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O gênio do vinho fica na garrafa

Foi uma semana atípica. Minha cozinha virou uma feira de ciências: termômetro de líquidos e de ambiente, relógio com hora certa (acertado segundo o Observatório Nacional) e vigilância nas garrafas.

30 agosto 2012 | 08:00 por danielmarques

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Em geral, ocupo-me dos vinhos no que eles apresentam quando saco rolhas, nunca ao longo do tempo. Quando sobram líquidos nas garrafas, tento canhestramente reenfiar a rolha no gargalo, quase sempre sem sucesso, e esqueço o resultado na porta da geladeira, ou, bem mais comumente, sobre a pia da cozinha. No dia seguinte provo um pouco e vai para um molho qualquer.

Dessa vez, não. Tratava-se de avaliar duas coisas, basicamente: quanto tempo um vinho dura aberto sob diferentes condições e que tipos de conservação ou traquitanas são melhores para prolongar sua vida bebível.

Durante uma longa semana, de um sábado até o sábado seguinte, todas as noites, pontualmente às 21 horas, provei quatro tipos de vinho em três situações de estocagem, após o desarrolhar. E no domingo descongelei os 100 ml de cada um que congelara no primeiro dia da experiência, em garrafinhas pet de 150 ml.

Vinhos são mais resistentes do que se pensa, e eu mesmo me surpreendi com os resultados. Quando fechados, já sabemos de sua capacidade de enfrentar a passagem do tempo. Estão aí os grandes bordeaux com três ou quatro décadas para comprovar, sem mencionar madeiras e portos centenários.

Mas mesmo depois de contato com seu principal arqui-inimigo, o oxigênio, os vinhos sobrevivem bem, como constatei. E por mais tempo que as meras 24 horas que eu previra.

O que o contrarrótulo obrigatório no Brasil determina sobre sua validade (“mosto fermentado de uvas viníferas maduras, validade indeterminada, desde que conservado em local fresco, seco, ao abrigo da luz”) diz respeito à impossibilidade de fixar um prazo de duração para o produto fechado.

Posso dizer, depois da minha semana de cientista enófilo, que tal indeterminação alcança também a bebida despida de seu fechamento.

Não resisto a citar uma bela frase de Jancis Robinson, tuitada recentemente: “Vinho é a única obra de arte que é preciso destruir para apreciar em sua inteireza”. Mas tal “destruição” pode ser menos melancólica e mais lenta do que beber uma taça e ver o resto virar vinagre.

Ficou com água na boca?