Paladar

Comida

Comida

Nhac!

Neide Rigo

Não tenha medo da armadura

No Mercado Ver-o-Peso, em Belém, as bancas exibem sua carne alaranjada escondida sob a armadura medieval de cor cinza

01 outubro 2014 | 19:32 por Neide Rigo

Parece não ser privilégio das espécies vegetais terminadas tonicamente em “a” a sina do desprezo. A mesma sorte do gravatá, pacová ou jatobá tem o tamuatá, peixe com cara de comida de dinossauro. Quem sabe se o chamarmos por outro de seus nomes ele não terá mais sorte?

Conheci o pequeno cascudo (Hoplosternum littorale) no Pará e me afeiçoei ao bicho. No Mercado Ver-o-Peso, em Belém, as bancas exibem sua carne alaranjada escondida sob a armadura medieval de cor cinza. Foi isso que me fez comprá-lo mesmo sem saber o que me esperava. Perguntei como era a forma clássica de preparo e a resposta foi unânime: com tucupi. Levei os dois ingredientes e mais jambu, coentro-de-pasto e pimenta-de-cheiro para a casa dos meus anfitriões paraenses, que festejaram minha escolha acertada. Depois fiquei sabendo que arrisquei: não é todo paraense que aprecia o peixe. E os que não apreciam odeiam.

Tamuatá. Com certas manhas e técnicas, o pequeno cascudo com cara de comida de dinossauro torna-se uma iguaria. FOTO: Neide Rigo/Estadão

Em São Paulo. D. Jerônima Brito tem uma pousada em Soure, na Ilha do Marajó, e andando comigo pelo Mercado da Lapa ficou espantada ao ver no cando da vitrine da peixaria o mesmo tamuatá com o nome de caboge, mais barato que o de lá. Quando o prepara para hóspedes, os que mais gostam são os franceses, e os que mais o rejeitam são os próprios paraenses.

Se preparado corretamente, é um peixe gostoso, forte, com carne firme de fibras grossas. Jean de Léry, em sua obra Viagem à Terra do Brasil, no século 16, já se referia ao tamuatá ao falar dos peixes de rio comidos pelos tupinambás.

Também conhecido como caboge, caborja, tamoatá, tamutá, viramorro, soldado ou peixe-do-mato, pode ser encontrado em rios e lagos pantanosos. Um fato curioso é que respira tanto na água quanto no ar. Assim, consegue se deslocar de poça em poça, pulando pelo mato, quando os lagos secam.

RECEITA:

+ Tamuatá no sumo fresco de mandioca

Ele não é o tipo de peixe que basta temperar e chapear. Mas é carnudo, fácil de separar da espinha e muito nutritivo. Antes de cozinhar, costuma-se deixá-lo de molho em água com limão ou vinagre. Mas não precisa, a menos que ele tenha muito pitiú, aquele cheiro de carpa que come lodo.

Para tirar a carapaça é preciso aferventá-lo antes do preparo. A cabeça e o rabo podem ser mantidos, assim como as vísceras – o fígado gordo e eventuais ovas são muito apreciados para o preparo do recheio para o próprio peixe. As carapaças também podem ser mantidas para ser retiradas no prato. Quem tem destreza para despir camarões não terá dificuldades para afastar a casca do peixe. Prefiro eviscerar e tirar carapaça, rabo e cabeça antes de servir.

A receita que apresento aqui fiz usando o sumo fresco da mandioca mansa em vez de tucupi, que é o caldo da mandioca brava fermentado. Mas pode ser feito com molho de tomate, de caril ou no leite de coco com coentro e limão. Só não são páreos para ele aqueles molhos fracotes como o de manteiga com amêndoas ou azeite de ervas.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 2/10/2014

Ficou com água na boca?