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Nacionalismo, tradição e uma pitada de carnaval na Copa do Mundo da gastronomia

No Bocuse d’Or, na França, mulheres competidoras são coisa rara, pratos desfilam como carros alegóricos e as torcidas vibram como no futebol

06 de fevereiro de 2019 | 20:19 por Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

De Lyon 

“O estandarte ensanguentado se ergueu (L'étendard sanglant est levé)”, diz o trecho da Marselhesa entoado pelos torcedores franceses durante a apresentação de uma bandeja de carré de vitelo aos jurados do Bocuse d’Or, espécie de Copa da Mundo da Gastronomia, que aconteceu nos dias 29 e 30 de janeiro em Lyon, na França. Embora o “estandarte ensanguentado” do hino não seja uma referência ao ponto da carne, ele se encaixa perfeitamente no contexto de orgulho nacionalista e apego às tradições presentes na competição. 

Platéia antes do anúncio dos ganhadores do Bocuse d'Or em Lyon

Platéia antes do anúncio dos ganhadores do Bocuse d'Or em Lyon Foto: Bocuse dOr

O Bocuse d’Or é revestido por uma áurea cerimoniosa e repleta de rituais particulares – que vão da entrega das dólmãs à entronização das bandeiras de cada país participante em um supermercado estilizado. Ali, os chefs são quase como cavaleiros medievais entrando em uma arena. “Que comecem os jogos” – ninguém disse, mas ficou subentendido tão logo soou o primeiro sinal. 

A competição contou com 24 chefs de nacionalidades diferentes, escolhidos após 18 meses de etapas seletivas em 63 países. Entre os chefs, apenas duas mulheres (representantes da Tailândia e da Coreia do Sul). Apesar da diversidade de nacionalidade, a maioria dos competidores passariam, facilmente, por locais na...Dinamarca.

A única concorrente negra não estava no Bocuse d’Or, mas na Coupe de Monde de la Pâtisserie, – e era a brasileira Letícia Cruz. Aliás, era do Brasil também a única mulher entre os 24 juízes do Bocuse d’Or. Enfileirada entre seus pares, a alagoana Giovanna Grossi era a novidade daquele ‘concilio’. Entre os papas da gastronomia, não à toa, ela foi a mais aplaudida. 

O caráter de “clube fechado” foi acentuado nessa edição, com a exigência da apresentação de um carré assado (que precisava ser preparado sem a utilização de nenhuma tecnologia moderna de cozimento) e de uma chartreuse. Sim, uma receita do século 18, criada para driblar uma regra religiosa que obrigava os monges franceses a serem vegetarianos (os monges escondiam pedaços de carne no interior da chartruse).

Giovanna Grossi a brasileira era a única mulher entre os 24 juízes do Bocuse

Giovanna Grossi a brasileira era a única mulher entre os 24 juízes do Bocuse Foto: Julien Bouvier

Mas, voltando a competição (e ao lado reality show dessa história), as equipes tinham 5h35 minutos para finalizarem e apresentarem suas duas criações. O Brasil foi representado pelo chef Luiz Filipe Souza; o cumim Vinicius Pires; e o técnico Renato Carioni.

Enquanto, os competidores se concentravam em seus pratos, a torcida brilhava com coreografias, performances (como a da Marselhesa) e versões de ‘Seven Nation Army’ (música do White Stripes que virou clássica em jogos de futebol pela Europa). 

No meio da torcida, destaque para o micro universo de relações internacionais: a provocação entre torcedores franceses e belgas; o humor dos britânicos, a sensação de ‘todos contra os americanos’, a ordem dos japoneses e a seriedade dos escandinavos. O Brasil também estava lá, mas esse repórter não ouviu ‘sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor’.

Destaque para a presença do príncipe da Suécia, o Carlos Filipe Edmundo Bertil, duque da Varmlândia, entre os súditos da plateia. À titulo de informação inútil, em 2008, ele foi considerado pela revista Forbes um dos 20 mais bonitos da realeza.

Ritual. Desfile das bandejas de carrés

Ritual. Desfile das bandejas de carrés Foto: Julien Bouvier

Um pouco antes da apresentação dos pratos, a imprensa pode entrar na área de competição e acompanhar os chefs mais de perto. Para além de toda a encenação, típica desse tipo de evento, o trabalho concentrado e detalhistas dos profissionais se destacava. No box brasileiro, Luiz, Vinicius e Renato atuavam em sintonia – sem deixar transparecer o nervosismo, as noites maldormidas, a dor de estômago, o vômito antes de entrar no palco (Vinícius passou realmente mal) e até dificuldades com a qualidade da carne disponibilizada pela organização.

A exibição do carré aos jurados trouxe ao evento um quê carnavalesco. Dois chefs carregavam as bandejas pesadas e adornadas até os juízes. Eram como parangolés ou alegorias de porte médio (algumas escorregavam no bom gosto). De longe, a sensação era de que a qualquer momento elas iriam ao chão (não aconteceu, ainda bem).

Os jurados, impassíveis, anotavam aspectos da peça e tiravam fotos com seus celulares. Aliás, os avaliadores, simplesmente, não demonstravam nenhuma emoção ao degustarem os pratos. Ao observá-los, não era possível separar o que era divino daquilo que, ocasionalmente, teria gosto de isopor. Por falar nisso, na arena de competição, só o corpo do júri podia comer. Quem estivesse com fome tinha como opção dar uma volta na Sirha (feira de gastronomia que abriga o concurso). Na feira, era possível 'beliscar' nos estandes. O Brasil também tinha o seu espaço, com direito a tapioca, pimentas e cachaça. 

Box da equipe brasileira durante a prova. No meio o Luiz Filipe Souza ao lado (dir.) o cumim Vinicius Pires

Box da equipe brasileira durante a prova. No meio o Luiz Filipe Souza ao lado (dir.) o cumim Vinicius Pires Foto: Julien Bouvier

O veredicto final trouxe a Dinamarca, sob a liderança do chef Kenneth Toft-Hansen, como o campeão do Bocuse d’Or 2019. Na segunda posição ficou a equipe da Suécia e, em terceiro, a da Noruega. O Brasil terminou em 23º (penúltima posição). Embora o resultado não diminua o valor da participação brasileira (que foi a Lyon com menos recursos financeiros e de possibilidade de preparação do que a maioria dos que estavam lá), a equipe acompanhou o resultado com o abatimento de quem não entra em uma competição ‘para participar’. 

O objetivo inicial dos time brasileiro era ficar entre os 10 primeiros. Não deu. “É claro que eu queria mais, mas acredito que iniciamos uma trajetória. Deixamos um legado para os próximos competidores”, afirmou o chef Luiz logo após a divulgação do resultado.

Que o recado da Marselhesa carregue o Brasil para o próximo Bocuse d’Or: Aux armes citoyens/ Formez vos bataillons/Marchons! Marchons! (Às armas, cidadãos/ Formai vossos batalhões/ Marchemos, marchemos!)

*VIAGEM A CONVITE DA ACADEMIA BRASIL D’OR 

 

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