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Museus com foco em comida se espalham pelo mundo

Estreia mais recente é a Cidade Internacional da Gastronomia, em Lyon, aberta no mês passado dentro do Grand Hôtel-Dieu

19 de novembro de 2019 | 08:00 por Vivian Song, The New York Times

A cidade de Lyon, na França, espera consolidar sua reputação como berço da gastronomia francesa com a abertura de um novo centro cultural de gastronomia que vem sendo descrito como o primeiro de seu tipo na França e o maior no mundo.

Depois de seis anos de construção, a Cité Internationale de Gastronomie de Lyon (Cidade Internacional da Gastronomia) abriu as portas no mês passado, dentro do Grand Hôtel-Dieu, um antigo hospital que remonta ao século 12.

Sala do Cité Internationale de Gastronomie, em Lyon, na França.

Sala do Cité Internationale de Gastronomie, em Lyon, na França. Foto: Philippe Desmazes/Agence France-Presse

Com quatro andares e 4 mil metros quadrados, o centro, que custou 20 milhões de euros (cerca de US $ 22 milhões), foi projetado para proporcionar uma experiência interativa e sensorial para os visitantes: o cheiro de frango borbulhando em uma caçarola flutua pelo espaço dedicado à cozinha tradicional de Lyon, enquanto uma exposição virtual recria as imagens e os sons de uma feira livre.

A inauguração do centro amplia ainda mais a rica paisagem gastronômica de Lyon: a cidade abriga a Bocuse d'Or, uma competição internacional de culinária; os tradicionais restaurantes bouchons; e o restaurante do célebre chef Paul Bocuse, que morreu no ano passado.

Florent Bonnetain, diretor e gerente geral do projeto, disse que o centro de culinária quer aproveitar a herança do antigo hospital, explorando as conexões entre alimentação e nutrição, juntamente com sustentabilidade, economia e cultura alimentar internacional.

“Estamos abordando a gastronomia como um todo”, disse Bonnetain. “Existem museus temáticos de alimentos em todo o mundo, mas aqui queríamos pegar a gastronomia e abordá-la do ponto de vista cultural e educacional”.

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Instalação da Cidade Internacional da Gastronomia, em Lyon.

Instalação da Cidade Internacional da Gastronomia, em Lyon. Foto: Thierry Fournier/Metropole Lyon

De fato, museus temáticos centrados em um único item alimentar existem há décadas, seja chocolate, sorvete, batata frita ou lámen. Além disso, existem os museus de comida de marca, como SPAM, Guinness, Coca-Cola ou Jell-O. Eles tendem a ser caricatos e autopromocionais, às vezes descambando para o kitsch.

Mas, nos últimos anos, debates sobre segurança alimentar, mudanças climáticas e saúde pública geraram exposições mais ambiciosas e cuidadosamente selecionadas em todo o mundo.

Depois de um primeiro lançamento como exposição móvel em 2013, o Museum of Food and Drink (Museu da Comida e Bebida) encontrou um espaço permanente em um estúdio de 500 metros quadrados na cidade de Nova York em 2015. Ele já explorou os sabores naturais e artificiais da indústria de alimentos, a evolução dos restaurantes chineses-americanos e, em fevereiro do ano que vem, estreia uma exposição sobre as contribuições de chefs, agricultores e produtores afro-americanos à cultura alimentar.

O diretor executivo, Peter Kim, começou a ventilar a ideia em 2012 e disse que foi recebido principalmente com ceticismo e “perplexidade”. Mas, desde então, ele notou uma mudança radical na recepção do museu e na maneira como as pessoas pensam em comida, graças a uma confluência de fatores: políticas públicas relacionadas à alimentação, imigração, atenção da mídia, mudanças climáticas e crescente interesse acadêmico.

“Todas essas coisas se alimentam e reforçam a ideia de que os alimentos são muito mais do que meras experiências gustativas. Hoje, há um entendimento de que, toda vez que você dá uma mordida em alguma coisa, está se conectando a um mundo diferente”, disse ele.

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Natto, soja fermentada, do Disgusting Food Museum, na Suécia.

Natto, soja fermentada, do Disgusting Food Museum, na Suécia. Foto:

O interesse da mídia internacional também ajudou o Disgusting Food Museum (Museu da Comida Nojenta) – que abriu no outono passado como uma exposição temporária em Malmo, na Suécia – a se tornar permanente em janeiro e organizar versões pop-up em vários países. Apesar do nome, a exposição não visa a provocar repulsa, mas sim a desafiar as noções das pessoas sobre o que é comestível e o que não é: queijo infestado de larvas ou testículos de touro podem ser um horror para uma pessoa e uma iguaria para outra. Além disso, os curadores dizem que mudar nossas ideias de nojo pode nos ajudar a adotar alimentos mais sustentáveis – principalmente insetos – no futuro.

Na Europa, nos últimos meses, o Museu da Humanidade em Paris abriu a exposição Como, logo existo, explorando o papel evolutivo, ecológico e cultural da comida na civilização. Já o Museu Victoria and Albert em Londres acabou de exibir a mostra Comida: Maior que o Prato, que abordou temas como agricultura urbana, gastronomia, política e sustentabilidade.

Instalação do museu Cité du Vin, em Bordeaux, na França.

Instalação do museu Cité du Vin, em Bordeaux, na França. Foto: Susan Wright/The New York Times

Na Cité, cozinhas funcionais, laboratórios experimentais e espaços para conferências e debates foram projetados para enriquecer a experiência do visitante. O conceito geral reflete o Cité du Vin de Bordeaux, um museu do vinho que foi inaugurado em 2016 e explora a produção de vinho em toda a civilização e também realiza conferências da indústria.

“Sabemos que a gastronomia é uma grande atração turística para Lyon”, disse Bonnetain. “Com o museu, nossa esperança é que os visitantes possam experimentar a gastronomia de maneira diferente. Queremos ser uma experiência complementar aos restaurantes da cidade”.

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/ Tradução de Renato Prelorentzou

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