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Há mais de 100 anos tudo já acabava em pizza

Em 10 de julho é comemorado o Dia da Pizza no Brasil. Paixão nacional, ela foi preparada pela primeira vez na Santa Genoveva, aberta em 1910, no Brás

10 julho 2018 | 16:37 por Dias Lopes

A pizza chegou ao Brasil através de São Paulo, entre os séculos 19 e 20, trazida pelos imigrantes do sul da Itália. Virou paixão nacional. Todas as informações indicam que a primeira cantina a prepará-la foi a Santa Genoveva, aberta em 1910 no bairro do Brás. Funcionava na Avenida Rangel Pestana, esquina com Rua Monsenhor Anacleto, e pertencia ao napolitano Carmino Corvino, o Dom Carmenielo.

Ele desembarcou em São Paulo em 1897. Como outros patrícios, começou a trabalhar na capital vendendo pizza na rua, cortada em pedaços. Assava-a no forno de casa e a carregava em um tambor portátil, com carvão em brasa para não esfriar. Quando amealhou algum dinheiro, fundou a pioneira Santa Genoveva.

Dia da Pizza.

Dia da Pizza. Foto: Felipe Rau|Estadão

Sua casa virou ponto de reunião dos italianos, sobretudo dos barulhentos e simpáticos napolitanos. Além de preparar a pizza em quatro variações tradicionais - mozzarella, napolitana, alice e mezzo a nezzo (alice e mozzarella) -, Don Carmenielo divertia a clientela com a potente voz de tenor. Segundo o historiador Geraldo Sesso Júnior, no livro Retalhos da Velha São Paulo (Câmara Municipal de SP, 1983), uma das suas canções favoritas era Marecchiare, sucesso na época. Outra característica dele: socorrer os necessitados. Alto e corpulento, parecia um brutamontes. Mas, conforme Sesso Júnior, "era fonte de bondade". Morava nos fundos da cantina com a mulher, Anunciata, também italiana do sul, e a família numerosa. Ali havia sempre um cômodo para acolher o patrício em dificuldades. Apesar de pródigo, ficou rico, mas acabou perdendo tudo. Morreu pobre.

Dizia-se que gastava demais com mulheres espertas. Sedutor incorrigível, Dom Carmenielo veio para o Brasil fugindo da ameaça de morte do marido de uma napolitana com a qual se envolveu. Na viagem de navio conheceu Anunciata, companheira pelo resto da vida. As infidelidades do marido provocavam ciúmes na mulher. Mas entre Dom Carmenielo e Anunciata os conflitos terminavam em pizza. Tiveram oito filhos. A Santa Genoveva fechou há muitos anos. Um dos netos de Dom Carmenielo, Nelson do Carmo Corvino, abriu uma cantina e pizzaria na Av. Pompeia, 765. Chamava-se Recanto Di Carmo. Agora, mudou o nome para Dom Carmenielo.

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A propósito, a expressão "terminar em pizza", usada para designar escândalos que acabam sem punição, também surgiu em São Paulo. A versão mais aceita é que foi cunhada pelo falecido cronista esportivo Milton Peruzzi, torcedor do Palmeiras. Na década de 60, os dirigentes do Palmeiras, reunidos na sede do clube, digladiavam-se em batalha verbal. Movidos pelos clamores do estômago, foram juntos matar a fome na vizinha Cantina e Pizzaria Genovese, onde finalmente se entenderam. No dia seguinte, a manchete da reportagem de Peruzzi, em A Gazeta Esportiva, era: "Crise do Palmeiras terminou em pizza".

* Texto publicado originalmente em 30 de setembro de 2010, na coluna "O melhor de tudo"

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