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Reality show muda a maneira que os britânicos encaram a confeitaria

Com resgate de doces caseiros, "The Great British Bake Off" despertou uma Era de Ouro da confeitaria e panificação no Reino Unido

15 novembro 2016 | 19:09 por Melissa Clark

The New York Times

De Londres

Em uma tenda branca grande instalada nos campos verdes do interior inglês, seis confeiteiros davam seu toque pessoal ao pãozinho de leite. Ficaram todos aflitos com o tempo de crescimento e ajoelharam, como se estivessem em oração, na frente de seus forninhos portáteis, na esperança de evitar a terrível massa borrachuda que o júri tanto despreza. No meio deles, as vespas zumbiam, procurando uma superfície doce e grudenta onde pousar.

Os apresentadores e jurados Paul Hollywood, Sue Perkins, Mel Giedroyc e Mary Berry. Atrás, os competidores da edição 2015.

Os apresentadores e jurados Paul Hollywood, Sue Perkins, Mel Giedroyc e Mary Berry. Atrás, os competidores da edição 2015. Foto: Divulgação

A cena é familiar para os fãs de The Great British Bake Off. O episódio, parte da série de fim de ano, estava sendo rodado no estúdio Pinewood de Iver Heath, Buckinghamshire, na periferia de Londres. Depois de prontos, os pãezinhos seriam avaliados pelo time de jurados: Mel Giedroyc, Sue Perkins, Paul Hollywood e Mary Berry, octogenária e muito experiente. 

Nos seis anos em que está no ar, The Great British Bake Off basicamente mudou a maneira de os britânicos encararem a confeitaria, o consumo de sobremesas e até a própria cultura de doces. O "Efeito Bake Off", como é conhecido, se manifestou no resgate das guloseimas caseiras, um aumento notável na qualidade das gostosuras assadas em todo o país e um número cada vez maior de interessados em seguir carreira na confeitaria.

Da mesma forma que Jamie Oliver e Gordon Ramsay são, em parte, responsáveis pelo aumento do interesse nos chefs britânicos, Mary e Paul Berry fizeram o mesmo pelos confeiteiros. O Reino Unido atravessa uma Era de Ouro da confeitaria/panificação, tantos para as gostosuras em si como para os fãs de doces. Além disso, a competição, que conta com participantes das mais variadas culturas, apresenta uma visão contemporânea do que é ser britânico, com ênfase na diversidade e na inclusão.

Os participantes são bem diversos, cultural e etnicamente.

Os participantes são bem diversos, cultural e etnicamente. Foto: Divulgação

Embora a premissa do programa seja abertamente nostálgica – todas as receitas são preparadas ao ar livre, em uma tenda toda decorada com bandeirinhas da Grã-Bretanha, remetendo à tradição de um festival de cidade pequena –, os participantes são bem diversos, cultural e etnicamente.

Teve Norman Calder, de Portknockie, na Escócia, com sua torta de haggis; Tamal Ray, anestesista de família indiana de Hertfordshire que usou seringas para fazer a infusão de caldas nos doces; Jane Beedle, paisagista de Londres, que aperfeiçoou o bolo de limão com calda. Ou o grande destaque, Nadiya Hussain, vencedora da sexta temporada, nascida em Luton, de família bengalesa, que usa o hijab. Ela venceu graças a criações como pão de mel com pimenta-caiena e torres de profiteroles em sabores como chiclete e menta.

A cada temporada, cerca de oito mil confeiteiros se inscrevem. Depois de selecionar os melhores, os produtores então vão "fazendo a limpa" até chegarem a um grupo que represente as mais variadas idades, raças e profissões de diferentes regiões da Grã-Bretanha.

"É o oposto da superficialidade que geralmente se vê na TV porque não necessariamente escolhemos as pessoas com personalidades fortes. É um programa com o critério de escolha que não é cínico, mas sim agradável. Temos motorista de ônibus, peão de obra, médico, mas todos têm em comum a paixão pela confeitaria", explica Richard McKerrow, um dos fundadores da Love Productions, produtora do programa.

RECEITAS:

Pão de ló Vitória, com recheio de chantilly e geleia

Bolo de limão com calda

Nadiya Hussain, vencedora da sexta temporada, conhece a rainha Elizabeth.

Nadiya Hussain, vencedora da sexta temporada, conhece a rainha Elizabeth. Foto: John Stillwell|Reuters

No camarim atrás da tenda, Mary conta que a principal razão para o sucesso da atração é o apelo universal e sadio da iniciativa.

"A família inteira, seja da cultura que for, seja a idade que tenham seus membros, todas as gerações, avós, bebês de colo, todo mundo pode se sentar para assistir sabendo que não vai ter nada desagradável, é bem tranquilo. A criançada principalmente adora porque é cheio de coisas tipo cannoli e outros doces que mal pode esperar chegar em casa, depois da escola, para preparar," diz ela.

Ninguém esperava que uma competição de doces se tornasse um dos programas mais vistos da TV britânica, conquistando um público de quinze milhões de telespectadores no final da sexta temporada, no fim de 2015.

E conforme a audiência foi crescendo gradativamente, o interesse no preparo de receitas caseiras ressurgiu. Gente que nunca tinha pegado um batedor de claras na mão de repente estava convencida de que fazer um bolo recheado e coberto de marzipã era a maneira mais gratificante de passar o fim de semana.

Pão de ló Vitória, um clássico britânico.

Pão de ló Vitória, um clássico britânico. Foto: Andrew Scrivani|The New York Times

Percebendo um crescimento nas vendas de ingredientes e apetrechos, os supermercados e as lojas especializadas tiveram uma reação rápida, aumentando a oferta. Depois que o episódio do pão de mel foi ao ar, a Hobbycraft, loja de artigos de artesanato, artes e confeitaria registrou um aumento de trinta por cento nas vendas de bico de confeiteiro. E a rede de supermercados Waitrose percebeu que as compras de formas para bolos subiram – pasme – 881% desde o início da série.

Zoe Tew, gerente da barraca Mrs King's Pork Pies no Borough Market de Londres, acha que, para uma cozinheira dedicada há décadas como ela, esse aumento no interesse da confeitaria caseira foi ao mesmo tempo bom e ruim. "A parte boa é que os supermercados dobraram o tamanho das seções de artigos de confeitaria, mas fico meio irritada porque era uma atividade só minha; agora é de todo mundo."

Zoe Tew, gerente da barraca Mrs King's Pork Pies no Borough Market de Londres.

Zoe Tew, gerente da barraca Mrs King's Pork Pies no Borough Market de Londres. Foto: David Azia|The New York Times

Quem se arrisca na cozinha como passatempo e pretende aprofundar seus conhecimentos encontra ajuda nos cursos de fim de semana. A confeitaria Bread Ahead, em Londres, oferece a Great British Baking Workshop, que ensina como fazer o pãozinho de batata da Irlanda do Norte e o bolo de frutas e chá do País de Gales. "A gente costumava chamar de 'aula de culinária celta', mas depois do sucesso do programa, mudou o nome", revela Matthew Jones, fundador da padaria.

De certa forma, mudança é o espírito do The Great British Bake Off, que reformulou tudo o que a confeitaria britânica poderia ser. Chetna Makan, semifinalista da quinta temporada que se mudou de Mumbai para Kent, em 2004, conquistou o público com a forma inspirada com que usava feno-grego, cardamomo e açafrão. "Toda semana eu tentava preparar alguma coisa usando os sabores que talvez Mary e Paul nunca tivessem provado. Queria que eles se apaixonassem pelas minhas criações."

Bolo de limão com calda.

Bolo de limão com calda. Foto: Andrew Scrivani|The New York Times

Se você se também se inspirou e quer entrar na onda da confeitaria, teste essas duas receitas do programa: bolo de limão com calda e pão de ló Vitória, com recheio de chantilly e geleia. 

 

 

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