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Neide Rigo

Macambira, a bromélia (comestível) da Caatinga

Seu broto - chamado de mocó, pitó ou maçã de macambira - lembra palmito, com miolo branco, tenro e adocicado, e rende suspiros entre os sertanejos

03 agosto 2016 | 19:07 por Neide Rigo

Sigo pelo sertão não sem antes tomar os devidos cuidados com as infinitas armadilhas que ele nos arma a cada passo, tudo para defender o bioma tão frágil que é a Caatinga. São caboclos raivosos que constroem suas colmeias nas forquilhas em pés de amburana e picam doído; as folhas peçonhentas da favela com seu veneno que arde, coça e queima; os espinhos do mandacaru que atravessam pés calçados; e os maciços de macambira com espinhos curvados.

A intervalos irregulares os espinhos da macambira resolvem mudar a direção formando verdadeiras garras. Se você se enrosca, solta-se de um, mas não escapa do outro. Quanto mais tenta se desvencilhar, mais aqueles contrários se afundam na sua carne, rasgando sem dó.

Dizem que na Guerra de Canudos os soldados eram atraídos pela tropa do Conselheiro para as moitas de macambira para ficar enganchados. É tão difícil escapar das unhas dela que gente ruim, falsa e sem piedade recebe o apelido de macambira. Mas macambira é ainda sinônimo de resiliência e sustento. Seu talo carnudo alimenta o gado e a cabra na seca – os criadores queimam as folhas para restar um tipo de batata que usam também para fazer farinha para mingaus, farofas, angus, biscoitos. 

RECEITA: Salada de mocó de macambira com rapadura, coentro e cebolas

O broto (ou mocó) da macambira, a bromélia da Caatinga

O broto (ou mocó) da macambira, a bromélia da Caatinga Foto: Neide Rigo|Estadão

Mocó de macambira, no sertão por onde andei, interior da Bahia, região de Canudos, é o broto de uma bromélia da Caatinga, a Bromelia laciniosa, chamada ainda de pitó de macambira ou maçã de macambira. 

Eu já tinha comido uma vez, mas foi um brotinho. Na última vez que estive lá, porém, num piquenique na sombra de uma catingueira, saí pelo mato com a amiga Jussara e algumas crianças para tentar encontrar brotinhos. Gourmetizando a situação, me senti caçando trufas com a diferença que os mocós estavam bem ali e sem apelo. 

Não há por ali quem não suspire de prazer à simples menção desses palmitinhos crocantes. A gente vai descascando o broto, tirando camadas de miniaturas das folhas espinhentas até chegar ao miolo branco, tenro e adocicado. O rendimento é baixo. 

Quanto comi pela primeira vez não pude deixar de comparar às deliciosas “castraure” italianas de Sant’Erasmo – são os primeiros brotos da alcachofra assim que despontam. Não pelo sabor, mas pela situação e pelo caráter juvenil de broto tenro. Com a diferença de que as “castraure” são caras. 

Não sei se um dia alguém vai se interessar em cultivar macambiras para tirar batatas e mocós. Dificilmente vamos ver estes brotos nas feiras, mas já ficaria feliz se os próprios sertanejos incluíssem mocós na dieta e passassem a proteger a espécie, que vive ameaçada com a perda galopante da Caatinga. Com um mínimo de manejo seria possível ter tudo isto e ainda sobraria para nós quando fôssemos visitar o sertão, um lugar para onde todo brasileiro deveria ir ao menos uma vez na vida. 

A receita mais tradicional é abocanhá-lo ali mesmo. Mas podemos fazer tudo o que fazemos com os palmitos – saladas, recheios, sopas etc. Assim que mordi pensei numa salada com um molho leve e adocicado com rapadura, alho, limão, pimenta, cebolas brancas e roxas, tomatinho, coentro. E não é que ficou muito bom! Mas, claro, você pode adaptar com o que tiver por perto desde que tenha uma mãozada de macambiras – ou qualquer outro palmito, de preferência os menos convencionais como o de taboa, cana, palmeira.

O mocó de macambira desfolhado

O mocó de macambira desfolhado Foto: Neide Rigo|Estadão

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