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Restaurantes e Bares

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1105: bar de um homem só

Por Ricardo Garrido

03 dezembro 2014 | 19:05 por redacaopaladar

“Não há nenhum bar neste pedaço, eu conheço a região” – advertiu o motorista de táxi que nos levava pelas ruas já desertas de Copenhague. Era quase 1 da matina e eu não tinha a menor vontade de ser surpreendido com algo mais naquele dia: almoçara no mais revolucionário restaurante do mundo, o Noma, vagara por Christiania, o mais livre e transgressor bairro hippie do planeta, e bebera as cultuadas cervejas Mikkeller no próprio bar dos caras…

Mas o resto do grupo não pensava o mesmo. Galera animada, queria um último trago. Sergio, parceiro de copo, havia localizado um destino certeiro, googlando “best – cocktail – bar – copenhagen”. Em segundos, um número surgia na maioria dos links relacionados: 1105. “Não sei, Sergio, esse nome… Parece balada…”, tentei desestimular, pensando no travesseiro. “Vai afinar?”, desafiou Sergio. Jamais!

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O Waze avisava que havíamos chegado, mas não havia nenhum papel no chão, nenhum barulho na rua, nenhum boêmio solitário, nenhum sinal de bar. Sergio atravessou a rua e foi até um pequeno largo. Explorou o perímetro e adentrou o canto mais soturno, já sumindo da visão. Segundos depois, voltava com sorriso. “É aqui.”

Multitask. Hardeep Rehal baila por trás do balcão como só os craques da coquetelaria são capazes de fazer. FOTO: Reuters

Vencemos a porta e a atmosfera noir-chic abria-se para nós: um pequeno lounge na entrada, luz baixa, paredes escuras, cool jazz em bom volume. Pequenos grupos e casais sorriam entre copos e taças. E, alinhado no epicentro, um pequeno balcão de impecável proporcionalidade coroado por uma iluminação dramática deixava claro que ali pulsava o coração do 1105.

Não há funcionários no minúsculo salão. O único profissional presente estava preso dentro do balcão e conversava com um casal. Nos aproximamos, timidamente. “I will get you in a second.” Foi o tempo necessário para novamente o Google nos ajudar, dessa vez para saber que o nome 1105 era inspirado no código postal do bairro e, mais importante, para conhecer o homem atrás do balcão. Hardeep Rehal é dinamarquês, descendente de indianos, bartender do ano na Dinamarca por duas vezes e uma das principais estrelas da cena de coquetelaria do país, movimento que seguiu o estrondo causado pelo talento do chef René Redzepi e jogou luzes sobre restaurantes espetaculares como Relae e Amass, gastrobares como Manfreds e Fiske Baren, cervejarias como a Mikkeller, cafés e padarias artesanais e onde mais você pensar em comer. Essa brisa chegou aos coquetéis. E nós, até o balcão de Hardeep. Sim, porque aquele lugar é só dele.

Hardeep bailava em sua área de trabalho como só fazem os craques consagrados: pinçava garrafas sem olhar rótulos, abria e fechava potes e vidrinhos de bitters com uma mão enquanto agitava a coqueteleira com a outra para no próximo movimento despejar a mistura numa taça esguia e, com alguma outra mão que aparecia sabe deus de onde, mexer a bailarina no seu mixing glass cheio de cubos de gelo perfeitos. Entre um serviço e outro, ia até o laptop, fechava uma conta, aumentava o volume do som e organizava a pilha de cardápios.

“Boa noite, mil desculpas pela demora. São brasileiros, não? Adoro o sotaque de vocês…” O homem era uma máquina multitask e ainda tinha ouvido absoluto… “O que posso servir a vocês?” Ninguém havia pensado nisso. Hardeep sugeriu para as damas dois coquetéis de sua autoria, o cucumber yum yum – gim, aquavit, framboesas, bitter autoral e, obviamente, pepino – e o nº. 4 – gim, suco de limão, mel, cardamomo e pimenta-do-reino. Já mais à vontade, cutuquei a fera: “Gostamos de clássicos, você faz sazerac?”. Hardeep me fitou simulando estranheza: “Escolheu meu preferido”. Numa sincronia delicada e ágil, mergulhou na produção, com gestual preciso, às vezes performático, mas natural, elegante e sem frescuras. Lembrava-me os incríveis bartenders japoneses do Angel’s Share, meu speakeasy preferido em Nova York, e a habilidade limpa de Eric Lorincz, estrelado bartender eslovaco do Hotel Savoy de Londres, que foi residente por uma noite no SubAstor. Minutos depois, nossos coquetéis aterrissavam. Resultado de técnica, clima e carisma, estavam entre os melhores que tomamos na vida. Procuramos por Hardeep para agradecer. Mas ele se ausentara, correndo rua afora, para cobrar um casal dinamarquês que saíra sem pagar… Hardeep era também o segurança do 1105.

/ Ricardo Garrido é sócio da Cia Tradicional do Comércio

SERVIÇO | 1105

Onde: Kristen Bernikows G 6, 1105, Copenhague

Tel.: +45 (0) 3393 1105

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 04/12/2014

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