Comida

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Um frango em chamas, uma faca derretida: meus fracassos na cozinha e o que aprendi com eles

A gente está sempre aprendendo – especialmente quando o assunto é cozinha; aqui, alguns erros comuns e como evitá-los

11 de maio de 2022 | 12:40 por Becky Krystal, Washington Post

Situações envolvendo fogo estão entre os erros mais comuns na cozinha

Situações envolvendo fogo estão entre os erros mais comuns na cozinha Foto: Unsplash

A gente está sempre aprendendo – especialmente quando o assunto é cozinha. Pelo menos é o que acontece comigo, como os novos erros nunca me deixam esquecer.

Cozinhar é um interminável exercício de humildade. Ajuda muito ter persistência – e curiosidade também. Senso de humor também é essencial. Às vezes a gente ri para não chorar. 

Com certeza é o que vem acontecendo nos poucos anos desde que lancei minha carreira de escritora de gastronomia em tempo integral. Com certeza também foi o que aconteceu nos quinze anos anteriores, os quais passei tentando cozinhar e aprendendo tudo o que podia com meus colegas, livros, revistas e programas de TV.

Foram muitos os erros. Mas, se você não está fazendo nada de errado, provavelmente está fazendo algo errado. Se você não cometer erros, não vai aprender com eles.

É nesse espírito que compartilho aqui alguns dos meus maiores erros na cozinha (alguns foram verdadeiros desastres), junto com as lições aprendidas. Espero que essas lições ajudem você a evitá-los!

Sempre olhe dentro da panela antes de colocá-la no forno

Tenho que admitir, esse acidente bem recente doeu, porque destruiu um dos meus utensílios de cozinha favoritos, quase arruinou outro e poderia ter sido facilmente evitado. Durante a maior parte da pandemia, fizemos sessões remotas de fotos de receitas, deixando alimentos e itens na casa do nosso fotógrafo. Alguns meses atrás, para uma matéria sobre utensílios de cozinha baratos, levei uma das minhas amadas facas serrilhadas Victorinox e uma Dutch oven esmaltada cheia de alguma coisa que eu nem me lembro o que era (chili de Cincinnati, talvez?). Quando chegou a hora de pegar minhas coisas, juntei tudo para facilitar o transporte e coloquei a faca – embrulhada em jornal para não machucar ninguém – dentro da Dutch oven. Já entendeu onde isso vai dar?

Na pressa para voltar para mesa, deslizei a Dutch oven para dentro do armário e vida que segue. Alguns dias depois, chegou a hora do meu pão de fermentação natural semanal. Coloquei a panela com tampa no forno para pré-aquecer, ajustei o temporizador e fui botar meu filho na cama. Em algum momento, meu cachorro começou a latir, o que não é incomum quando ele fica sozinho na sala, agora que está acostumado a estarmos por perto o tempo todo. Corri para ver o que estava acontecendo – e imediatamente senti o cheiro de alguma coisa queimando. Talvez ele não estivesse latindo por solidão, no fim das contas. 

Minha sensação se misturou com a fumaça e um cheiro acre quando puxei a panela, levantei a tampa e logo fechei de novo. Fogo + uma explosão repentina de oxigênio = combinação ruim na sua cozinha. Peguei minha chave, abri a porta da cozinha para o quintal e coloquei a panela no chão da varanda. Felizmente, estava fresco e chuviscando, o que impediu que acontecesse qualquer coisa pior. Resultado? Jornal chamuscado com um forte aroma de fogueira e um cabo de faca derretido e fundido na minha preciosa Le Creuset.

A faca poderia ser facilmente substituída por menos de US$ 10. Mas e a Dutch oven de 5,5 litros que eu tinha comprado com um belo desconto mais de uma década antes? De jeito nenhum. Só depois de muito esfregar, raspar, jogar água fervente e xingar a mim mesma, consegui salvar a panela.

Lições: Sempre olhe dentro da panela antes de colocá-la no forno. Além disso, os cachorros são nossos heróis.

Quando você estiver quase no fim do legume, pare

Eu gosto de maximizar a quantidade de comida que tiro de cada ingrediente. Será que preciso mesmo descascar essa cenoura? Os talos de coentro não são tão bons quanto as folhas? (Sim, são até melhores, na verdade). Foi por isso que me meti em problemas alguns anos atrás, enquanto fazia um refogado.

Estava tão obcecada em usar o máximo de cebolinha que levei a faca até a ponta do dedo, tirando um pouquinho de pele. É o tipo de coisa que as pessoas que cozinham em casa fazem o tempo todo. Infelizmente, percebi que não havia como fazer com que a ferida parasse de sangrar sozinha, então meu marido e eu corremos para o pronto-socorro. Algumas horas depois, saí enfaixada e obstinada: ia terminar aquela receita. E terminei – o que foi bom, porque naquele momento precisávamos desesperadamente de comida.

Por mais inconsequente que a lesão parecesse, precisei fazer algumas semanas de fisioterapia – brincava que esta é a menor parte do corpo que pode levar você para o fisioterapeuta. Assim começaram banhos de cera quente para relaxar a pele cicatrizante o suficiente para que eu pudesse esticá-la, exercícios para manter o dedo ágil e instruções para tocar vários tipos de superfícies para estimular as terminações nervosas danificadas pelo corte e falta de uso (vou lhe dizer que tocar as coisas e não sentir nada é uma experiência estranha e inquietante).

Foi na fisioterapia que conheci um colega com uma lesão muito mais traumática, graças a um ferimento horrível na mão que não vou nem descrever, causado por uma faca na hora de descaroçar um abacate. Pode acreditar que eu nunca mais tentei fazer isso.

Lições: A segurança da faca não é brincadeira – e quando você estiver quase no fim do legume, pare. Poupe seus dedos guardando os talos para o caldo ou mande tudo para a composteira. 

Cuidado com as crises no fogo

Fogo nunca foi uma das minhas áreas de especialização. Até consigo fazer coisas simples e rápidas. Pizza, de vez em quando. Legumes, com certeza. Mas em algum momento – mais de uma década atrás, acho – decidi que iria comer um frango inteiro assado na grelha. A receita era de uma fonte testada e aprovada, mesmo que eu não fosse testada e aprovada. Achei que dava pé. Fiz o molho barbecue, acendi a grelha e comecei. Não durou muito. 

Meu frango pegou fogo, literalmente. Deve ter sido por causa de um naco de gordura, mas ainda não tenho certeza do que deu errado. Eu segui a receita! Me lembro muito bem de que meu marido estava no andar de cima, tomando banho com a janela aberta, e imediatamente calculei as chances de ele ouvir se eu gritasse por socorro. Não era muito provável. Enfiei minhas luvas de forno, espetei meus garfos e consegui tirar o frango do fogo e jogá-lo na assadeira.

Era hora de reorganizar as coisas. Retirei meticulosamente a pele de frango carbonizada, sob a qual a carne ainda estava quase inteiramente crua. Com que você combate fogo? Água. Joguei o frango numa panela de água e o escaldei. Depois de cozinhar, desfiei a carne e juntei o molho. E o jantar saiu, antes tarde do que nunca.

Lições: Cuidado com as crises no fogo. Não fique muito longe da grelha durante o preparo. Tenha uma assadeira sempre à mão em caso de emergência. Muitas vezes você pode salvar alimentos que acha que arruinou.

Sempre unte suas formas de bolo

Todo relacionamento tem suas primeiras vezes. O primeiro encontro, o primeiro almoço com a família, etc. No meu, havia um marco em particular que eu queria que fosse perfeito: o primeiro bolo de aniversário para o meu namorado.

Se eu tivesse uma linguagem para o amor, provavelmente seriam as sobremesas. (Por sorte, encontrei alguém bem parecido). Então, no meu primeiro apartamento, alugado com o salário do meu primeiro emprego depois da faculdade, que não tinha nada a ver com comida, decidi fazer o bolo.

Infelizmente, o que mais fiz foi tentar remover o bolo de chocolate da assadeira. Como era novata na cozinha, pensava que uma assadeira antiaderente significava exatamente isso: nada iria grudar nunca! Grande erro. Não untar nem enfarinhar as assadeiras colou o bolo ao metal, o que me obrigou a puxar e raspar pedaços da melhor maneira que pude.

Para me recuperar desse desastre total, juntei os pedaços de volta, feito uma restauradora remontando uma antiguidade quebrada. Depois usei glacê como cola e deixei as camadas no freezer para firmar.

Era um bolo de principiante, sem dúvida, mas meu (hoje) marido gostou mesmo assim. E em quase todos os anos desde então, fiz bolo no aniversário dele, usando a mesma combinação de chocolate e creme de baunilha, muitas vezes com canela. Quem dera todos os erros fossem assim tão doces.

Lições: Não importa o que você vai usar: sempre unte suas formas de bolo – ou, de preferência, unte, enfarinhe e forre com papel manteiga. Além disso, a cobertura pode esconder muitas falhas. Além disso, agarre firme qualquer pessoa que não ligue a mínima para o fato de o bolo estar meio torto.

Acompanhe por quanto tempo e onde você coloca sua massa ou fermento

Nada como uma nova empreitada na cozinha para não nos deixar esquecer da humildade. Assim como tantas outras pessoas, entrei no movimento da fermentação natural em 2020, embora o tenha feito meses depois que muitos outros novatos pareciam ter perdido o interesse.

Dizer que comecei sem saber nada sobre o processo seria um eufemismo. Minhas massas não cresciam, dava tudo errado. Embora eu tenha percorrido um longo, longo caminho até produzir pães atraentes, não sou tão confiante a ponto de dizer que domino a técnica.

Me lembrei disso recentemente. Num dia frio de inverno, coloquei minha massa no forno com a luz acesa para criar um local agradável e quente para a massa crescer. E logo depois me esqueci. Tem mais: a luz do seu forno deixa o forno mais quente do que você imagina. Minha massa superaqueceu e desmoronou.

Numa outra vez, procurando o melhor lugar para meu fermento florescer, coloquei o pote de vidro na parte de cima da geladeira, pois sabia que ali estava bem quente. Não preciso nem dizer que o pote mergulhou direto na minha bancada e se estilhaçou. Enquanto estava lá pensando numa maneira de extrair um pouquinho de fermento do meio dos cacos de vidro, eu já sabia que a ideia era ridícula. Em vez disso, raspei um pouco do meu recipiente de descarte e comecei de novo. Um dia depois, meu fermento ressuscitou feito uma fênix renascendo das cinzas. Pode acreditar que nunca mais coloquei nada em cima da geladeira.

Lições: Acompanhe por quanto tempo e onde você coloca sua massa ou fermento. É melhor errar na temperatura e esperar um pouco mais do que escolher um lugar muito quente (ou alto).

Não tente dar uma de herói

Sabe aquele clichê de que insanidade é o ato de fazer sempre a mesma coisa e esperar um resultado diferente? Esta é a minha experiência com pimentas. Adoro comê-las, mas minhas mãos não gostam de cortá-las.

Sempre digo a mim mesma que sou covarde na hora de lidar com pimentas cruas com minhas próprias mãos. Será que dá para tocá-las o mínimo possível? Será que realmente preciso usar luvas para cortar só uma ou duas pimentas? Acho que tenho um problema especial com as poblanos, que eu digo a mim mesma que não estão nem entre as pimentas mais picantes por aí.

Muitas vezes, vou sem luvas e acho que me safei. Minhas mãos ficam bem até algumas horas depois, quando começam a doer pra caramba. Normalmente é na hora de dormir, e eu tento adormecer, mas fico me xingando mentalmente por achar que desta vez seria diferente. E, sim, eu lavo as mãos com todo cuidado!

Um incidente recente deixou tudo bem claro. Depois de preparar algumas fajitas feitas com poblanos, meu filho reclamou que tinha algo incomodando na boca. Fui dar uma olhada e comecei a sondar seus dentes com meus dedos – aí ele gritou de dor. Mais tarde naquela noite, também senti as minhas mãos – manifestação física de culpa de mãe.

De agora em diante, só corto pimenta de luvas.

Lições: Não tente dar uma de herói! Não tem problema nenhum admitir que você não tem tanta coragem quanto pensa – ou quanto outras pessoas acham que você deve ter. Compre luvas a granel e as use quantas vezes precisar, o que provavelmente é mais frequente do que você pensa. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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