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O afogado do Divino

Por Guilherme ContePreparo do afogado, em São Luís do Paraitinga, durante a Festa do Divino (foto: Guilherme Conte)

25 maio 2010 | 15:55 por redacaopaladar

“Ô, caboclo, faz favor! Serve cá esse afogado que eu sou filho dessa terra e cheguei agorinha mesmo.” As duas mãos estão postas como que em oração, segurando o chapéu surrado de sol e trabalho, com a aba entre os dedos, um prato de vidro azulado e um garfo. Os joelhos estão um tanto flexionados, reforçando o ar de reverência. Sob um sol que faz jus à expressão “a pino”, uma longa fila se estende atrás daquele homem. É uma cidade inteira que está ali. É Festa do Divino em São Luís do Paraitinga.

Os dez dias de folia, com ápice do domingo de Pentecostes, são a melhor síntese de como se abraçam o sagrado e o profano naquela cidadezinha do Vale do Paraíba, quase um enclave cantante espremido entre um mar de morros verdejantes no alto da serra. A fé no Divino Espírito Santo e seus sete dons é respirada com uma miríade de cores e sons, da alvorada à madrugada. Novenas, bandeiras, violeiros, quermesse ­– é tudo uma coisa só.

Seu Dorvo, rosto quase de couro, curtido da roça, é o responsável por guiar uma equipe, que no auge da preparação chega a passar de 50 pessoas, no cozimento do afogado. Herança dos tropeiros que abriram aqueles caminhos na ponta do facão, o prato é um ensopado de carne, batata e macarrão servido com arroz e farinha de mandioca. Uma das expressões máximas da culinária típica da região, é parte fundamental da celebração do Divino, servido – de graça – no jantar do primeiro sábado e no almoço do segundo (no último fim de semana).

Preparo do afogado, em São Luís do Paraitinga, durante a Festa do Divino (foto: Guilherme Conte)

Preparo do afogado, em São Luís do Paraitinga, durante a Festa do Divino (foto: Guilherme Conte)

Para o almoço, em que o contingente citadino é reforçado pelos caboclos da roça que começam a chegar logo cedo (não raro após caminhadas de léguas), foram matados 14 fartos bois, oferecidos pelo festeiro deste ano. “E aí tudo tem que ser de muito, né?”, explica seu Dorvo, com uma fala baixinha, quase para dentro. “Quarenta, cinquenta sacos de batata, 12 galhos de alho, 30 sacos de cebola…”

As carnes, mais duras, vão ao fogo primeiro, para amolecerem aos poucos. Salsinha, cebolinha e cheiro-verde vão sendo jogados nos tachos, a olho, e mexidos por longos remos de madeira. São dois dias ao pé dos tachos. O corte da carne começa na véspera, à noitinha. Uma bandeira do Divino alumeia os cozinheiros. Padre Edinho, barrigudo como num filme do Mazzaropi, passa por ali para oferecer seus préstimos (a bênção eclesiástica é o último estágio da preparação; assim que o padre joga a água benta sobre os tachos, estouram os fogos de artifício e a comilança começa). Tudo ali foi doado pelos próprios moradores de São Luís. Até os mais pobres oferecem algo, nem que seja um punhado de macarrão.

E como fazer comida para tanta gente, como equilibrar os temperos? “Olha, filho, eu não sei o quanto você acredita nessas coisas”, diz seu Dorvo, com cismas de caipira, sobrancelhas franzidas e coçando a cabeça. “Mas não sou eu que faço. São meus mestres”, enquanto aponta a bandeira com o queixo. “Eu vou olhando aqui e ali, mexo um negócio, ponho mais outro ali, e quando vi já foi.” Os olhos mansos transparecem uma fé de vida inteira.

Na longa fila há recipientes dos tamanhos e naturezas mais diversos. O prato é levado para gente bem longe dali, e é comumente associado a promessas. Comer o afogado servido durante a festa é tido como um sinal de proteção e comunhão com o Divino, tão reverenciado pelas gentes de São Luís.

Longas filas se formam à espera do afogado, preparado durante a Festa do Divino (foto: Guilherme Conte)

Longas filas se formam à espera do afogado, preparado durante a Festa do Divino (foto: Guilherme Conte)

Que venha, pois, a proteção, para uma cidade tão acostumada a cantar e que teve que aprender, na marra, a chorar, após a enchente que a arrasou, no dia 1º de janeiro. Quem vê São Luís em festa tem a impressão de o que tanta água fez foi é lavar aquelas almas. As violas voltaram a pontear as congadas, moçambiques e folias. Sob a bênção do Divino Espírito Santo.

prato

O afogado, prato muito consumido na região do Vale do Paraíba (foto: Alex Silva/AE)

Ficou com água na boca?