Paladar

Comida

Comida

Tarde catalano-pernambucana

por Cristiana Menichelli

11 junho 2009 | 02:06 por luizhorta

Ainda não era meio-dia quando os irmãos Miguel e Oriol Rovira chegaram ao Mocotó. Os catalães de Sagàs, vilarejo de 130 habitantes localizado a 80 quilômetros de Barcelona, haviam avistado enfim um rastro de horizonte desenhado pelas montanhas. Em sua primeira visita a São Paulo, eles se impressionaram não só com a variedade, beleza e sabor das frutas brasileiras, como também com a concentração infinita de prédios a perder de vista.

O programa para aquela tarde de segunda-feira tinha sido organizado pela chef Ana Soares. Na noite anterior, ela tinha assistido à palestra dos irmãos catalães e surpreendera-se com a coerência visceral que permeia o trabalho do Els Casals. Fã dos pequenos produtores e de tudo que seja capaz de emocionar na cozinha, Ana Soares ainda queria ouvir mais sobre as experiências deles.

Convite feito, lá estavam Oriol e Miguel sentados em uma das mesas do Mocotó bebericando uma branquinha quando ela chegou, junto com a amiga Neide Rigo. “E então, gostaram do evento”, perguntou Ana. “Muitíssimo”, respondeu Oriol. “Para nós foi uma oportunidade incrível. Este é um país de infinitas possibilidades na cozinha. Se eu pudesse, levaria a gente daqui e todo o mercado”, completou. As frutas iniciaram o bate-papo, animado por uma rodada de caipirinhas de caju, limão-cravo, maracujá, abacaxi com hortelã e capim-cidreira, e porções de torresmo. “Das frutas brasileiras conhecemos quase nada”, contou Miguel. Oriol concordou, enumerando as poucas que são encontradas nos mercados da Catalunha: papaia, maracujá, abacaxi e abacate. “Elas chegam bonitas, mas não têm o mesmo sabor”, concluiu.

Ana Soares então pediu ao garçom que trouxesse uma pequena seleção para eles provarem. Nenhuma, porém, causou maior impacto que o caju. Por pouco, Oriol não meteu na boca a fruta para separar-lhe do pedúnculo. “Não faça isso!”, alertou Neide, “o caju tem uma substância tóxica e inflamável”. A essa altura Ana Soares salpicava com sal e pimenta as fatias de caju. “Experimentem assim também”, sugeriu ela. Edinho Engel que se juntara há pouco ao grupo emendou: “Com o suco do caju pode-se fazer uma redução, um delicioso caramelo; se grelhar a polpa fica maravilhosa, como um suculento filé de frango”. Como se ouvisse da cozinha toda a conversa, Rodrigo aparece com três potinhos nas mãos. “Trouxe castanha-de-caju, baru e castanha-do-Pará para vocês provarem”.

Ficou com água na boca?