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Metralhadora Culinária, o Retorno

Se você pensa que o sucesso domesticou Anthony Bourdain, pense outra vez. Em seu novo e segundo livro de memórias, que está sendo lançado no Brasil, o chef terrible volta mais feroz, perspicaz, bocudo... e hilário que nunca

24 agosto 2011 | 21:36 por Olívia Fraga

Fama e dinheiro pareciam ter amansado Anthony Bourdain. Em aparições públicas, o chef estava mais respeitoso, interessado, um "homem bom", com a mulher Ottavia a tiracolo. O mundo lhe ensinara civilidade. O sucesso equilibrara a balança.

Acredita mesmo nas aparências? Não se engane. Anthony Bourdain voltou impossível com Medium Raw, seu segundo livro de memórias, de 2010, que acaba de ser lançado em português com o nome Ao Ponto. Quando escreve, Tony não é apenas engraçadinho. Ele é bocudo. Tudo bem, "atitude" hoje é incapaz de incomodar, mas em prosa a ferocidade funciona que é uma beleza. Em sujeitos inteligentes como ele, que fazem parte do jogo e por isso devem dar o exemplo, o resultado é hilário. Garantem uma leitura veloz às gargalhadas. Há os bastidores picantes e conclui-se muito sobre o homem moral. Imoral?

Desta vez, Bourdain olha para os anos pós-Cozinha Confidencial, período em que viu "o diabo de frente" (o sistema) tentando sufocá-lo. Coincide com a época em que o chef ganha amigos "da mídia" e viaja o mundo com o programa de TV criado para ele no Food Network - ele abominava o canal por toda a mediocridade do elenco (Rachel Ray e Sandra Lee) e pelo que pregava. Seus executivos tiveram a audácia de vetar o episódio com Ferran Adrià (veja bem, é o homem que ele execrou em Cozinha Confidencial) apresentando cada prato da estação com o argumento de que a cozinha espanhola "é muito sofisticada para o público americano". Não lhe valeu encontrar refúgio em outro canal. O Food Network comprou o Travel Channel de Tony por US$ 1 bilhão, o que o atirou de novo "no ventre da besta".

Ao Ponto é a memorabília do chef celebridade no estilo "vim, vi, venci". É um livro agradecido. Bourdain ainda está surpreso diante da vida, de começo errado, que deu certo. É também a história de como as opiniões do cozinheiro, com quem milhões gostariam de tomar um trago, se tornaram mais importantes logo que deixou de tocar uma cozinha profissional - irônico, não tem o pudor em dizer que "sorri" quando o chamam de chef.

Se você procura o livro para saber se serve para o ofício, melhor fazer antes uma autoanálise. Passou dos 30? Esqueça. É dinheiro jogado fora. Desista se estiver acima do peso: não sobreviveria aos primeiros anos e ainda iria atrapalhar os colegas quando passasse pelos estreitos corredores das cozinhas. Chefs não prestam.

Quando cansa de falar de sexo e de maldizer (Alice Waters "é hipócrita"), Bourdain é um belo cronista de época. Responsabiliza a crise de 2008 pela redescoberta da comfort food. Cita Jonathan Gold, o homem "que tem razão em tudo", atual crítico do L.A. Weekly: "A comida ocupou na cultura jovem o lugar que costumava ser do rock’n’roll - se tornou singular, feroz e intensamente política". Mas Bourdain tem um sonho: ver surgir em Manhattan uma grande praça de alimentação, como as que existem no Sudeste Asiático, para se empanturrar de beber e comer.

AO PONTO

Autor: Anthony Bourdain

Editora: Companhia das Letras

(328 págs., R$ 49,50)

Ficou com água na boca?