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O movimento terroirista do Brasil

Paulo André Niederle*

26 novembro 2014 | 19:45 por redacaopaladar

Um novo tipo de relação com a comida tem conquistado adeptos no Brasil. Ela é resultado de um fenômeno de revalorização dos atributos relacionados à origem dos alimentos. Cada vez mais queremos saber não apenas o que consumimos, mas quem produziu, em que condições e com que impacto ecológico, econômico e social.

Impulsionado por uma multidão dispersa de novos consumidores, alguns preocupados em “salvar o planeta”, outros ansiosos por salvar a si mesmos, esse movimento expressa o modo como determinados valores sociais têm conquistado espaço nos cardápios, nos supermercados e lojas especializadas e nas sacolas de feira. É puxado por uma geração de amadores que defende uma cozinha natural, ecológica, orgânica, tradicional, artesanal, local, sustentável… Em comum, essas qualidades traduzem valores que expressam crítica aos padrões industriais da sociedade de consumo.

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Mas não se trata apenas de crítica. Esses movimentos também servem de propulsores para práticas alimentares inovadoras. Em especial, um novo conceito de gastronomia, que está à procura de alimentos locais e regionais produzidos de maneira artesanal por pequenos agricultores familiares e suas comunidades rurais conservando-se os recursos ambientais e os conhecimentos herdados das gerações anteriores. Uma gastronomia que está redescobrindo os sabores e saberes do Brasil.

Camarões da chamada Costa Negra, no litoral oeste do Ceará. Os micro-organismos na água da região servem de alimentação natural dos camarões. FOTO: Divulgação

Esses movimentos terroiristas se esforçam em reconectar os alimentos a suas origens socioculturais. Para os franceses, o terroir é a expressão de um espaço geográfico onde uma comunidade construiu um saber específico para se relacionar com os recursos naturais, criando alimentos e modos de produção singulares. O território confere uma tipicidade. Nada mais “subversivo” para as tentativas de padronização que a indústria alimentar impôs ao longo das últimas décadas, cujas consequências envolvem uma profunda desconexão entre produção e consumo, além de enormes custos econômicos, energéticos, ambientais e culturais.

Uma das expressões desse tipo de estratégia são as Indicações Geográficas (IGs). Trata-se de sinais distintivos que institucionalizam o vínculo entre um bem (produto ou serviço) e seu território de origem, projetando efeitos diversos sobre a organização das cadeias produtivas, a reconversão dos processos tecnológicos, a agregação de valor aos produtos e a valorização do patrimônio natural e imaterial.

No Brasil, as IGs vêm despertando interesse em distintos segmentos. Vinho, queijo, café, algodão, arroz, carne, frutas, são apenas alguns dos produtos que já se encontram sob esse tipo de insígnia em diferentes territórios: Vale dos Vinhedos, Vales da Uva Goethe, Cerrado mineiro, Pampa gaúcho, Vale do São Francisco, entre outros. Hoje, nenhum produtor ou região que vise a construir alternativas de diferenciação nos chamados “mercados de qualidade” pode desconsiderar o potencial desse instrumento.

Em muitos casos, mais importante que o próprio selo é o modo como a criação de uma IG estimula processos de inovação organizacional, viabilizando novas redes de cooperação.

Ao mesmo tempo, o reconhecimento das IGs abre caminho para repensar alguns erros. É o caso da produção e comercialização de queijos artesanais. Por muito tempo condenado à informalidade em face de uma legislação draconiana, e em benefício das grandes empresas do setor, esse bem cultural característico da gastronomia rural brasileira têm conquistado a atenção pública para a necessidade de repensar os mecanismos de regulação dos mercados alimentares.

Entretanto, quanto mais relevantes as IGs se tornam na reconfiguração dos mercados e territórios, maiores os desafios para resguardar seu uso em face de práticas oportunistas. A construção de um arranjo institucional adequado é importante para proteger as IGs de um processo de apropriação indevida, por meio do qual alguns agentes econômicos podem utilizá-las para diferenciar seus produtos e ampliar sua fatia do mercado, mas dedicando atenção apenas secundária à valorização dos elementos socioculturais do território que definem o vínculo entre o alimento e sua origem.

Finalmente, outro desafio expressivo para a consolidação das IGs está associado ao reconhecimento por um segmento mais amplo de consumidores. Há um enorme caminho pela frente no que diz respeito ao desenvolvimento de estratégias que façam das IGs e de um conjunto de signos de diferenciação (marcas coletivas, certificações, registros) um componente cotidiano das escolhas de consumo.

*É professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e organizador do livro Indicações Geográficas: Qualidade e Origem nos Mercados Alimentares (Editora da UFRGS, 2013)

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 27/11/2014

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