consegue chegar de uma.

E também um lembrete de que há muitas formas de adquirir bons hábitos no ano que se inicia: um deles pode ser calar todos os supostos especialistas e elevar a própria voz.

Ficou com água na boca?