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Gastronomia criativa. Para astronautas

Por Sandro Marques

24 janeiro 2013 | 17:09 por redacaopaladar

Especial para o Estado, de Madri 

O que você prepararia para alimentar seis pessoas confinadas por dois anos e meio numa nave espacial? Não pode ser nada pesado, ou volumoso e, principalmente, não pode deixar migalhas, que saem voando e entopem narizes e equipamentos com a ausência de gravidade. Este é o desafio da Dra. Grace Douglas, cientista da Nasa envolvida com o projeto de voo tripulado para Marte.

Enquanto Alex Atala apresentava pratos com coco germinado e mandioca, na sala ao lado do centro de exposições onde ocorreu o Madrid Fusión, acontecia o El Ser Criativo, conferência científica onde o assunto era comida de astronauta, alimentação transgênica e carne produzida a partir de células-tronco – desafios criativos que tentam descobrir como alimentar as 9 bilhões de pessoas que habitarão a Terra.

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Para alimentar seis astronautas numa missão de dois anos e meio são necessários 8.000 quilos de comida. Comida essa que não pode estragar e que deve ser enviada para Marte em um voo não tripulado, antes da ida dos astronautas, para evitar excesso de peso na nave onde eles viajam.

A Dra. Grace conta que nos primeiros voos, na década de 60, a comida era em forma de cubos ou em tubos, espremidos diretamente na boca. Nunca em formato de pílula, já que um componente importante é tentar garantir a maior semelhança possível com a comida na terra. Um dos avanços mais bem vindos pelos astronautas, já no início dos anos 70, foi a possibilidade de usar uma colher para comer, magnética para ficar presa à bandeja. Depois disso vieram as comidas em bolsas plásticas, que podem ser reidratadas, e os canudinhos com válvulas para evitar que os líquidos se espalhem.

Alimentos desidratados e colheres magnéticas para os astronautas. FOTO: Nasa/Divulgação

No caso do voo para Marte, as pesquisas enfocam a durabilidade dos alimentos, investigando como é possível manter sabor e nutrientes intactos por longos períodos. É possível que, além das alimentos liofilizados (um método de desidratação), também se utilize o método de bioregeneração, que permite o cultivo de plantas no espaço.

Enquanto isso, na Terra. Outro tema tratado na conferência foi a produção de carnes em grandes reatores, a partir de células-tronco. A ideia é simples: se as células podem produzir órgãos, também poderiam produzir picanha. Os testes estão sendo feitos com células musculares e o desafio é chegar em sabor e textura aceitáveis. Para que os tecidos ganhem elasticidade (o que a vaca faz naturalmente caminhando), os cientistas utilizam choques elétricos, que fazem com que as fibras se contraiam.

O professor Mark Post, da Universidade de Maastricht, na Holanda, prevê que a carne como a que consumimos, produzida com alto impacto ecológico e possíveis maus tratos aos animais, será coisa do passado. Até o momento, o maior pedaço de proteína que conseguiram produzir tem 2 x 2 cm. Não é pesado nem volumoso. Por enquanto, é só uma migalha de hambúrguer.

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