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Neide Rigo

Qual é o nome do inhame?

No mundo acadêmico, pesquisadores descobriram que ficaria difícil falar sobre inhame sem resolver a questão semântica

24 julho 2013 | 21:51 por Neide Rigo

O tubérculo marrom do gênero Dioscorea de que falo não é um exemplo de beleza no reino vegetal, mas sua polpa quase sempre branca, de sabor delicado, é uma reserva de alimento.

Se com a mandioca o inhame africano nunca teve leve parentesco, e por isso nenhum brasileiro confundiria um com outro, como o fez Pero Vaz de Caminha, já com o cará nativo o inhame divide família e gênero. O consolo é que a confusão se dá também em outros lugares. Nas Canárias, por exemplo, o nome nãme é dado tanto a uma espécie de dioscorea quanto ao taro, do gênero Colocasia, que no Brasil também é chamado de inhame ou inhame-japonês.

Depois de seleções para cultivo comercial tanto do inhame africano quanto do cará que havia no Brasil, hoje, popularmente, os dois nomes coexistem no Norte e Nordeste, sendo inhame ou inhame-da-costa aqueles maiores e cará ou inhame-são-tomé os menores, com polpa mais branca e granulada, comuns em São Paulo e Estados vizinhos. No mundo acadêmico, pesquisadores descobriram que ficaria difícil falar sobre inhame sem resolver a questão semântica. Por isso, em 2001, a nomenclatura foi padronizada. Inhame-japonês virou taro e todos os inhames e carás, do gênero Dioscorea, viraram inhame.

Se o consenso já tem mais de dez anos e popularmente nada mudou é porque, como previa Câmara Cascudo, essa confusão é irremediável. Então, para maior clareza, sempre que possível, usemos o nome popular e o científico (Dioscorea spp).

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Receitas:

+ Fatias de purê de inhame douradas

+ Cuscuz de inhame

Ainda que os inhames nativos, como os amazonenses roxos com formatos de mão, ou africanos e asiáticos cultivados hoje no Brasil sejam diferentes na cor, forma e textura da polpa, em comum todos têm a viscosidade quando crus e a consistência cremosa quando cozidos. Ricos em amidos e nutrientes, podem ser consumidos no café da manhã ou em merendas, com manteiga ou melado e até como cuscuz. São bons para purês, bolinhos ou guarnição para carnes e peixes, com a vantagem de não modificar o sabor se guardado por alguns dias na geladeira, diferente das batatas.

A polpa branca e escorregadia do inhame cru foi muito útil, no passado, para dar liga a bolos e broas de fubá, quando o trigo era raro. No Vale do Paraíba, ainda podemos encontrar broas assadas na folha de bananeira feitas com fubá e inhame ralado. É também sua mucilagem (uma glicoproteína) que torna possível o preparo de fritadas, sem o uso de ovos ou outros espessantes. Basta ralá-lo cru e descascado, misturar com outros ingredientes e fritar como tortilha.

Cará, inhame e taro

FOTO: Felipe Rau/Estadão

A confusão de nomenclatura que paira sobre o cará e o inhame talvez só perca em popularidade para a inútil questão universal sobre o tomate ser fruta ou legume. Pode parecer bobagem, mas não é raro vermos por aí traduções e receitas com bolas trocadas, em que yam vira inhame simplesmente, sendo que o termo pode nomear espécies diferentes de acordo com a região.

Já na década de 1960, Câmara Cascudo tenta clarear a questão em seu História da Alimentação no Brasil, mas acaba por profetizar que a confusão era irremediável. Acontece que sempre tivemos variedades de cará nativo. Todos da família das Dioscoreáceas, todos de planta trepadeira. Quando Pero Vaz de Caminha encontrou por aqui primeiro a mandioca, tratou de julgá-la pela aparência marrom de interior branco para logo concluir tratar-se de um tipo de inhame, como o africano, velho conhecido dos europeus e do mesmo gênero do nosso cará. Inhame tem origem vocabular africana, enquanto cará é nosso nome indígena para as espécies nativas que incluem variedades de coloração roxa e esculturas disformes.

Acontece que o taro, nome internacional da Colocasia esculenta, de origem asiática, também nos chegou com nome de inhame e assim é conhecido em São Paulo e estados vizinhos. Onde há o inhame africano, ele é chamado também de inhame japonês.

Atualmente a tendência é chamar inhames, africanos ou asiáticos, e carás, todos da família das Dioscoreáceas, de inhame. E o inhame-japonês, da família das Aráceas, de taro.

* Neide Rigo é autora do blog Come-se.

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