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Comida

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O Big Brother da comida honesta

Olívia Fraga / ESPECIAL PARA O ESTADOKarl e Cara Rosaen, criadores do Real Time Farms (Foto: Divulgação)

27 setembro 2012 | 08:00 por danielmarques

 

Karl Rosaen era engenheiro do Google e estava num momento de estagnação, logo após a criação do sistema Android, quando deu de cara com O Dilema do Onívoro, o tratado filosófico-político de Michael Pollan sobre a alimentação nos dias de hoje, espécie de “Manifesto Comunista” dos foodies.

Rosaen leu. Cara, a companheira dele, leu. Os dois abandonaram os respectivos empregos e decidiram se dedicar em tempo integral à missão de mapear toda a cadeia de alimentos dos Estados Unidos. Reuniram endereços de fornecedores de mercearias, feiras e restaurantes no Real Time Farms, um sistema que possibilita ao consumidor descobrir os lugares onde seu chef favorito faz compras, e checar se os produtos são de fato “locais”, naturais, livres de agrotóxicos e/ou sustentáveis.

O Real Time Farms funciona em sistema colaborativo: aceita sugestões de leitores e conta com um time que já se espalha de costa a costa para fazer a checagem das informações e ajuda na fiscalização delas. Funciona como um Wikipedia de comida autorregulado e também como um guia de restaurantes.

O site cresceu rapidamente e, na semana passada, firmou parceria com o Food52.com, canal online de publicação de receitas testadas criado por Amanda Hesser, jornalista do The New York Times. Com a união, o Real Time Farms chegará a 1,2 milhão de acessos por mês. “Hoje temos fila de gente querendo colaborar”, conta Cara Roasen, sócia fundadora do RTF, ex-psicoterapeuta e designer de joias, com quem o Paladar conversou por e-mail.

O que os fez decidir largar tudo para fazer um site sobre comida?

Ficamos impressionados com O Dilema do Onívoro. Não dava mais para fingir inocência, ir ao supermercado da mesma maneira, supondo que a cadeia estivesse equilibrada e os alimentos fossem produzidos de forma correta. Karl sonhava montar algo que unisse comida e tecnologia. No meu caso, o problema foi quando percebi a falta de transparência do sistema. No dia a dia, ninguém se informa sobre o que vai comer. Nada é claro, a indústria não faz esforços para explicar os “comos” e porquês. E Karl sentiu que é ultrarrevolucionário conhecer a origem dos alimentos que consumimos.

Como garantir a transparência? É preciso rastrear tudo?

O trabalho começou em Ann Arbor, nossa cidade natal no Michigan. Karl desenvolveu softwares para checar transações financeiras entre a indústria de alimentos e os consumidores (donos de restaurantes, por exemplo). Trabalhamos em parceria com diversas organizações e o grupo de apoiadores cresce a cada mês. Hoje, já são 60 pessoas que leem, vão aos lugares, viajam, fotografam, publicam textos, unem os pontos no mapa norte-americano. Temos à disposição o banco de dados do Ministério da Agricultura e do Programa Nacional de Orgânicos, entre outros.

Em entrevista recente, o chef norte-americano Thomas Keller disse que não acredita no conceito de ‘comida local’. Para ele, o que importa é servir o melhor produto possível, mesmo que tenha sido produzido a centenas de quilômetros do restaurante. O que acha do comentário?

Nós não investimos esforços em um determinado modo de se alimentar, seja local, sustentável, orgânico… Não importa. O que queremos é dotar as pessoas de informações verdadeiras (nossas informações são isentas, não pertencem a nenhuma empresa) sobre o que se vende no mercado. As decisões cabem a elas, não a nós.

No entanto, no site fica implícito o apoio a certas iniciativas, como as hortas suspensas nas coberturas de prédio em NY… Essa é uma rara oportunidade de produzir alimento nos grandes centros urbanos, o que assegura, no mínimo, maior variedade. É uma grande chance para que famílias urbanas se reconectem ao processo do plantio (que perderam há tempos), mesmo que seja uma ação caseira e mais educacional.

A comida local pode mesmo sacudir o sistema?

Comprar alimentos locais só traz benefícios. Fortalece nossa ligação com a terra e com ingredientes típicos do lugar em que vivemos. Há, no entanto, áreas em várias partes do mundo que requerem uma energia absurda para produção (áreas desérticas, por exemplo). É simplório pensar que o local possa salvar o mundo, mas existe uma zona de possibilidades a serem exploradas que modificam nosso acesso à comida.

Ficou com água na boca?