Paladar

Comida

Comida

O que essas três estão armando

31 maio 2012 | 08:00 por heloisalupinacci

Por Nana Tucci

Desde que foi confirmada a aula do trio no 6º Paladar – Cozinha do Brasil, Mara Salles, Neide Rigo e Ana Soares não passam mais de 15 dias sem se reunir. Os encontros são no Tordesilhas e costumam durar cinco horas. Até a data do evento, terão passado dois dias inteiros discutindo o que você verá em duas horas.

Elas vivem a aula por meses. Tem sido assim desde a primeira vez, em 2008 – bem, naquele ano formou-se um quarteto, que incluía a d. Jerônima, da Ilha de Marajó. Foram reunidas por acaso, pelo Paladar. E o encontro deu tão certo que o trio, que vive em São Paulo, não se desgrudou mais. Na última quinta, ficaram das 17 às 22 horas fermentando a apresentação deste ano, sobre frutas. “Existe muito desperdício de frutas na própria estação. Quanta manga se perde, quanta jabuticaba…”, diz Mara. A ideia este ano é esticar a safra. “Ao fazer um confit a gente amplia a estação, você tem a fruta o ano todo”, explica Ana.

A reunião começou com Mara e Neide trocando dicas sobre cabelo (Mara havia trançado as melenas na Galeria do Reggae, no Centro de São Paulo). Ana chega um pouco depois. Mara distribui garrafas coloridas de presente: dá a verde para a Neide, que está pesquisando o umbu, a amarela para Ana, que estuda os cítricos, e fica com a roxa, já que está às voltas com a jabuticaba.

O umbu despachado pelo correio da Bahia chegou estragado, mas Neide trouxe calda e conserva da fruta, que chamou de umbuboshi (o processo é o mesmo do umeboshi, conserva japonesa de ameixa). Mara quer saber quanto tempo levou para ganhar aparência de azeitona e textura de pasta. Três meses.

Neide mostrou uma massa parecida com beiju, mas feita com banana-da-terra e abóbora e servida com uma pasta picante que lembrava mole mexicano. “Em que medida a banana contribui para a massa ficar assim?”, quis saber Mara. Dá liga e um toque adocicado, explica Neide. “Voltei do Acre com a missão de usar banana. Dá para usar banana no lugar do trigo, no macarrão…”. Está aí outro tema que vai aparecer na aula: fruta não é só para comer do pé, é ingrediente.

A combinação do beiju com o mole agradou, mas ainda faltava algo. “Me dá vontade de pôr um queijo. Você, Mara, que está trabalhando com queijos da Serra da Canastra, não tem algum pra gente experimentar?”, pede Ana.

Mara vai até a cozinha e volta com um pote de nata fresca, cremosa. Ana se esbalda, e acrescenta conserva de limão que trouxe do Mesa III. “Matou!”

AS AULAS DO TRIO

2009

AMARGO

Na plateia, os críticos François Simon e Gael Greene. No palco, as três cozinheiras fizeram justiça aos amargos de todos os tempos – de jiló a jurubeba

2010

GALINHA

Das penas aos ovos, a aula destrinchou a ave, aproveitando a carne, a pele e todas partes que costumam ser desprezadas, como os miúdos e as “pudendas” das galinhas

2011

INVÓLUCROS

Apresentação filosófica e antológica, tratou de cascas, folhas, embrulhos e recipientes naturais em que servimos nosso alimento de cada dia, como a palha de milho e a folha de bananeira

O TRIO

ANA SOARES

Chef consultora e dona do Mesa III. Enxerga a arquitetura da comida, pesquisa sabores e combinações aliando criatividade e técnica

MARA SALLES

Ela traz ao trio a expertise de quem pesquisa a cozinha brasileira há mais de 20 anos. No Tordesilhas, combina ingredientes com assertividade

NEIDE RIGO

Na cozinha de casa, a nutricionista explora inscansavelmente ingredientes brasileiros e conta as descobertas no blog Come-se

Ficou com água na boca?