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José Orenstein

Casa do Porco: volta ao mundo no lombo de um porco

A Casa do Porco é um dos restaurantes que dá vida ao centro de São Paulo

04 novembro 2015 | 17:52 por José Orenstein

Viva o centro! O centro está sendo revitalizado! Mas epa. Peraí. O centro não estava morto. Tem muita, há muito, muita vida no centro de São Paulo. Vidas às vezes por um fio, mas vidas – noturnas, burocráticas, soturnas, proletárias. Então melhor começar assim: tem um novo tipo de vida que ocupa o centro. A Casa do Porco, aberta há um mês, surfa essa onda.

Deixo aos urbanistas – tem um monte nas vizinhanças do restaurante – avaliar se A Casa do Porco é a face sedutora da gentrificação e torço para que as vidas várias do centro convivam, não se matem. Fico com a comida, ótima, que sai da cozinha de Jefferson Rueda.

Aprazível. Decoração e clima estão mais para bar que para restaurante. FOTOS: Nilton Fukuda/Estadão

E há muita comida n’A Casa do Porco. Num primeiro momento, isso me confundiu um pouco, me fez duvidar se a proposta tipo playlist no modo shuffle, tema carne suína, funcionaria. Será que um mesmo restaurante conseguiria servir, em alto nível, lámen, carbonara, ceviche, embutidos, tartar, sanduíche, sushi, torresmo?

Ficou com água na boca?

Pois é, o cardápio é longuíssimo (depois de três visitas ainda não consegui provar de tudo). E não é tudo, do que provei, que está no mesmo alto nível do, por exemplo, memorável arroz de suã, de caldo rico, gelatinoso. Mas, no fim, acho difícil você ir à Casa do Porco e não comer muito bem, acertar com a maioria dos pratos.

Pedir a opção estilo menu-degustação é uma boa: está lá em letras bem miúdas o “de tudo um porco”. O chef vai mandando porções menores das muitas entradas e petiscos (peça a pancetta com goiabada e a alface com costelinha, arroz e alga) e depois vem o prato do porco a sanzé, estrela da casa, assado inteiro, à paraguaia, na churrasqueira, e que chega à mesa molhadíssimo, saborosíssimo, com arroz, tutu, couve e banana. Nesse esquema, numa das visitas, em casal, saiu R$ 80 por pessoa, saímos felizes.

Numa turma maior, dá também para dividir várias entradas e até pratos no meio da mesa. Aí gasta-se um pouco mais, especialmente com as bebidas, mais caras.

Sal e açúcar. Torresmo com goiabada, ótima entrada

Para quem não aguentar a longa fila que tem se formado à porta do restaurante nas horas do rush gastronômico, há o bem fornido sanduíche (um pouco de maionese demais para o meu gosto) vendido no balcão que dá para a Rua Araújo, para se comer na calçada.

Tudo que dá para ser feito na casa é: a linguiça, a mostarda, as massas, pães, etc. Há um talentoso chef no comando, que da cozinha observa o relativamente pequeno e aprazível salão. Apesar do híbrido de novaiorquismos pós-industriais, com neons, tubulação aparente, lampadinhas de filamento incandescente, há calor humano. O serviço ainda oscila, o amplo cardápio não está na ponta da língua da brigada, mas Janaina Rueda (do vizinho Dona Onça)  ronda o salão atenta.

Ah, as sobremesas: feitas por Saiko Izawa, desculpe o clichê, valem cada centavo, delicadas, inventivas sem ser amalucadas. Nesta uma vida que temos, vamos não comer mal? Vamos à Casa do Porco (o rabino que não me ouça).

O chef Jefferson Rueda

DONO DA CASA

Jefferson Rueda enfim tem um restaurante com a sua cara. O chef trabalhou em diversas casas, além do Attimo e do Pomodori, pelas quais levou muitos prêmios, misturando à cozinha clássica italiana as receitas caipiras, que trouxe de São José do Rio Pardo, onde nasceu. Foi lá que aprendeu a ser açougueiro.

O MELHOR E O PIOR

Prove

O arroz de suã. Ele vem descrito com um “aaah”. O prato suscita onomatopeias de prazer.

O “carbonara”. Não é a versão clássica e é ótima: vem com pancetta, bacon e guanciale.

O sorbet de manjericão, com salsão e morangos; é a melhor forma de encerrar uma densa refeição suína. Delicioso.

Evite

Ir sexta à noite. A espera vai ser longa… (Mas aí dá pra migrar pro Jazz B, ao lado, para ouvir um som do bom).

A cerveja em lata, da Heineken: custa surrealistas R$ 10.

Criação de Saiko Izawa: sorbet de manjericão, com salsão e morangos

Estilo de cozinha: Técnicas de diversos cantos empregadas a serviço da carne de porco.

Bom para: Fugir do esquema quilo-almoço-expresso no Centro (e gastar mais); jantar entre amigos.

Acústica: Não chega a ser barulhento.

Vinho: Carta enxuta, assinada por Gabi Monteleone. Bebo de olho no preço: dos 18 rótulos listados, 13 custam três dígitos. Puxado. Taça a R$ 22 e R$ 24. Taxa de rolha: R$ 50.

Cerveja: Porco pede cerveja. Caberiam mais opções. A Horny Pig a R$ 14 é bom negócio; a Brooklyn Lager a R$ 32 é mau.

Água e café: A garrafinha custa vultosos R$ 6. Café excelente, expresso (R$6) ou coado (R$9), vem com queijo canastra e bala de caramelo com bacon.

Preços: Entradas e petiscos (R$ 10 a R$ 29); pratos de R$42 a R$ 69; sobremesas (R$ 13 a R$23). Sanduíche (R$15).

Vou voltar? Sim. Tô de olho na cabeça de porco, que precisa ser reservada.

SERVIÇO – CASA DO PORCO

R. Araújo, 124, Centro

Tel.: 3258-2578

Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 12h às 1h, domingo das 12h às 17h30. Loja de sanduíche (R$ 15): 11h/1h

Ciclovia: Pça. da República (100 m). Sem bicicletário.

>> Veja a íntegra da edição de 5/11/2015

Ficou com água na boca?