Paladar

Etiqueta à mesa em tempos de pandemia

Dicas para receber pequenos grupos em casa sem perder a elegância e, claro, mantendo os protocolos de higiene e distanciamento social

19 de setembro de 2020 | 16:00 por Marcelo Lima e Danielle Nagase, O Estado de S.Paulo

Em termos históricos, a palavra etiqueta vem do francês respecter l’étiquette que, à sua época, indicava o conjunto de normas que deviam ser respeitadas pela corte francesa em eventos, públicos ou não, onde estivessem presentes autoridades. Não por acaso, teve seu apogeu na França, durante o reinado de Luís XIV, quando, em meio a grandes banquetes, houve a primeira tentativa de padronização dos costumes à mesa.

Há, porém, aqueles que, como o consultor de estilo Paulo Lara (@larakasaestilo), defendem que seu sentido é mais amplo. Preferem associar a palavra a ethos (ou ética, em grego) – sugerindo uma reflexão mais aprofundada sobre as consequências de cada um de nossos atos sobre os indivíduos à nossa volta e a coletividade em geral. Uma condição que ganha ainda maior relevância em tempos de pandemia, como o que estamos vivendo.

Sugestão de composição de mesa em tempos de pandemia, por Paulo Lara.

Sugestão de composição de mesa em tempos de pandemia, por Paulo Lara. Foto: Alessandro Daniel

“A vida social, como um todo, foi profundamente alterada pela covid-19. E a mesa, claro, não ficou de fora”, afirma Lara. “Ainda é cedo para avaliar o que passa e o que fica, mas de uma coisa podemos estar certos: nunca antes, por respeito aos outros, e a nós mesmos, respeitar certos procedimentos à mesa foi tão necessário”, conforme destaca o consultor, nesta entrevista exclusiva ao Estadão.

Como a epidemia afetou a forma como fazemos nossas refeições em casa?

Logo que a pandemia eclodiu, a maioria das famílias se deu conta do quanto estava desfalcada em termos de equipamentos para servir e receber. Como as refeições eram feitas, em geral, individualmente, e em períodos distintos, os pratos, os talheres, as xícaras eram todos avulsos e não conversavam entre si. Muito pelo contrário. Quando, porém, a família volta a se reunir em torno da mesa para as refeições, voltou a fazer sentido possuir um jogo completo de pratos, travessas, itens que registraram considerável aumento de vendas. O mesmo acontecendo com peças que haviam caído meio em desuso, como manteigueira, açucareiro e chaleira que, de uma hora para outra, voltaram à cena. Compor uma mesa bonita, ou pelo menos mais harmônica, passou a ser essencial. Até para melhorar as condições de humor durante os dias de isolamento.

Ideia para marcar as taças dos convidados e evitar que sejam trocadas.

Ideia para marcar as taças dos convidados e evitar que sejam trocadas. Foto:

 

Pouco a pouco, as pessoas já começam a receber, principalmente em pequenos grupos. Como isso pode acontecer, mantendo a elegância e o protocolo?

Definitivamente, o receber à americana, em sistema de bufê, com acesso direto dos convidados a pratos, copos e talheres, me parece hoje uma possibilidade totalmente inviável. E isso é válido para eventos de qualquer porte, sejam eles familiares ou institucionais, formais ou informais. A única maneira disso acontecer é se o anfitrião, uma vez com as mãos esterilizadas, se dispor a montar os pratos e entregá-los, juntamente com os copos e talheres, nas mãos dos convidados, mantendo o distanciamento recomendado. Neste caso, as refeições devem vir montadas da cozinha, o que exigiria dedicação integral do dono da casa. Aliás, quem se propõe a receber hoje deve ter em mente que terá de se ocupar de seus convidados durante a maior parte do tempo, mesmo no caso de um jantar com todos sentados à mesa. Mas isso, claro, comporta outras regras.

 

E quais seriam estas regras?

A princípio, sugeriria retirar algumas cadeiras das mesas. A maioria delas conta com seis lugares. Uma vez reduzindo este número para quatro, naturalmente já abrimos o espaço de distanciamento recomendado. Depois, uma vez que todos tenham seus copos e talheres individuais, o ideal é que os pratos também venham montados da cozinha, evitando, a todo custo, o uso coletivo de qualquer utensílio. Neste sentido, copos e taças exigem cuidado redobrado, uma vez que no calor do encontro podem ser facilmente trocados. Recomendo, inclusive, nomear cada um deles com caneta apropriada. Por fim, acrescentaria, um novo item à mesa: um pequeno prato, do lado do principal, onde, caso queira, o convidado pode deixar sua máscara enquanto ela não estiver em uso. É desconfortável, além de arriscado, ter de usar um guardanapo para isso ou levantar para guardar a máscara na bolsa. E, como bem sabemos, etiqueta tem tudo a ver com proporcionar conforto e bem-estar.

Sugestão de posta para o café, por Paulo Lara.

Sugestão de posta para o café, por Paulo Lara. Foto: Alessandro Daniel

 

E no restaurante, qual é a cartilha?

A vontade de voltar a frequentar restaurantes e bares é grande, mas, antes de sair de casa, é preciso estar ciente não só dos protocolos de segurança sanitária – estabelecidos pela Prefeitura de São Paulo para a reabertura dos estabelecimentos –, como também dos seus deveres como cliente. Só assim dá para garantir a sua segurança e a dos demais.

Pensando em quais seriam as novas regras de etiqueta dentro de um restaurante, o Paladar conversou com o doutor Sérgio Timerman, do Instituto do Coração (InCor), que coordena o projeto Chancela InCor – Retomada das Atividades Pós-Pandemia, que por meio de orientação e treinamento, ensina “as melhores práticas para diminuir os riscos de contaminação por meio da prevenção e da ação”, explica Timerman. Por hora, endereços como A Casa do Porco e o Bar da Dona Onça já contam com a chancela.

“Temos que ser solidários e entender que todos os indivíduos têm sua parcela de responsabilidade no contexto da pandemia. Você chega no restaurante e quer ser bem cuidado, mas também cabe a você cuidar do vizinho da mesa ao lado e daqueles que estão te atendendo”, pondera Timerman. Seguir as regras de higiene e distanciamento social sem reclamar é fazer o mínimo.

Visitar um restaurante com responsabilidade implica em observar se o estabelecimento está de fato seguindo os devidos protocolos. “Tem restaurante que parece ser seguro, mas você olha para a cozinha e dá de cara com o chef sem máscara”, alerta Timerman.

É preciso estar atento e vigilante – e no caso de flagrar funcionários fazendo vista grossa ou clientes usando a máscara no queixo enquanto circulam pelo salão, por exemplo, “está liberado ser chato e reclamar”, diz Timerman.

Bons (e seguros) modos à mesa

O básico

Seja honesto. Está com sintomas? Teve contato com pessoa contaminada? Respeite o próximo, fique em casa.

Ao chegar

Observe se a casa está de fato seguindo os protocolos básicos de segurança. Caso contrário, vá embora.

Espera

O salão já está lotado? A casa só atende com reserva? Entenda, volte outro dia. O que não vale é se aglomerar na calçada na esperança de conseguir uma mesa.

Regra é regra

Respeite as normas, siga as orientações dos funcionários do restaurante. Não reclame quando forem aferir sua temperatura.

Só mais um

Não seja chato: respeite o número máximo de pessoas na mesa, não insista.

Vou ali e já volto

Só tire a máscara quando estiver acomodado na sua mesa. Ao se levantar, mesmo que “só para ir ao banheiro”, recoloque.

Porta-máscara

Guarde a máscara dentro de um saquinho de plástico ou papel, nunca direto na mesa.

Confiança é tudo

Escolha bem aonde vai e confie no restaurante: sem essa de levar seus próprios talheres ou de lambuzar pratos e taças com álcool em gel. Se ainda não se sente seguro, fique em casa.

 

 

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