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Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

De juiz a engenheiro, refugiados sírios em SP se reinventam pela comida

Rica tradição da culinária do Oriente Médio é reproduzida em pequenas cozinhas caseiras

28 outubro 2015 | 18:08 por José Orenstein

Da tragédia da guerra e do desterro, nasce um fio de esperança. Mais de 2.000 sírios refugiaram-se no Brasil nos últimos dois anos. E muitos deles encontraram na comida um meio de sobreviver. Com deliciosos baclawas, homus, esfihas e tabules, receitas de família que carregaram através do Atlântico, reconstroem a vida em São Paulo.

Em pequenas cozinhas caseiras, reproduzem a rica tradição culinária do Oriente Médio e, assim, uma série de eventos e novos restaurantes estão aparecendo na cidade neste ano. Vendendo por encomenda e em bazares ou dando aulas de cozinha, eles engordam o cardápio paulistano.

São Paulo acolhe milhares de refugiados. Gente forçada ao desterro por guerras ou situação de opressão. Os números oficiais apontam mais de 8.000 deles no País, dos quais mais da metade estaria na capital paulista. Mas há mais pessoas nessa situação, não registradas, dizem especialistas.

Wessam Aljammal e Muna Darweesh atendem pedidos sob encomenda, como dos charutinhos de folha de uva. FOTOS: Marcio Fernandes/Estadão

Conquistada a paz, o desafio é tocar a vida. A gastronomia é uma das principais saídas. “A maioria não tinha contato profissional com cozinha. Mas acaba descobrindo que é uma ótima forma de ter uma renda, se integrar na sociedade e, a palavra é feia, mas boa: se empoderar”, diz Marysol Góes, voluntária do Adus, organização que ajuda refugiados em São Paulo.

O Adus já fez neste ano quatro bazares. A venda de comidas típicas tem sido a principal atração dos eventos. Foi no primeiro deles, em abril, que o sírio Talal Al-Tinawi percebeu o potencial de seus baclawas e homus. Fez campanha de crowdfunding e juntou R$ 70 mil para abrir um restaurante.

Neste mês, assume o quiosque Sabores & Lembranças no food park PikNik Faria Lima (Av. Rebouças, 3.128, Pinheiros). A cada mês, um refugiado vai vender comida lá. Já na loja de discos e bar Fatiado (Av. Prof. Alfonso Bovero, 382, Perdizes), toda terça, desde o mês passado, tem o Jantar dos Refugiados. A cada vez um grupo vende seus quitutes. Na semana passada, um grupo de palestinos que vivia na Síria oferecia suas caprichadas esfihas, quibes e falafel.

Outra saída comum tem sido dar cursos, promovidos pela organização Migraflix desde setembro. Hoje a síria Muna Darweesh ensina os segredos do charutinho de folha de uva (a aula custa R$ 90; 80% da renda vai para o imigrante).

E, por fim, há os que já abriram o próprio negócio, como o médico Said Mourad, dono da ótima loja de doces Damascus, em Pinheiros, ou Eyad Aboharb, que abriu um restaurante no Pari (leia abaixo). Conheça a seguir três refugiados sírios que refazem a vida na cozinha.

UMA ESQUINA NO PARI

Eyad Aboharb não para. Fatia o tenro espeto de carne giratório que dá para a rua, opera a chapa remexendo o sojok, carne apimentada típica da Síria, monta bem fornidos sanduíches tipo shawarma e ainda atende os clientes – em árabe e em português. O sírio de 26 anos está há pouco mais de um ano em São Paulo. Fugiu de Damasco, capital da Síria, pelo Líbano, depois que a vida ficou inviável por lá.

Aos 26 anos, Eyad Aboharb abriu seu próprio restaurante e já tem clientela fiel. FOTOS: Marcio Fernandes/Estadão

Ele para por uns segundos e, num esforçado português, diz sobre sua terra: “Não tem mais país, não tem mais nada. Acabou.” Os três irmãos e os pais continuam lá, mas Eyad espera que não por muito tempo. Em Damasco, ele trabalhava em restaurante. Agora, abriu o próprio endereço em São Paulo, o Ogarett. Começou com uma portinha, no Pari, em julho deste ano. Mas nesta semana expandiu o local, que ocupa uma esquina do bairro. Mesmo com poucos meses trabalhando na área, ele já possui uma clientela estável.

Na última segunda-feira, uma dupla de libaneses que há mais de 15 anos vive em São Paulo ocupava mesa no Ogarett e elogiava o trabalho de Eyad: “A comida dele é muito boa”. Sua especialidade é o shawarma, sanduíche no pão pita que pode levar carneiro ou frango (R$ 9), com tahine (molho à base de gergelim), picles, hortelã, tomate. O sanduíche de sojok, carne apimentada, na chapa, também é ótimo.

Eyad serve ainda esfihas, como a de zaatar (mistura de especiarias), além de quibe, uma boa coalhada, e a pasta de grão-de-bico, o homus. É tudo feito na própria casa, na cozinha que fica no andar de cima do imóvel. Em breve, Eyad planeja vender doces típicos para seus colegas sírios.

Serviço – Ogarett: R. Dr. Ornelas, 150, Pari. Horário de funcionamento: 9h/20h

DE LATAKIA A SÃO PAULO

Muna Darweesh abre a porta do diminuto apartamento no Centro. É ali que ela e o marido, Wessam Aljammal, vivem com seus quatro animados filhos, Jawa, Mohammed, Abdullah e Taim. É ali também que o casal refaz a vida, na pequena cozinha, repleta de especiarias e temperos que usam para preparar comidas típicas da Síria.

Muna Darweesh, Wessam Aljammal e seus quatro filhos

Wessam recebe a reportagem com um aromático café com cardamomo. “Você não achava que homem fosse para a cozinha numa casa muçulmana?”, provoca Muna. É ela que comanda ali: vai semanalmente ao Mercadão se abastecer de zaatar, sumac, grão-de-bico, pasta de gergelim e pimenta síria. “Só compro os melhores ingredientes”, diz, orgulhosa. O charutinho de uva que ela serviu (e que é vendido por encomenda) é excelente: úmido e um pouco mais cítrico do que estamos acostumados aqui.

RECEITA:

+ Aprenda a fazer o falafel de  Muna Darweesh

Muna conta que, em Latakia, na Síria, só fazia comida em casa, para a família. Lá, estudou literatura na faculdade. Leu Shakespeare, Shaw, Hemingway, Dostoiévski, Gorki. Mas com a guerra civil teve que fugir com a família. Wessam é engenheiro naval. Sem conseguir emprego nas suas áreas, o casal vive dos doces atayef, do crocante falafel e do bem temperado tabule. Já apareceram na TV, fazem bazares, dão aulas. “Estou sendo reconhecida, isso dá autoconfiança”, diz Muna.

Serviço - Muna Cozinha Árabe

DOCE ESPERANÇA

Kamal Kabawa tem rosto de traços fortes e um sorriso que lhe espreme os olhos. Tem 42 anos. Tem uma esposa e cinco filhos. Tem também um recém-descoberto talento para fazer doces árabes: baclawas de delicada massa folhada e recheio de nozes e pistache ou um delicioso e viciante Joz El Hend, doce que lembra nossa cocada. Kamal tinha uma profissão, de juiz comercial. Tinha uma casa grande em Alepo, segunda maior cidade da Síria. Tinha mãe e irmãos, que não sabe se estão vivos.

O juiz comercial Kamal Kabawa descobriu seu talento para os doces

Quando chegou em Guarulhos, há 10 meses, a única coisa que sabia do Brasil era apontar o país no mapa. Ficou 5 horas no aeroporto, perdido, até que um libanês, falante de árabe, o ajudou. Hoje, mora na Mooca. Começou a aprender português na Mesquita Brasil, na Avenida do Estado. Já fala bem a língua: “Tenho muitas saudades”, diz, sobre a Síria. Mostra no celular fotos de sua ampla e bem decorada casa em Alepo. E uma forte imagem dela destruída.

Suspira quando fala de amigos que morreram no mar, rumo à Europa. “Aqui tenho vida.” A todo momento agradece a acolhida dos brasileiros. Além de vender doces por encomenda, vai ocupar o quiosque na feira PikNik, em Pinheiros. Kamal tinha e tem vontade de viver.

Serviço - Esfiha Árabe

MAIS COMIDA SÍRIA POR AÍ

Damascus

Loja de doces árabes e boas pastas como homus e coalhada.

R. Cônego Eugênio Leite, 764, Pinheiros

Talal Comida Síria

Comida árabe por encomenda. Em breve, restaurante.

>> Veja a íntegra da edição de 29/10/2015

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