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Comida

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Não manguem do mangarito

Super versátil, esse ingrediente pode ser usado tanto em receitas doces quanto salgadas

16 agosto 2012 | 08:01 por Neide Rigo

Versátil, o mangarito vai bem em receitas doces e salgadas (Foto: Felipe Rau/AE)

Para quê saber dessas coisas esquisitas se elas não podem ser compradas no supermercado?, pode perguntar o leitor. Ora, uma coisa pode vir antes da outra e assim, talo a talo, avançamos. Quem sabe um dia você não se depara com uma bacia de mangarito na feira de uma pequena cidade que foi visitar ao acaso? Se você souber o que é, vai querer comprar.

Sabe aquele ambiente de “beldroegas em carreirinha indiscreta” que Guimarães Rosa descreve como o lugar esvaziado pela malária no conto Sarapalha, em Sagarana? Meu primeiro mangarito veio de um lugar assim, como uma metáfora para seu quase completo desaparecimento.

Foi há mais de dez anos, em Pirenópolis. Fui visitar a sogra do dono da pousada, que vivia num engenho desativado. O cenário era o de abandono da terra. A mulher viúva, que fazia comidas deliciosas em panelas de alumínio areado na cozinha encardida pela fumaça de lenha, me mostrou a horta tomada de carurus, serralhas e ervas daninhas. Entre o inço e a tiririca seca, avistei uma moita de folhas viçosas em forma de coração. “Ah, é mangarito. Já tive muito, agora esse aí nasceu de teimoso, pode pegar se quiser, que eu compro batatas.” Claro que aceitei.

Plantei no sítio os rizomas que trouxe. Logo se multiplicaram.

Eu só conhecia de nome, de tanto meus pais falarem – mangarito com frango caipira, mangarito assado na brasa com melado, etc. – e de uma crônica da Nina Horta, a primeira pessoa que vi falando do mangarito na mídia.

Tenho medo de enganar o leitor fazendo-o pensar que comer mangaritos o levará à epifania. Não é o caso. A experiência pode trazer rompantes de alegria pelo conjunto da obra e não só pelo sabor delicado, que tem certa doçura e terrosidade que passam longe, sem picância, amargor nem acidez. Ele tem a marca da ancestralidade, do vegetal rústico, sazonal, nutritivo, não contaminado, dos tempos da horta bem cuidada de fundo de quintal, quando se podia colher variedades brancas, amarelas e roxas.

Esses das fotos são ditos roxos, embora a polpa seja laranja e a superfície tenha coloração rosada. E como são gostosos com melado ou com galinha caipira. Foram presente do seu João Lino Vieira, o maior mangariteiro que conheço, que trabalha com variedades diferentes. Logo vai ter do amarelo, me prometeu.

Enquanto seu João segue reproduzindo variedades que descobre Brasil afora, centros de pesquisa trabalham para recuperar o consumo de hortaliças tradicionais, como faz a Embrapa Hortaliças que vai apresentar agora, em agosto, na Feira da Agricultura Familiar e do Trabalho Rural (Agrifam ), em Agudos, o resultado desse trabalho.

Quem quiser plantar, procure Embrapa ou Instituto Agronômico de Campinas (IAC). E, para plantar e comer, tem o seu João Lino (Tel. 11 971 526 585, www-mangarito.blogspot.com), que manda por correio.

Parece inhame – e batata, e batata-doce e taioba…

Nativo do Brasil Central, o mangarito, Xanthosoma mafaffa Schott, é rústico. Por exigir poucos cuidados e dispensar fertilizantes e defensivos, é um produto orgânico por natureza. Por outro lado, por ter sido associado a comida de roça, e por ser sazonal e ter tamanho e formato indomáveis e variáveis, acabou perdendo lugar para as batatas, sempre certinhas.

O sabor lembra uma mistura de taro, que conhecemos em São Paulo como inhame, e de rizoma de taioba, se é que a comparação entre primos ajuda. E as folhas também são parecidas, já que são todas parentes, da família das aráceas, muito nutritivas e saborosas quando jovens, com textura de espinafre depois de cozidas, de cor verde-viva.

A época de colheita é esta, entre outono e inverno, quando as folhas começam a ficar amareladas. Debaixo da terra fofa, que é assim que tem de ser, o que era um dedo de mangarito plantado torna-se um agrupamento que pode chegar a 200 unidades com formas e volumes variados. De uma batata maior, outro tanto de batatinhas vai se formando lateralmente, por isso é impossível pensar em padrão para mangaritos.

A superfície não é lisa como a das batatas e a rugosidade pode assustar na hora de descascar o vegetal, mas depois de aferventar por poucos minutos, uma surpresa – basta pressionar o mangarito que a casca escorrega como a pele de um tremoço. Mas é bom fazer isto enquanto o mangarito está quente ou morno, pois depois de frio a pele gruda de novo. Nesse caso, uma pequena faca de legumes ajuda. De qualquer forma, a pele é também comestível.

Ficou com água na boca?