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Restaurantes e Bares

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Alta cozinha na caixinha: avaliamos o delivery do Fasano

Testamos as entregas para indicar o que vale pedir em cada restaurante, além de dicas de como esquentar. A ideia é ajudar você a comer melhor, sem sair de casa

01 de abril de 2020 | 03:00 por Patrícia Ferraz, O Estado de S.Paulo

Estou há quase duas semanas às voltas com deliverytendência gastronômica em tempos de quarentena. A entrega de comida, que já andava em alta nos últimos meses, disparou com a recomendação de ficar em casa e até restaurantes de alta cozinha, como Fasano, Evvai e President começaram o serviço nos últimos dias. 

Resolvemos testar as entregas para indicar o que vale pedir, os pratos que viajam bem e os que devem ser evitados, avaliar tipos de embalagem, acabamentos, montagem, preços e, para completar o serviço, vamos incluir dicas de como esquentar.  A ideia é ajudar você a comer melhor – sem sair de casa – e, de quebra, colaborar para manter os restaurantes! E quando a vida voltar ao normal, a gente sai de novo por aí para desfrutar a comida dos restaurantes no ambiente deles. Enquanto isso, fica aí e pede delivery.

Fasano. Tradicional restaurante italiano estreia no delivery 

Fasano. Tradicional restaurante italiano estreia no delivery  Foto: Patrícia Ferraz/Estadão

Pedir comida em um restaurante bacana, agora que todo mundo está oferecendo o serviço, é uma espécie de antídoto à melancolia do confinamento.  Mas delivery em tempo de coronavírus requer estratégia, com várias etapas entre planejamento e ação. Para começar, tem a hora do rush. Todo mundo quer comer ao mesmo tempo, o site fica lento, o telefone demora para atender, o motoqueiro sai com várias encomendas, o aplicativo não carrega, e, se houver problema com algum pedido, esquece. 

Pagamento ok, é relaxar e esperar – uma hora, em média.

O interfone toca, você está morrendo de fome, abre a porta e … ah, a luva!  Volta, põe a luva (ih, está acabando, será que pode desinfetar, lavar e usar de novo?), calça o sapato que está do lado de fora da porta, chama o elevador – só entra se estiver vazio, atenção para não encostar em nada, exceto o botão e a porta. 

Pega a sacola, sobe, põe a sacola no chão, abre a porta de casa (cuidado para o cachorro não pisar no corredor. Escapou? Corre atrás, limpa as patas, põe o cachorro pra dentro e retoma a operação desinfecção). 

É mais seguro abrir a sacola e tirar as embalagens no corredor? Mas vai pôr as caixinhas no chão sujo? Sem chance. Entra em casa. Tira o sapato e a luva? Não, só o sapato. Melhor passar álcool gel na luva e continuar os trabalhos. Quem pegou o spray desinfetante? Vai pano com álcool mesmo, embalagem por embalagem, de todos os lados. Ainda pego o jeito.

Hora de abrir as caixinhas e colocar no prato. Mas, com tanta coisa, a comida esfriou, precisa aquecer. Tira a luva. Como é que se esquenta o bife à milanesa? Massa recheada pode ir ao microondas? E esses potinhos? São de que pratos? Ufa, operação limpeza concluída com sucesso. Agora é aproveitar. 

Quem pede Fasano em casa é porque está com vontade de um programa mais sofisticado, de ter a sensação de jantar fora, mesmo sem sair. Então o negócio é criar o clima. Entrei no jogo e caprichei, toalha branca, velas, tirei do armário a louça inglesa herdada da minha avó, lembrei até do pratinho de pão – e foi ótimo porque os pratos vêm acompanhados de pão fresquinho, embrulhado em papel, este é, aliás, o item com a apresentação mais caprichada. A ocasião pede vinho e o Manoel Beato não vem junto, mas preparou uma carta de vinhos bem reduzida para viagem. 

Foram três pratos, a seleção do delivery tem sugestões mais simples, não são os pratos do menu original do restaurante (em compensação, os preços são 30% mais baixos, em média).

Dispensei a entrada, eram quatro saladas, com preços de prato principal. Pedi uma carne, a tagliatta, que estava impecável: as fatias de filé mignon bem macias, com o caldo da própria carne escorrendo discretamente, sabor delicadíssimo. E ainda por cima, não precisou ser aquecida (é como um rosbife, vai bem em temperatura ambiente). A rúcula e o parmesão vêm à parte. Boa pedida.  

Sofisticado. Proposta é ter a sensação de jantar fora, mesmo sem sair de casa

Sofisticado. Proposta é ter a sensação de jantar fora, mesmo sem sair de casa Foto: Patrícia Ferraz/Estadão

E provei também duas massas, ravioli de vitelo, servido com uma fonduta de queijo, o molho cremoso de queijo, bem espesso (talvez até demais). Mas, o melhor mesmo foi a lasanha à bolonhesa (se você já provou a do Gero sabe do que estou falando…), clássica,  com carne, tomate, mussarela -- porém vai ser preciso mexer na apresentação, chegou bem socada numa caixinha, nada apetitosa. Não pedi sobremesa. São quatro opções, entre elas fatias de abacaxi, por R$ 15. Dispensei.

Ficha de avaliação 

Restaurante: Fasano 

Quando pedir: No dia que quiser dar uma sofisticada na sua quarentena. Mas para entrar no clima você vai ter que fazer a sua parte: tirar tudo das embalagens e arrumar uma mesa bonita! Caso contrário, tanto faz pedir em qualquer outro restaurante italiano gostoso.

Tipo de entrega: própria, nos Jardins e num raio de 5 km.  Pelo site https://www.fasano.com.br/gastronomia/delivery-fasano ou por telefone (11 3896-4148). Mas quem está fora da área pode pedir entrega especial pelo rappi.

Funcionamento: todos os dias, das 12h às 22h

Cardápio e preços: boa oferta, diferente da carta do restaurante e com preços razoáveis para a grife, 30% mais baixos. São 4 saladas (R$48 a R$52); 7 massas (R$49 a R$69); duas carnes, além de milanesa de frango e polpetinhas (R$49 a R$79); 4 sobremesas (R$15 a R$18). Mas quem precisa de uma fatia de abacaxi a R$15?

Tamanho das porções: bem servidas, individuais.

O melhor e o pior: a aparência engana: a lasanha à bolonhesa foi o melhor prato mas a pior apresentação, veio socada numa caixa quadrada, não parecia nada apetitosa. 

Embalagens: boas, personalizadas, de papelão impermeabilizado por dentro, bem vedadas, não deixam escorrer os molhos e mantém a temperatura. Mas será que não tinha um jeito de deixar a comida mais atraente?

Como aquecer: tire da embalagem; Ponha as massas com os molhos no microondas (sim!); a milanesa deve ir ao forno preaquecido a 220ºC (médio) por dois minutos e outras carnes, como o filetto de manzo, ao forno quente, por um minuto apenas.

O que beber: o sommelier Manoel Beato diz que não é hora de sofrer para fazer harmonizações impecáveis, o momento é de beber o que dá prazer, sem descombinar vinho e comida. Para ele, as carnes e  massas do delivery vão bem com tintos, exceto as que levam peixes que pedem brancos assim como a milanesa de frango..

Acabamento: não está à altura da marca…

Dilema: cozinha aberta ou fechada?

Depois de muita polêmica e discussões acaloradas, ficou estabelecido na maioria dos restaurantes paulistanos, que o delivery deveria funcionar como a saída para garantir o mínimo de faturamento e evitar demissões. Alguns poucos estabelecimentos, como A Casa do Porco, do casal Rueda, fecharam as portas por tempo indeterminado, mantendo a brigada.

Quem continua aberto não opera normalmente, as equipes foram reduzidas e trabalham em turnos, para evitar aglomeração – muitos chefs afirmam ter mantido na cozinha só quem tem transporte próprio ou carona e dispensado aqueles que dependem de transporte público. Medidas sanitárias adicionais também foram adotadas, garantem, entre elas o uso de luvas e a higienização de todas as embalagens. Ainda assim, recomenda-se limpar em casa todas as embalagens.

A questão dos preços também causou polêmica: espera-se que sem os custos do serviço, de garçons, sommeliers...de lavagem de taças, toalhas e guardanapos, o restaurante cobre menos. Porém os chefs alegam que baixaram em média 10% apenas porque querem manter os custos, ou seja,o pagamento de todos os funcionários como se estivessem trabalhando.

Alguns aproveitam para fazer um afago aos clientes, mandando cartinha simpática e agradecida pela preferência, caso do Luiz Filipe Souza, do Evvai. 

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