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Comida

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Siga a rainha

31 maio 2012 | 08:00 por heloisalupinacci

Por Patrícia Ferraz, Heloisa Lupinacci e Luiz Horta

As comemorações dos 60 anos de reinado de Elizabeth II estão marcadas para este fim de semana. Por todo o Reino Unido haverá festas e a programação oficial do jubileu de diamante inclui concertos, exibições de arte, desfiles de barcos pelo Tâmisa e uma enorme feira de rua em Londres, com barracas de comida e bebida em que vai ter de tudo, de champanhes e vinhos elegantes ao sanduíche mais popular no país, o sanduíche de pepino.

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O Darjeeling real

Clássico da hora do chá, o triângulo de pão de fôrma recheado com manteiga e rodelas de pepino é o preferido de Sua Majestade. A receita está abaixo, para que você entre no clima de celebração. O preparo não tem segredo. Difícil vai ser você encontrar por aqui o pão da Smiths The Bakers, a manteiga orgânica Netherend e o pepino da D&F McCarthy com o selo real: aquela coroa dourada estampada na embalagem que vem acompanhada da frase By Appointment to Her Majesty the Queen, indicação de que o produto tem a aprovação da rainha.

Apenas os produtos que abastecem o Palácio de Buckingham e outras residências e escritórios da realeza, regularmente e por mais de cinco anos, exibem o Royal Warrant. Não quer dizer que a família real consuma apenas produtos selados.

O Reino Unido tem três selos oficiais: o da rainha, o do duque de Edimburgo e o do príncipe de Gales. O de Elizabeth II é o mais disputado e também o mais popular no exterior. Os selos não cobrem apenas alimentos e bebidas. A lista tem 800 fornecedores e aproximadamente 1.100 itens que vão de escovas de cabelo (Kent & Sons), aos ônibus (Bluebird Buses Ltd), incluindo a ração (Judges Choice Petfood) dos corgis Holly, Willow e Monty, os cãezinhos de Sua Majestade.

O costume de mandar os melhores produtos do reino para o palácio é tão antigo quanto a monarquia. Mas só no século 15 os fornecedores da coroa britânica começaram a ser formalmente identificados.

A lista de produtos retrata costumes da realeza ao longo da história. Conforme registro no site do Royal Warrant, a corte de Henrique VIII tinha um fornecedor de chamarizes de cisnes, cegonhas e outras aves selvagens. O rol de Charles II, em 1684, incluía um armarinho de chapéus, um relojoeiro e um fabricante de dentaduras. Já em 1789 havia o fornecedor oficial de baralhos e um desratizador real.

Foi a rainha Vitória quem conferiu prestígio ao carimbo – em 64 anos de reinado, ela concedeu 2 mil selos reais. Alguns dos fornecedores atuais têm a chancela desde os tempos de Vitória, como é o caso da Fortnum & Mason, empório sofisticado que tem as prateleiras recheadas de mostardas, chutneys, azeites, geleias, chocolates e doces, entre outros produtos de marcas premium, muitos deles artesanais e feitos só para a loja. Para comemorar o jubileu, a Fortnum fez uma sofisticada cesta de piquenique que a rainha foi conferir, acompanhada de Camilla, a duquesa de Cornualha, e Kate, duquesa de Cambridge.

Em homenagem ao jubileu da rainha Elizabeth II, o Paladar selecionou alguns produtos com selo real encontrados em São Paulo. A ideia é a seguinte: keep calm e imite a rainha.

Picância real

(R$ 10,90, no Empório Santa Maria). A receita foi anunciada por Jeremiah Colman em 1814. Em 1866, a Colman virou fornecedora de mostarda da rainha Vitória, ganhando o selo real que mantém até hoje. Jeremiah é aclamado por ter sido um patrão generoso. Em 1864, ele construiu uma escola cujas mensalidades eram subsidiadas, para os filhos de seus funcionários. A marca, da Unilever desde 1995, é a mais antiga entre as que pertencem ao conglomerado. A mostarda Colman’s é encontrada em latinha ou vidro.

Devo, não nego, pago com chutney

(R$ 34,23, no Pão de Açúcar) tem algumas versões, mas a mais legal delas conta assim: a Sharwood’s, que foi criada em 1889, já era uma empresa de importação e exportação de comida quando um cliente endividado pediu a James Allen Sharwood que aceitasse receber uma parte da dívida em chutney. O empresário concordou e passou a vender o “o doce e picante chutney feito com mangas indianas e uma mistura de temperos”. Desde 2007, a Sharwood’s é da gigante Premier Foods. Os chutneys respondem por 46% das vendas da empresa, que diz deter um terço do mercado de comida asiática pronta no Reino Unido.

Uma das mais antigas portadoras do selo real, atribuído em 1837 pela rainha Vitória, a casa Twinings, ainda situada no Strand, mudou bastante de perfil nos seus 300 anos de existência. De chás especiais vendidos a granel, trazidos das melhores plantações da Índia, grands crus de Darjeeling, vende hoje uma gama mais pop de chás, florais, calmantes e até descafeinados. Continua uma das marcas mais conhecidas e citadas no mundo, pelo seu English Breakfast (R$ 7,40, no Empório Santa Maria) e pelo Earl Grey. Seu logo é o mais antigo ainda em uso no Reino Unido, desenhado em 1787, continua ornando as famosas latinhas, que vão sendo substituídas por caixinhas de papelão e saquinhos de papel reciclado.

Quando fundou a empresa, em 1895, Arthur Charles Wilkin decretou que a geleia de frutas deveria ser livre da adição de glucose, conservantes e corantes. E foi assim que as geleias, conservas, marmeladas e chutneys da Wilkin & Sons fizeram história. O frescor e a qualidade dos ingredientes se exibem em todos os potes que saem da cidadezinha de Tiptree – desde 1911 com o selo real. Entre as mais famosas geleias da marca estão a de laranja, com a casca da fruta (R$ 13,30, na Casa Santa Luzia), e a de limão. Até hoje a empresa está nas mãos da família. O atual presidente, Peter Wilkin, é bisneto de Arthur Charles. E grande parte da empresa pertence aos funcionários.

Crackers para caviar

Jonathan Carr tinha uma pequena padaria em Carlisle. Em 1831, durante a Revolução Industrial, a empresa cresceu e em 1841 recebeu o selo da rainha Vitória, mantendo o privilégio desde então.

Canapés de Carr’s com salmão escocês, sour cream e até caviar não são incomuns. Há mesmo versões dos sanduíches de pepino feitas com dois cream crackers em vez de fatias de pão.

Margarina? Não nos biscoitos de Walker

Nos anos 1950, quando muitos fabricantes substituíram a manteiga por margarina na tentativa de baratear o produto, a Walker’s manteve a receita original de seu amanteigado. O orgulho pela manutenção da qualidade pode ter tido o efeito inverso: o biscoito provado pela equipe do Paladar parecia manteiga abiscoitada, tamanha a intensidade do gosto (R$ 10,90, no Empório Santa Maria).

Relegado, o molho ficou ótimo

O molho inglês Lea & Perrins (R$ 13,80 no Pão de Açúcar), conhecido lá como Worcestershire (pronuncia-se uus-te-xir), tem origem acidentada. A receita foi levada à cidade inglesa de Worcester por lorde Sandys, que provou o molho na região de Bengala – hoje dividida entre Bangladesh e Índia. Lá, foi testada por dois químicos, John Lea e William Perrins. Eles misturaram os ingredientes e detestaram o resultado. Largaram lá e, meses depois, provaram de novo e estava ótimo. O molho, cujos ingredientes envelhecem por um ano e meio, ganhou o mundo e em 1955 recebeu o selo da rainha. Hoje é da Heinz.

Ficou com água na boca?