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Veja quem é o jovem do Campo Limpo que está na lista dos 50 maiores transformadores da gastronomia

Natural do Campo Limpo, no extremo sul da capital paulista, Thiago Vinícius foi um dos 50 jovens de 34 países a entrar na lista 50 Next

13 de maio de 2021 | 15:00 por Danielle Nagase, O Estado de S.Paulo

“Imagina que louco, encontrar alface orgânica a ‘dois conto’ num sacolão na favela”, aspira Thiago Vinicius de Paula da Silva, 32, que é um dos 50 jovens “que vão moldar o futuro da gastronomia”, segundo a lista 50 Next. Publicada pela primeira vez no dia 20 de abril, ela é uma iniciativa do 50 Best, o mais importante prêmio do setor, que no último ano, por conta da pandemia, não divulgou seu tradicional ranking com os melhores restaurantes do mundo. Em vez dele, a entidade voltou os holofotes para indivíduos que têm feito a diferença no setor da alimentação para além da cozinha.

Thiago Vinícius é um dos jovens brasileiros a figurar na lista dos 50 Next.

Thiago Vinícius é um dos jovens brasileiros a figurar na lista dos 50 Next. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Thiago Vinicius, que desde 2016 está às voltas com a distribuição de ingredientes orgânicos na periferia de São Paulo, aparece entre os citados na categoria empreendedorismo. Além dele, há outra brasileira na lista, Mariana Aleixo, 33, na categoria educação, pelo trabalho que desenvolve no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro – no projeto Maré de Sabores, ela, que é formada em gastronomia, capacita mulheres da comunidade a cozinhar profissionalmente. A listagem, que inclui jovens de 20 a 35 anos de 34 países, em seis continentes, também destaca trabalhos em outras cinco esferas: produção, tecnologia, ciência, hospitalidade e ativismo. 

Armazém Organicamente, que promove a venda de ingredientes orgânicos à população do Campo Limpo.

Armazém Organicamente, que promove a venda de ingredientes orgânicos à população do Campo Limpo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Natural do Campo Limpo, no extremo sul da capital paulista, Thiago está “no corre desde cedo, em busca de alternativas para ajudar dentro de casa”. Aos 15 anos, participou da primeira turma de empreendedores sociais da Artemísia e não parou mais. Hoje em dia, ele está à frente da agência cultural Solano Trindade, que desde 2012 apoia projetos da juventude empreendedora da comunidade, como o Festival Percurso, que é “tipo um Lollapalooza da favela”, cujo line-up já apresentou nomes como Seu Jorge, MV Bill e Racionais MC’s.

 

Mais Capão no Waze

De forma simultânea, a agência toca o armazém Organicamente, que conecta uma distribuidora de orgânicos da região, a Da Roça, com consumidores da comunidade. “A ideia é democratizar o acesso aos alimentos in natura, de boa qualidade e acabar com o deserto alimentar da periferia. A gente tem que andar muito para encontrar ingredientes frescos, em compensação, ultraprocessados têm aos montes”, explica. Dos dois mil pedidos que recebe por mês, pelo menos 200 são de moradores do Campo Limpo, Capão Redondo e redondezas. “E não tem essa de plano de assinatura ou mínimo de compra. A gente manda a lista e o cliente escolhe o que quer comprar (para receber, basta mandar mensagem para 11-99206-4410). Tem gente que faz compra de 20, 30 conto”, conta Thiago. A área de entrega abrange outros bairros, como o Butantã e o centro expandido de São Paulo, como Vila Mariana, Vila Leopoldina, Pinheiros.

Dona Nice, ou tia Nice para os mais chegados, é a chef do Organicamente Rango.

Dona Nice, ou tia Nice para os mais chegados, é a chef do Organicamente Rango. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O excedente do armazém vai parar na cozinha de dona Nice, a matriarca da família, para a produção dos pratos do restaurante Organicamente Rango (delivery 11-98593-8057), “o único da favela a oferecer opções vegetarianas”. No cardápio, a feijoada sem carnes vende mais que a tradicional. Ela combina feijão preto, cenoura, beterraba, vagem, ervilha, shimeji, coco seco e amêndoas. E chega acompanhada de banana-da-terra frita, farofa, couve refogada e porção de peixinho empanado, “que é o torresmo do vegetariano”, brinca Thiago. Dentre as pedidas, com diferentes sotaques, há também bobó de shimeji, lasanha de berinjela, tabule, entre outros pratos.

“A gente precisa colocar a periferia no circuito gastronômico de São Paulo. Tem muito programa bom por aqui. Isso sem falar na mão de obra, que sai da favela todos os dias para trabalhar nos restaurantes japoneses, franceses, italianos da região central”, comenta. 

Tanto o armazém quanto o restaurante aceitam cartões de débito, crédito e “dinheiros”, no plural mesmo, como forma de pagamento. É que além do Real, eles aceitam algumas moedas sociais do Brasil, como o Sampaio, moeda criada pelo banco comunitário de mesmo nome, que Thiago ajudou a implementar, aos 20 anos, com a intenção de fortalecer o poder econômico da periferia.

A feijoada vegetariana da tia Nice, com cenoura, beterraba, vagem, ervilha, shimeji, coco e amêndoas.

A feijoada vegetariana da tia Nice, com cenoura, beterraba, vagem, ervilha, shimeji, coco e amêndoas. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O próximo passo, conta, é encontrar um galpão nas proximidades – a busca já está em andamento – para inaugurar um sacolão no segundo semestre deste ano. “Imagina a hora da xepa, só com comida sem veneno.”

 

Ajuda humanitária

Com o salão do restaurante temporariamente fechado por conta da pandemia, a equipe da Solano Trindade, que não dorme no ponto, aproveitou para ocupar o espaço com os alimentos e produtos de higiene e limpeza comprados com o dinheiro arrecadado por meio de vaquinhas online no Kickante e no Benfeitoria.

Ali mesmo, eles separam as cestas que serão distribuídas para famílias de diferentes comunidades de São Paulo. “Nós entregamos para os líderes comunitários e eles se encarregam da seleção dos mais necessitados”, conta Thiago.

Além das cestas, a cozinha do Organicamente Rango também cuida da distribuição de marmitas com o tempero de dona Nice. Desde o começo da pandemia, já foram distribuídas mais de 24 mil quentinhas e 15 mil cestas básicas. Todos os ingredientes, mantimentos e demais itens são comprados em comércios locais, “para movimentar a economia dentro da favela”. 

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