Paladar

Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

Ao ponto

José Orenstein

"Alimente-se de arte", diz letreiro na entrada do Petí

Veja como é comer no premiado restaurante Petí

11 novembro 2015 | 15:45 por José Orenstein

Tem um historiador importante que diz que é da tensão entre experiência e expectativa que nasce o tempo histórico. Com alguma cara de pau, acrescento: é também dali que nasce o prazer, ou o desprazer, de uma refeição. Distorço aqui um dos conceitos do douto pensador (é o Reinhart Koselleck) só para lembrar que nunca é bom ter muita expectativa sobre um almoço. Experiência – expectativa = felicidade.

Fui almoçar no Petí com alto nível de expectativa. O restaurante que abriu em agosto deste ano foi recomendado por amigos, resenhado positivamente por outros críticos, já levou prêmio da Veja São Paulo e tudo. Esperava comer muitíssimo bem lá; comi bem – o que não é pouco, e, principalmente, pagando muito pouco. Então, de cara, o recomendo vivamente. Mas é preciso lá com as expectativas ajustadas.

Barriga de porco do Petí, de acabamento impecável.

FOTOS: Tiago Queiroz/Estadão

Ficou com água na boca?

A casa, ou melhor, o canto, fica dentro de uma loja de materiais artísticos que pertence aos pais do chef Victor Dimitrow. Quase no fim da pacata Rua Cotoxó, nas Perdizes, num prédio que de fora parece uma academia de ginástica. Tem uns coqueiros na frente e estampado no vidro: “Alimente-se de arte”. Entre na loja e você verá no fundo uma bem discreta escadinha que dá para o Petí, numa espécie de anexo na área externa. Até fiquei tentado a obedecer ao letreiro da fachada (a oferta de pinceis, lápis, tintas, papéis é ótima), mas preferi os alimentos convencionais.

O Petí só abre no almoço e tem um cardápio fixo, que muda a cada três semanas – escolhe-se entre três entradas, três pratos e duas sobremesas. Pela refeição completa, que vem ainda com um pão da casa e manteiga, paga-se R$ 38,50. Preço que se revela excelente, porque o que sai da cozinha é coisa fina, esmerada. Embora, às vezes, um pouco afetada em espumas, desidratações e apresentações mirabolantes.

Escondido, o salão fica no anexo de uma loja de material artístico

Nestas semanas, está em cartaz uma sopa fria de beterraba que é a melhor entrada, fresca, de tempero sutil, que traz a tradicional receita do Leste Europeu para tempos contemporâneos com graça e competência. Destaco também o pastrami de olhete, boa invenção, saborosa, mas que chega ao prato com pinceladas de cremes e salpicos de pós desnecessários. Dos principais, a barriga de porco com um cubículo de morcilla é potente em sabor e bem feita, mas o peixe do dia, não. Entre as sobremesas, o etéreo creme de queijo com jabuticabas cozidas até o caroço ficar palatável, é espetacular. Já o bolo de laranja desconstruído, eu passo.

Pagar R$ 38,50 por tudo isso, preço de um prato de macarrão com molho de tomate em restaurante medíocre, é ótimo. Claro, com mais 10%, bebidas, etc., Só não espere o maravilhamento. Espere menos – mas não menos demais, porque (salve Barão de Itataré) de onde menos se espera, daí é que não vem nada mesmo.

QUEM É O CHEF

Victor Dimitrow tem 26 anos. Estudou na Anhembi Morumbi e no Instituo Paul Bocuse, na França Traballhou no Le Chateaubriand, em Paris, ícone da bistronomia, e no Patrick Guilbaud, em Dublin.

O MELHOR E O PIOR

Prove

A sopa fria de beterraba. Com chantilly de ervas, é um tradicional borscht, só que gourmet – no ótimo sentido da palavra.

O pastrami de olhete. Peixe curado saborosíssimo, na textura perfeita.

O creme de queijo. A sobremesa vem com jabuticaba e gelinho de hortelã. O melhor do atual menu.

Evite

O peixe do dia, se for até a próxima semana. A pescada amarela, ressequida, com feijão fradinho, resultou num prato triste.

Ir com pressa. Os pratos tardam um pouco a sair da cozinha.

Sobremesa de creme de queijo com jabuticaba (o biscoito tem forma de cutelo)

Estilo de cozinha: variado, com técnicas de alta gastronomia e bons ingredientes frescos.

Bom para: almoço que foge bem do comum, sem comprometer o nosso rico dinheirinho do mês.

Acústica: apesar de apertado, não é barulhento. A música, no entanto, reverbera uns decibéis a mais.

Vinho: a carta é mínima, três rótulos e uma taça (R$ 15) tintos, um rótulo e uma taça (R$ 15) brancos; podia ter mais opções, a preços melhores (garrafas entre R$ 75 e R$ 90). Taxa de rolha: R$ 30.

Cerveja: só a insossa Miller (R$ 7) e a Guerrilheira (R$ 10). A criatividade que sobra na cozinha podia transbordar para a adega.

Água e café: garrafa de 300 ml (R$ 4); mas poderiam servir água do filtro de graça, que tal? Café expresso Lavazza (R$4), bom.

Preços: couvert, entrada, prato principal e sobremesa (R$ 38,50).

Vou voltar? Sei que ainda vou voltar. Daqui a umas semanas, para provar os novos pratos.

SERVIÇO – PETÍ

R. Cotoxó, 110, Perdizes

Tel.: 3873-0099

Horário de funcionamento: 12h/15h (fecha dom.)

Ciclovia: Av. Sumaré (600 m). Não tem bicicletário.

>> Veja a íntegra da edição de 12/11/2015

Ficou com água na boca?