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Prato-cabeça

Roberto Smeraldi

Não existe almoço de graça. Nem jantar

O custo de uma refeição vai muito além do valor que o estabelecimento cobra

11 novembro 2015 | 15:45 por Roberto Smeraldi

Seu vizinho sai da lanchonete pagando R$ 4,90 por um megacombo hipercalórico: quem paga o resto da conta? Você. E ela é tão salgada quanto o sódio que abunda naquela refeição: US$ 2 trilhões por ano é o custo, nos orçamentos públicos, das consequências de sobrepeso e obesidade. Mas a conta inclui também o custo real de uma carne só aparentemente barata, por ser produzida degradando o solo: apenas no Estado de São Paulo, a erosão gerada por essa prática custa, em perda de fertilidade e produtividade, cerca de R$ 1 bilhão a cada ano.

Já sabemos que muitas vezes a comida barata acaba saindo cara. É uma lição que aprendemos por meio da experiência individual com nosso bolso de consumidores. Muito menos sabemos sobre o que ocorre com nosso bolso de contribuintes. Pagamos em impostos diretos e indiretos mais do que poupamos na gôndola. Ou, pior ainda, do que outros pouparam ao escolher o que jamais compraríamos.

É preciso enxergar os custos sociais gerados por produtos com preços “inacreditáveis”. Tão inacreditáveis que não merecem mesmo ser acreditados, de acordo com o relatório lançado hoje pelo Food Tank – organização que reúne lideranças engajadas na boa alimentação nos cinco continentes. O verdadeiro custo da comida mostra aos tomadores de decisão que as mágicas não passam de ilusão, e como as contas públicas bancam produtos que chegam ao mercado abaixo do custo de produção e transporte.

Homem aplica pesticida em parreiral de vinícola em Petrolina (PE). FOTO: Epitácio Pessoa/Estadão

Ficou com água na boca?

O trabalho traz informação oriunda de pesquisa nos setores da saúde, do trabalho, do meio ambiente, da logística, levando a entender o que os economistas aprenderam com Milton Friedman, mas às vezes esquecem ao assessorar os políticos: que não existe almoço de graça. Os custos escondidos – externalidades no economês – são inúmeros, desde tributos por custos sociais a subsídios para commodities, desde abastecimento de água até redução de produtividade por perda de biodiversidade.

Mas as externalidades podem também ser positivas, ou seja, há muito agricultor ou pescador que faz a sociedade poupar e, neste caso, deveria ser remunerado. Sabe aquele orgânico que você acha caro? Feitas as contas, pode diminuir os custos sociais, sendo que o custo anual da resistência a antibióticos para o sistema de saúde, apenas nos EUA, chegou a US$ 55 bi. Enquanto o dos pesticidas (legais) que afetam o sistema endócrino atinge US$ 209 bi só na União Europeia.

Já comprar aquele pargo de 30 cm na feira – abaixo do tamanho mínimo – por convidativos R$ 20 o quilo… contribui para os US$ 70 bilhões de perdas por ano na indústria pesqueira mundial, que depois pagamos em subsídios (mesmo quem não come peixe) e também em preços mais altos do produto correto.

Quanto maior for a distância entre o produtor e o consumidor e quanto mais fortes forem os elos intermediários nos quais se perde a transparência dos preços, mais fácil será a transferência de parte do custo de um produto do bolso do consumidor para o bolso do contribuinte. O relatório contribui para que a indústria comece a abandonar esse truque barato. E aponta como iniciar uma transição para os sistemas contábeis mais inclusivos, chamados de Contabilidade do Custo Real.

>> Veja a íntegra da edição de 12/11/2015

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