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Ao ponto

José Orenstein

Biyou’z: uma porta para a África

Veja o restaurante que explora uma culinária pouco conhecida

14 outubro 2015 | 16:52 por José Orenstein

Comida étnica, restaurante étnico, culinária étnica: que isso quer dizer mesmo? Toda comida é, de alguma forma, étnica, todo restaurante também. Comida é parte da cultura de um povo, determinante na formação de etnicidades. O problema é que, macaqueando os americanos, chegados numa “ethnic food”, usamos aqui essa forma preconceituosa de se referir a determinadas culturas, de imigrantes mais recentes e, geralmente, mais pobres.

O Biyou’z encaixa facilmente no grupo dos restaurantes-étnicos-do-centro-de-São Paulo. Um balaio onde o pessoal joga do Rinconcito Peruano ao libanês Vovô Ali. Os três são muito bons, mas não têm nada a ver um com o outro. Injusto. Como sugeriu um artigo no Washington Post (boa leitura, aqui), vamos para de usar a palavra “étnico” para esconder os preconceitos com imigrantes?

Ndole tem molho de pasta de amendoim e folhas de boldo. FOTOS: Gabriela Biló/Estadão

Pois bem, o Biyou’z (diz-se biúz) é um restaurante camaronês do centro de São Paulo. Vale a visita. É a porta para um repertório culinário pouco conhecido aqui – o parentesco que consigo enxergar é com a comida do Recôncavo Baiano. O forte cheiro de dendê no pequenito salão é indício da relação.

Ficou com água na boca?

O ambiente é bem simples, tem bossa: paredes vermelhas e verdes, tecidos e peças de artesanato africano na parede – onde também figura foto da chef Melanito Biyouah com o artilheiro Samuel Eto’o (ano passado, durante a Copa, ela cozinhou para a seleção de seu país aqui no Brasil). Do salão, vê-se a muvuca da Barão de Limeira.

O serviço é simpático e trilíngue: português, francês e inglês são falados fluentemente (sem contar dialetos). O Biyou’z serve a comunidade de imigrantes camaroneses e de outros países africanos, mas é também aberto aos neófitos. O cardápio é traduzido para o inglês e tem fotos.

Mas de volta ao que interessa, a comida. A maioria dos pratos é tradicional do Camarões, mas tem também receitas nigerianas, senegalesas, congolesas. É tudo muito farto. Carne, peixe, frango vêm, em geral, embanhados como se fossem guisados, e alternam os acompanhamentos banana-da-terra, mandioca e fufu (polenta que pode ser de milho ou arroz, meio insossa, mas que ajuda a rebater os potentes temperos).

Artesanato decora a casa que tem à frente Melanito Biyouahdo, a chef que cozinhou para a seleção de Camarões na Copa

Também é recorrente no cardápio uma pasta de amendoim, base de alguns molhos, como o que vai no delicioso Ndole, que recomendo. Para os mais destemidos, vale encarar o Issingui, rico mocotó com um concentrado molho de berinjela e mandioca cozida.

A cada visita ao Biyou’z fui desbastando minha ignorância do que seja a comida camaronesa e a de outros países africanos. Até prova em contrário, só se vive uma vez: tratemos de não comer mal – e de aplastar ignorâncias. Ir ao Biyou’z ajuda na missão.

O MELHOR E O PIOR

Prove

O Ndole, saborosa carne em pedaços com um surpreendente molho de pasta de amendoim e folhas de boldo. Dos pratos que provei, o melhor.

O DG. É o prato mais acessível do cardápio, para se iniciar na cozinha camaronesa: um cozidão de frango, verduras e banana da terra frita, saboroso e de “sustança”.

O molho de pimenta. Picante na medida, é feito com pimenta amarela africana, cebola, alho – vai muito bem nos pratos da casa.

Evite

O doce de mandioca.. Doce demais, textura de papinha.

A caipirinha. É simpático o nome: Djindja, de gengibre e laranja, mas estava com gosto de suco de caixinha.

O cozido de frango DG é a pedida para iniciantes

BIYOU’Z

Estilo de cozinha: camaronesa, com pratos também de outras nações africanas, cheios de sabor.

Bom para: almoço tranquilo no fim de semana.

Acústica: aqui não é lugar para conversas ao pé do ouvido. Dá direto para a movimentada e barulhenta Barão de Limeira.

Vinho: cinco rótulos, de R$ 45 a R$ 55 (mas acho que vinho não é melhor pedida aqui…).

Cerveja: infelizmente, só tem long neck, a R$ 7 e R$ 8. O ambiente e a comida, entretanto, pedem uma garrafa de 600 ml.

Água e café: garrafinha a R$ 3 (500 ml); não tem café. Sigo a luta: sirvam água do filtro de graça!

Preços: entradas de R$ 10 a R$ 15, pratos de R$ 19 a R$ 28. Sobremesas, só duas: R$ 12 e R$ 16.

Vou voltar? Vou, sim, para explorar o resto do cardápio.

SERVIÇO – Biyou’z

Alameda Barão de Limeira, 19-A, Campos Elíseos

Tel.: 3221-6806

Horário de funcionamento: 12h/22h

A casa não tem serviço de valet

Ciclovia da Av. São João a 250m

Não tem bicicletário

>> Veja a íntegra da edição de 15/10/2015

Ficou com água na boca?