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Livro português do século 19 sobre a arte da ‘cosinha’ ganha fac-símile

Obra publicada em 1876, em Portugal, pelo cozinheiro João da Matta, traz as receitas de 10 jantares completos, incluindo preparos para a família imperial brasileira

25 julho 2018 | 20:51 por Ana Paula Boni

Era 1876 quando o livro Arte de Cosinha foi lançado em Portugal pelo cozinheiro João da Matta, com 10 jantares pormenorizados (cada um com 10 preparos ou mais), além de pratos dedicados à família real portuguesa e à família imperial brasileira. Obra rara, o original da Biblioteca Fran Paxeco, que fica em Belém (PA), acabou dando vida a uma versão fac-similada lançada no mês passado.

Até o formato do volume, do tamanho da palma de uma mão, segue o padrão do original, que reúne 300 páginas com receitas, ensinamentos técnicos e um capítulo sobre a arte de servir. Arte de Cosinha é registro não só da escrita e dos vocábulos usados em fins do século 19 como também é memória dos ingredientes e modos de preparo então em voga.

Folha de rosto de 'Arte de Cosinha'

Folha de rosto de 'Arte de Cosinha' Foto: Reprodução

Sem qualquer falsa modéstia, o autor - então chef do Grand Hotel du Matta e do Hotel João da Matta, em Lisboa - explica o livro aos leitores na apresentação: “O que não tenho duvida em affiançar é que são positivamente praticas todas as minhas receitas, porque milhares de vezes me teem servido [sic]”. 

O prefácio, do escritor português Alberto Pimentel, faz uma digressão sobre a gastronomia da época na Europa, percorrendo modas e conceitos de Itália, Grécia, França e também Portugal. Depois, tudo é receita. A primeira delas, do primeiro jantar descrito, é a “sôpa printanière”, que João da Matta começa ensinando pelo modo de cortar as hortaliças: “Nabos e cenouras, cortados a vazadores de seis linhas de comprido; uma raiz de aipo cortada do mesmo tamanho; (...) duas cebolas cortadas em dados”.

Os ingredientes e suas quantidades devem ser pescados no meio do texto corrido: “Uma mão cheia de ervilhas finas, um pouco de feijão verde, uma mão cheia de pontas de aspargos”.

E seguem receitas de “costelletas de vitella em papelotes”, “assado de codorniz com môlho à Perigueux”, “feijão verde guisado”, “pastellinhos d’ostras” e até um “pirão escaldado de farinha de páu à brasileira (para carne)”, sendo farinha de pau a farinha de mandioca. E mistura receitas de várias culinárias europeias, como francesa (choux à la crême) e portuguesa (pastéis de nata).

Sua receita “offerecida respeitosamente à família imperial do Brazil” é a bomba de neve: uma sobremesa gelada que leva frutas como “abacachy, jaca, pecegos e bom melão”.

Ao fim do livro, João da Matta orienta “instrucções para um creado saber pôr a mesa e servir um jantar à russiana, que é a moda adoptada hoje pelas pessoas de distincção em todo o mundo civilisado”. Isso inclui “o creado apresentar-se de barba feita e mãos lavadissimas”, além de usar toalha de cor adamascada e depois toda sorte de vasos de flores e peças para velas, indicando se de porcelana ou de cristal, e saber onde vão os talheres e que vinhos deverão ser servidos (“portuguezes ou hespanhoes”, além dos que determinar o dono da casa).

Parceria do governo do Pará com o Grêmio Literário e Recreativo Português de Belém, onde fica a Biblioteca Fran Paxeco, o livro pode ser encomendado no Consulado Geral de Portugal em São Paulo (R$ 50, pelo tel. 3084-1800).

 

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