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Os vilões beatificados

HISTÓRIAS DA MESA

01 abril 2015 | 18:41 por redacaopaladar

na última quinta-feira de cada mês

Por Dias Lopes

Produtos típicos das Américas que hoje enriquecem a mesa do Velho Continente tiveram assimilação complicada. O tomate era inicialmente cultivado apenas como planta ornamental, por ser considerado venenoso. O mesmo aconteceu com a batata, que, julgada responsável pela propagação da tuberculose, sífilis e raquitismo, só entrou na cozinha da França depois que o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta apareceram exibindo nas roupas a flor branca, púrpura ou rosada da planta da batata. Nenhum produto das Américas, porém, despertou tantas dúvidas nos europeus quanto o chocolate.

Ele aportou na Europa líquido, como os astecas o consumiam no México, e ganhou a adição de açúcar e o fervor dos conventos católicos. Os religiosos tomavam chocolate para mitigar os clamores do estômago nos dias de jejum, sobretudo da Quaresma.

O consumo se espalhou tranquilamente na Europa até a brigada dos desmancha-prazeres bradar uma acusação demolidora, no século 17. Convinha banir aquele líquido escuro, denso, perfumado, adocicado e delicioso porque quebrava o jejum religioso.

“Desde os tempos em que os padres da Igreja Católica se perdiam em insólitas e intermináveis discussões sobre o sexo dos anjos, não se tinha escrito nem discutido tanto como aconteceu com o aparecimento do chocolate”, escreveu o espanhol L. Jacinto García no livro Comer como Dios Manda (Ediciones Destino, Barcelona, 1999).

Fez-se necessária, então, a intervenção de Roma, suprema instância eclesiástica, e o cardeal italiano Francesco Maria Brancaccio (1592-1675) deu o sinal verde ao chocolate. “Liquidum non frangit jejunum” – o líquido não infringe o jejum, conclui ele. A sentença também beneficiou os bebedores de café.

Não era a primeira vez, nem seria a última, que Roma intervinha para corrigir o convencimento do povo de Deus sobre uma descoberta nas Américas. E não só alimentar. Questionou-se, por exemplo, se os índios deviam ser considerados humanos, se tinham alma. E entrou em ação o papa Paulo III (1468-1549). Na bula Sublimis Deus, de 1537, primeira declaração universal dos direitos humanos, ele afirmou “que os índios são verdadeiros homens”. Portanto, não só dispõem de alma como se mostram “capazes de entender a fé católica (…) e se acham desejosos de recebê-la”.

Paulo III não viveu o suficiente para ter chance de saborear o tomate, a batata e o chocolate. Mas era bom de garfo, adepto das novidades e se interessava bastante pelas notícias do Novo Mundo. Afirma-se ter sido informado da aceitação da bebida dos astecas pelos conventos espanhóis.

Sua cozinha esteve por algum tempo sob os cuidados de Bartolomeo Scappi, um dos principais cozinheiros renascentistas, celebrizado pelos banquetes que preparava e autor de um livro com mais de mil receitas de sua época. Paulo III gostava bastante de vinho e teve sob suas ordens o sommelier Sante Lancerio, autor do primeiro texto sobre enologia na Itália. Mesmo sem tomate, bata e chocolate, a mesa de Paulo III era reputada como a melhor de Roma.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 2/4/2015

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