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Chef Mario Batali se afasta de restaurantes após diversas acusações de assédio

Respondendo a denúncias de abusos sexuais desde 2017, chef-celebridade deixa grupo americano que é um gigante do mercado gastronômico

06 de março de 2019 | 19:43 por Julia Moskin, The New York Times

The New York Times

A parceria de 20 anos entre o chef celebridade Mario Batali e a família de restaurateurs Bastianich foi dissolvida formalmente nesta quarta-feira, mais de um anos após várias mulheres terem acusado Batali de assédio sexual.

Batali “não participará mais dos restaurantes de nenhum modo”, disse Tanya Bastianich Manuali, que comandará o dia a dia da nova empresa (ainda sem nome) criada para substituir o Batali & Bastianich Hospitality Group. 

A nova companhia vai operar os 16 restaurantes ainda existentes do grupo sob nova direção e estrutura financeira. Tanya Bastianich e seu irmão, Joe Bastianich, compraram todas as ações de Batali nos restaurantes. Os irmãos não vão comentar os termos da transação.

Batali também está vendendo suas ações do Eataly, uma rede global megaempórios de comida italiana. “O Eataly está comprando a parte minoritária de Batali no Eataly USA", diz Chris Giglio, porta-voz da empresa.

Chef-celebridade Mario Batali, acusado em diversos casos de assédio sexual. 

Chef-celebridade Mario Batali, acusado em diversos casos de assédio sexual.  Foto: Fred Conrad/NYT

Muitos chefs e restaurateurs foram recentemente acusados de assédio sexual, mas Batali é o primeiro a abrir mão de todos seus restaurantes.

Em seu auge, o grupo Batali & Bastianich possuía dezenas de restaurantes e lojas do ramo de alimentação nos Estados Unidos, Itália, Cingapura e Hong Kong. Restaurantes famosos como Babbo e Del Posto transformaram Batali e seu primeiro sócio, Joe Bastianich, em celebridades. Dois outros sócios reforçaram o grupo: a respeitada chef californiana Nancy Silverton e Lidia Bastianich, mãe de Joe, prestigiada autoridade em cozinha italiana e dona do Felidia, em Manhattan.  Silverstone e a matriarca Bastianch serão sócias na nova empresa, com Joe Bastianich e Tanya Bastianich Manuali.

Em dezembro de 2017, novas denúncias de agressões sexuais de Batali chegaram à esfera policial, torpedeando a carreira do chef e lançando sombras sobre todos os restaurantes com os quais ele estava envolvido. As reservas no Del Posto, a luxuosa casa emblemática do grupo em Manhattan, despencaram. Clientes corporativos afastaram-se Batali. 

Seis restaurantes do grupo, em Las Vegas e no Leste da Ásia, fecharam logo em seguida, quando o grupo do cassino Sands encerrou seu contrato com Batali & Bastianich. O mais novo restaurante do grupo, o ambicioso e caro La Sirena, também em Manhattan, fechou em dezembro. 

Desde que o escândalo estourou, Joe Bastianich afirma que desconhecia as agressões sexuais de Batali às mulheres. Em declaração divulgada na terça-feira, ele disse: “Embora eu nunca tenha visto ou ouvido falar de Mario apalpar uma funcionária, eu o ouvi dizer coisas impróprias a nossos empregados. Apesar de eu criticá-lo de vez em quando por isso, acredito que deveria ter feito mais. Ignorei minhas responsabilidades enquanto voltava minha atenção para os restaurantes. Pessoas ficaram feridas e lamento profundamente por isso”.

Apesar das declarações, três ex-funcionários do grupo, falando sob a condição de anonimidade por causa do grande poder de Bastianich no ramo, disseram acreditar que seria impossível Bastianich não saber do mau comportamento de Batali. No meio da gastronomia, segundo essas três fonte entre outras, os dois homens são conhecidos por permitir uma cultura sexista que ignorava a má conduta de empregados homens e humilhava as mulheres. (Antes do movimento #MeToo, esse tipo de atmosfera não era exclusividade do grupo Batali & Bastianich.)

Na manhã de quarta-feira, Batali divulgou declaração dizendo: “Cheguei a um acordo com Joe e não possuo mais ações nos restaurantes que construímos juntos. Desejo toda sorte a ele”. Batali não quis se aprofundar nos comentários.   

O acordo devolve o controle dos restaurantes à família Bastianich, que trabalha junta desde os anos 1970, quando Lidia Bastianich e o marido, Felice Bastianch, abriram seu primeiro restaurante italiano, no Queens, em Nova York. Os filhos do casal estão no ramo desde que tiveram idade suficiente para dobrar guardanapos (Felice morreu em 2010). 

Nos primeiros anos da parceria Bastianich/Batali, os dois eram astros da mídia, embora Bastianich operasse nos bastidores. “Como um cara careca e pesando 90 quilos, eu ficava à sombra de Mario e à sombra de minha mãe”, disse ele. Depois, porém, Joe tornou-se maratonista e triatleta, ganhando confiança. “Foi um erro ter demorado a aparecer”, lamentou. 

Embora Tanya Bastianich Manuali, que dirigirá o recém-criado grupo, nunca tenha tido uma função pública na organização Batali & Bastianich, ela há muito administra os restaurantes da mãe. Tanya também é coautora de sete dos livros de culinária da mãe e atua como produtora de séries de TV desde 2006.    

A primeira parceria do novo grupo será a churrascaria The Barish, que funcionará no recém-restaurado Hotel Hollywood Roosevelt, em Los Angeles.

/ Tradução de Roberto Muniz

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