Paladar

Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

Ao ponto

José Orenstein

Cocina Bar y Vino tem trivial argentino que deixa na mão

Novo restaurante argentino na Consolação aposta na simplicidade, mas não acerta na personalidade

12 outubro 2016 | 18:06 por José Orenstein

A simplicidade de uma certa cozinha argentina é virtuosa. Tem a ver com uma cultura de bonvivantismo e vai pela linha da surrada porém valiosa fórmula que ensina: menos é mais. Significa que não é preciso muito para receber uma piscadela dessa senhora fujona, a felicidade – umas carnes e verduras frescas na brasa, pão caseiro e vinho da região já bastam.

Em São Paulo já temos alguns bons representantes dessa filosofia hermana como Chou, Arturito e La Frontera. Então quando soube que o Cocina Bar y Vino, recém-aberto na Consolação, se propunha mais ou menos a entrar nesse time, corri para o restaurante.

Assado de tira com batata rosti e molho chumichurri. Dispense o molho e coma só a carne,

Assado de tira com batata rosti e molho chumichurri. Dispense o molho e coma só a carne, Foto: Amanda Perobelli|Estadão

 

À primeira vista, ele alinha na turma frugal argentina. Ocupa um sobrado de tijolos aparentes pintados de branco, tem piso, mesas e móveis de madeira vistosa e uma iluminação que, de dia, clareia e areja sem cegar; de noite, é suave e amarela, aconchega. Quer dizer: o ambiente do Cocina é simpático, agradável, sem ser extravagante nem desalmado.

Mas, desafortunadamente, chegamos ao ponto: a comida que oferece não tem aquela simplicidade cheia de personalidade e graça que se anunciava. 

Começo pelas empanadas: faltam estrutura e viço à massa, meio quebradiça, e potência de sabor ao recheio de carne (o de queijo, com brie e gorgonzola, vai melhor). A brusqueta é um acerto: bom pão de nozes e tomate, o simples bem-feito, enfim. Escolhe-se então entre alguns cortes grelhados tradicionais, todos por R$ 51, com um molho e um acompanhamento. As carnes vêm no ponto correto e são saborosos o assado de tira e o bife ancho, ainda que venham em tamanhos reduzidos e tenham um defumado característico do charbroiler usado pela casa. Falta leveza aos molhos, como no de vinho ou no chimichurri – melhor comer a carne pura mesmo. Os acompanhamentos são irregulares: a batata rosti vai bem, creme de espinafre vai mal. E aí há os pratos genéricos, como o linguado com limão-siciliano, salmão com shiitake, frango com champignon e até hambúrguer. Nem o gentil e atencioso serviço aquece a vibração morna que fica ao fim da refeição.

Empanadas de queije e carne.

Empanadas de queije e carne. Foto: Amanda Perobelli|Estadão

CONTEXTO

O Cocina ocupa o mesmo lugar onde funcionava o Saj, restaurante com algumas filiais em São Paulo. Renato Lopes é quem está à frente do negócio. Ele foi cozinheiro do vizinho e tradicional Mestiço. Renato reformou o imóvel e montou o cardápio com receitas portenhas e pratos variados. 

O MELHOR E O PIOR

PROVE

O assado de tira. O clássico corte de carne vem no ponto certo. Dispense os molhos. 

O camarão grelhado. Bichos graúdos passam pelo fogo e chegam firmes, com bons legumes chamuscados, à mesa.

EVITE

A milanesa. A carne fininha vem embebida em manteiga, não fica nem crocante nem seca. O espinafre que vem junto é salgado demais. Difícil terminar o prato.

O linguini com tomate, camarão, lula, shiitake e abobrinha. O prato opera o milagre de ter um monte de ingredientes e nenhum gosto. 

A panqueca com doce de leite. Chega fria à mesa, e a massa é fina demais. Vem com um pouco apetitoso sorvete Kibon.

Doce. Tiramisù não é feito na hora, mas é boa pedida.

Doce. Tiramisù não é feito na hora, mas é boa pedida. Foto: Amanda Perobelli|Estadão

Estilo de cozinha: trivial com algumas receitas de inspiração argentina (churrasco e empanada).

Bom para: almoço rápido de trabalho; jantar informal com amigos.  

Acústica: no almoço, a casa lota com o pessoal de escritórios da região e é ruidosa no salão de baixo; à noite e no andar de cima, é tudo mais calmo. 

Vinho: a carta é grande, com dezenas de rótulos, com preços para vários bolsos, que vão de R$ 59 a R$ 239. Em taça, há duas opções de branco, uma de rosé e três de tinto, com preços entre R$ 17 e R$ 21. Taxa de rolha: cortesia.

Cerveja: mais um oferecimento de Ambev – Serra Malte, Patagonia, Corona, Stella Artois e Colorado, em garrafas grandes ou long neck.  

Água e café: alvíssaras, evoó, viva – água mineral é cortesia da casa, servida em jarrinhas. Que o gesto continue se propagando pela cidade. Já o café é mais ou menos, Três Corações (R$ 4,50).

Preços: entradas (R$ 7,50 a R$ 33), principais (R$ 34 a R$ 57), sobremesas (R$ 18; frutas são R$ 11,50).

Vou voltar? Antes tarde do que cedo.

SERVIÇO

COCINA BAR Y VINO

Rua Fernando de Albuquerque, 255, Consolação

Tel.: 3881-1824

Horário de funcionamento: 12h/15h e 17h/23h (sex., até 0h30; sáb., 12h/0h30; dom., 12h/23h; fecha seg.).

Valet: R$ 18 (almoço); R$ 23 (jantar).

Não tem paraciclo.

 

Ficou com água na boca?