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Proibição de foie gras em Nova York vai mexer no cardápio de mil restaurantes

Câmara Municipal aprovou o banimento do fígado gordo de ganso produzido com alimentação forçada de aves; a medida entra em vigor em 2022

04 de novembro de 2019 | 19:39 por Jeffery Mays e Amelia Nierenberg, The New York Times

 No Lutèce, ele vinha selado, com molho de chocolate amargo e compota de laranja ácida. Le Cirque servia-o na forma tradicional, mas também com coelho e bacon. E ele roubava a cena quando coroava um prato de ravióli. 

Mas o Lutèce fechou em Nova York em 2004. Le Cirque encerrou as atividades na cidade em 2017. E o foie gras, o maior ícone da alta cozinha francesa, vai agora segui-los.   

A Câmara Municipal de Nova York aprovou por maioria uma lei proibindo a venda de foie gras na cidade, um dos maiores mercados do produto no país, a vigorar a partir de 2022.

Foie gras é servido em cerca de mil restaurantes da cidade de Nova York. 

Foie gras é servido em cerca de mil restaurantes da cidade de Nova York.  Foto: Bebeto Matthews/NYT

Nova York junta-se assim à Califórnia no banimento ao fígado inchado de pato ou ganso, com a justificativa de se coibir a crueldade com animais. “Nova York é a meca da culinária mundial. Como é possível que não tenha mais foi gras?”, pergunta Marco Moreira, chef e dono do Tocqueville, um aclamado restaurante perto da Union Square que serve um tira-gosto de foie gras produzido no Vale do Hudson. “Que virá sem seguida – proibição de vitela? De cogumelo?”

A maior parte do foie gras é produzida por meio de um processo conhecido como gavage. Gansos e patos são forçados a comer uma mistura rica em gordura, à base de milho, que faz inchar seus fígados. O processo requer a inserção de um tubo na garganta da ave durante 20 dias, fazendo o fígado aumentar dez vezes de tamanho. Isso pode deixar a ave gorda demais para caminhar ou mesmo para respirar (até ser abatida).  

Carlina Rivera, vereadora de Manhattan que apresentou a lei do foie gras, diz que a medida impede “o processo mais desumano” existente na indústria de alimentos. “A alimentação forçada é extremamente violenta e tem por objetivo um produto puramente de luxo”, afirma ela.

Para fazendeiros que produzem foie gras, a alimentação forçada não é cruel e as acusações de” tortura” são exageradas. Segundo eles, há um preconceito contra o foie gras por ser um produto de luxo.

Foie gras é o fígado gordo de ganso. A Hudson Valley é uma das grandes produtoras americanas.

Foie gras é o fígado gordo de ganso. A Hudson Valley é uma das grandes produtoras americanas. Foto: Desiree Rios/NYT

Outros países, como Índia, Israel e Grã-Bretanha, já baniram a venda ou produção de foie gras. A rede de supermercados americana Whole Foods deixou de vender o produto em 1997, em apoio ao fim da crueldade com animais. A Postmates, que entrega encomendas pelo correio, deixou de entregar foie gras em 2018.

Em Nova York, trava-se uma batalha crítica, onde uma milionária cultura de extravagância faz crescer a procura por foie gras há décadas. A tradição, no entanto, cedeu a uma Câmara Municipal cada vez mais progressista.

 A nova lei proíbe a venda de foie gras produzido “com alimentação forçada de aves”. Cada violação acarretará uma multa de US$ 2 mil. Mas, como nem todo foie gras vem de gansos alimentados à força, determinar qual foie gras é produzido legalmente pode se transformar num desafio jurídico.

Cerca de mil restaurantes em Nova York têm foie gras no cardápio. O impacto maior, no entanto, deverá ser sentido nas fazendas e sítios ao norte de Nova York que produzem foie gras.

A Hudson Valley Foie Gras e a La Belle Farm, no condado de Sullivan, dizem que empregam 400 pessoas, e 30% de seu faturamento vem de Nova York. A Hudson Valley, que abate 800 aves por dia, informa que vendeu US$ 1,5 milhão em foie gras no ano passado.

Um fígado inchado de 90g pode ser vendido por US$ 125; ossos e penas de gansos que produziram foie gras são usados em outros produtos, como ração canina e casacos, diz Sergio Saravia, fundador da La Belle e líder do Catskill Foie Gras Collective.

“Para nós foi devastador, pois Nova York e Califórnia eram nossos maiores mercados, diz Saravia, acrescentando que sua fazenda perdeu US$ 50 mil por semana com o fim do mercado californiano. “Está ficando difícil continuar”, lamenta.

Rivera diz que o projeto de lei original foi suavizado para ajudar os fazendeiros. A proibição só entrará em vigor três anos após tramitar, o que permitirá aos produtores ajustarem-se a novos modelos de negócios. A multa máxima subiu de US$ 1 mil para US$ 2 mil, mas uma proposta que previa até um ano de prisão para os desobedientes foi eliminada.   

Ativistas dos direitos dos animais protestam contra o foie gras feito com alimentação forçada de patos e gansos.

Ativistas dos direitos dos animais protestam contra o foie gras feito com alimentação forçada de patos e gansos. Foto: Angela Weiss/AFP

Rivera rejeita a ideia de que o banimento irá inviabilizar a sobrevivência dos fazendeiros do setor. “Essas fazendas produzem dezenas de outros produtos e gavage é um processo agressivamente cruel”, diz a vereadora. “Quando houve a proibição de circos exibirem animais em Nova York, as pessoas não deixaram de ir ao circo”, compara.

Mais da metade da Câmara de Nova York, de 30 membros, votou a favor da lei do foie gras, que é parte de um pacote de leis contra a crueldade com animais que seus defensores consideram “das mais significativas aprovadas em Nova York nos últimos anos”

Outras leis do pacote proíbem que cavalos puxem carruagens em dias úmidos e a captura de aprisionamento de pombos. Essas aves às vezes são capturadas e levadas para fora do Estado para serem usadas no tiro ao pombo.

/ Tradução de Roberto Muniz

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