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História das feiras livres de São Paulo é tema de novo livro

Livro traça panorama dos cem anos de feiras livres em ruas paulistanas

27 janeiro 2016 | 19:03 por José Orenstein

Enquanto nos Estados Unidos se comemora o aparecimento dos “farmers markets” nas grandes cidades, em São Paulo temos em cada bairro, toda semana, há cem anos, frutas e verduras frescas tomando a rua em feiras livres – para não falar de ovos, peixes, farinhas, carnes e, claro, pastel com caldo de cana.

Para celebrar esse centenário, completado em 2015, foi lançado nesta semana o livro 100 Anos de Feiras Livres na Cidade de São Paulo. A obra, de autoria do engenheiro agrônomo Hélio Junqueira e da economista Marcia Peetz, traz um panorama da história das feiras paulistanas ao longo de 312 páginas com fotos e textos em edição bilíngue.

Olhe a banana. Barraca de fruta em feira livre na Vila Ré, bairro da zona leste de São Paulo

Olhe a banana. Barraca de fruta em feira livre na Vila Ré, bairro da zona leste de São Paulo Foto: Werther Santana|Estadão

O livro vai lá na Idade Média e nos burgos europeus do século 11 para iluminar a gênese dos mercados de abastecimento e distribuição de gêneros alimentícios no mundo. De lá, vem percorrendo historiografia consagrada para rastrear a origem da feira livre de São Paulo. Algumas curiosas histórias aparecem no percurso, desde quando essa nossa hipertrofiada metrópole era um vilareco de poucos milhares de habitantes. Lemos que, no começo, não havia moeda suficiente na cidade. Assim, no comércio de gêneros alimentícios era comum o escambo.

É também interessante a passagem que relata como, na virada do século 17 para o 18, São Paulo vira centro de irradiação da cultura do milho no País. O grão alimentava as gentes e o gado. Era semeado por bandeirantes marchando em direção ao oeste, que deixavam-no plantado para os próximos que seguiriam seus passos ao interior.

Já nos meados do século 19, começam a se formar no cinturão que envolvia a cidade, então com 50 mil habitantes, hortas com acelga, couve, cheiro-verde. Nesse período, aparecem as quitandeiras negras, precursoras da hoje celebrada comida de rua, que alimentavam passantes com “broas de polvilho, empada de milho com peixe, cuscuz de bagre e camarão de rio, regado aos goles de café”.

Os vaivéns na construção de centros de distribuição, com erros de planejamento e atrasos, no fim do século 19 em São Paulo, mostram que alguns de nossos problemas contemporâneos são antigos. Mais à frente, os autores ligam o surgimento da feira livre aos movimentos anarquistas que ganharam força na década de 1910. Com as crises de abastecimento, os alimentos encareceram e os trabalhadores se revoltaram. Como resposta do governo, foram criados os mercados francos, onde não se cobravam impostos sobre a transação de alimentos.

100 anos de feiras livres na cidade de São Paulo. Dos autores Hélio Junqueira e Marcia Peetz. Editora Via Impressa, 312 páginas, R$ 130.

100 anos de feiras livres na cidade de São Paulo. Dos autores Hélio Junqueira e Marcia Peetz. Editora Via Impressa, 312 páginas, R$ 130. Foto: Reprodução

Diversos episódios como esses são retratados de 1915 até hoje, com a oficialização das feiras. No começo rejeitadas por parte da opinião pública, que as via como ameaça à higiene, elas vão conquistando espaço, num processo de disputa política e também de consolidação de uma cultura. “Hoje elas já estão estabilizadas, têm lugar definitivo em São Paulo”, diz Hélio.

Ao fim da obra – uma pesquisa bem-feita e rigorosa –, o leitor certamente terá uma compreensão mais profunda das feiras e da forma como nos chegam os alimentos em São Paulo. O estilo mais acadêmico, com jargões, mesóclises e ordem indireta na construção das frases, faz a leitura não ser a coisa mais prazerosa do mundo. Mas, como uma boa obra de história, faz entrever o presente no passado e amplia o entendimento do atual estado de coisas. 

Outra opção de leitura sobre feiras:

Edição bilíngue, reúne histórias sobre 15 feiras e mercados de todo o Brasil, com fotos e receitas. Autor: Elizabeth ZakhiaEd.: independente (117 págs., R$ 50, elizabeth.zakhia@sodexo.com).

Edição bilíngue, reúne histórias sobre 15 feiras e mercados de todo o Brasil, com fotos e receitas. Autor: Elizabeth ZakhiaEd.: independente (117 págs., R$ 50, elizabeth.zakhia@sodexo.com). Foto: Reprodução

>> Veja a íntegra da edição de 28/1/2016

 

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