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Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

Diário de viagem pela Puglia gastronômica

Confira dicas de lugares e restaurantes para uma viagem de carro pela região, que ainda guarda as qualidades de uma Itália mais dedicada ao gosto por comer sem sofisticação e pelos detalhes simples da vida

05 julho 2018 | 00:22 por Braulio Pasmanik

Especial para o Estado 

Se a costa ocidental da Itália é famosa por suas praias lotadas, restaurantes e hotéis sofisticados, baladas e muito movimento, a Puglia ainda guarda as qualidades de uma Itália mais dedicada ao gosto por comer sem sofisticação e pelos detalhes simples da vida. 

Como não existe uma estrutura turística eficiente, é importante escolher bem a época de viajar. Nos primeiros meses do ano faz frio e muitos hotéis estão fechados.

 

  Foto: Edgar Costa

Nas férias de julho e agosto, alta temporada, os preços das diárias de hotel dobram de preço e é comum encontrar enormes congestionamentos nas estradas e filas em restaurantes. Escolhi o final de abril para iniciar a viagem e acho que acertei.  Comecei no aeroporto de Roma onde aluguei o carro.

O tempo de estrada até a primeira parada na Puglia é de seis horas, a rota mais curta passa por Nápoles e assim foi melhor fazer uma pausa na caótica porém maravilhosa terra da pizza. Se você não conhece a cidade, recomendo que fique uma ou duas noites e visite um pouco de sua história e da gastronomia. Na realidade, essa região justifica outro roteiro, incluindo a costa Malfitana, algumas ilhas como Capri e Ischia e claro o Vesúvio e Pompéia.  Em Nápoles não perca o La Casa di Ninetta. A melhor opção para conhecer as preparações típicas da cidade. (via Niccolò Tommaseo 11; lacasadininetta.it) e o La Scialuppa (5, Piazzetta Marinari), situado na marina em frente ao Hotel Vesúvio, é um ótimo endereço para provar os peixes e frutos do mar da região, acompanhados do excepcional vinho branco Costa d’Amalfi Fiorduva.  

Descansado e bem alimentado, segui viagem. A Puglia é formada por dezenas de cidades históricas minúsculas e algumas cidades mais populosas como Bari e Lecce. Minha estratégia foi evitar mudanças de hotel que acabam consumindo muito tempo. Assim dividi a viagem em duas etapas e minha primeira parada foi em Fasano que tem hotéis bons e praia perto.

Os hotéis mais interessantes, ao contrário do que se poderia imaginar, não ficam na praia e são chamados masserias. São antigas propriedades agrícolas que se transformaram em hotel. A que escolhi foi a Masseria Torre Maizza que fica entre a cidade de Fasano e a praia, denominada Savelletri. O hotel me impressionou muito por mostrar um retrato fiel da região. O quarto é simples e confortável. O café da manhã é farto com burrata e mozzarella, muitas frutas e deliciosos pães e crostatas. As paredes brancas do mediterrâneo compõem a parte principal do hotel e a ligação para área dos quartos é feita por um agradável bosque de aromas, formado por lavanda, alecrim, flor de laranjeira, jasmim e tantos outros cheiros deliciosos. O resultado é que não há mau-humor matutino que resista a caminhada do quarto até o lugar onde se toma o café da manhã.

A primeira cidade que visitei foi Polignano a Mare, construída sobre rochas à beira do Adriático. A paisagem deslumbrante se espalha por todos os lugares, mas não dá para perder a vista da ponte Romana da Via Traiana, de onde se vê ruínas romanas, praia, mar azul e o centro histórico da cidade. Sempre digo que a Itália é o país de Lugares Únicos. Veneza, Roma e Positano são bons exemplos. Assim também é o restaurante mais famoso da cidade, o Grotta Palazzese (Via Narciso 59; grottapalazzese.it). Fica localizado numa enorme gruta à beira mar que era usada como salão de festas pelo proprietário do castelo construído ao seu lado. No almoço se pode desfrutar da encantadora vista dos tons azuis do mar. No jantar, candelabros transformam a gruta num ambiente sofisticado e romântico. É um programa imperdível e a reserva deve ser feita com muita antecedência. 

Na volta parei na encantadora Monopoli. Um passeio pelas ruas estreitas, com “portas” para o mar e finalizando na charmosa praça do centro histórico para uma grappa e um café.

Trullis em Alberobello

Trullis em Alberobello Foto: Braulio Pasmanik

No dia seguinte fui direto para Alberobello, a cidade dos trullis. O Trullo é uma casa de telhado cônico e fala-se que sua construção era usada para evitar a cobrança de impostos, pois era fácil de desmontar. A cidade é uma gracinha e muito interessante, mas também muito cheia de excursões e turistas. Preferi almoçar em Locorotondo e foi uma boa ideia. Seu centro histórico, uma dos mais belos da Puglia, tem esse nome por seu formato redondo, com ruas estreitas e casinhas altas parecendo uma torre de igreja. Em Locorotondo não perca o U'Curdunn (Via Dura 19ristoranteucurdunn.it). O restaurante é ótimo e repleto de produtos frescos da região, começando com uma excelente burrata com tomates confit, passando por flor de abobrinha frita e terminando com um delicioso cordeiro.

Fiori di zucca do restaurante U'Curdunn em Locorotondo

Fiori di zucca do restaurante U'Curdunn em Locorotondo Foto: Braulio Pasmanik

No dia seguinte, resolvi espairecer. O hotel tem uma propriedade na praia, em Savelletri com cadeiras, toalhas e bom serviço de bar. O mar é cristalino, o céu de azul intenso e a água para padrões brasileiros, muito fria. E foi em Savelletri que tive a grande surpresa gastronômica da viagem. Numa construção de 30 metros quadrados está toda a área de serviço da Pescheria Due Mari (Piazza Amati 1), um deck florido e com vista para o mar onde fiz a melhor refeição da viagem.

No último dia da primeira etapa saí para conhecer Martina Franca, Ostuni e Cisternino. São cidades lindas, sempre com centro antigo e coisas peculiares. Em Ostuni, por ser um dia de feriado, havia concertos nas praças e feirinhas ao redor. Mas as paisagens começaram a se repetir e achei que era hora de seguir em frente. Na manhã seguinte, parti rumo a Otranto, no calcanhar da bota italiana, mas parei para um bem sucedido almoço na maravilhosa Lecce.

Lecce é linda, repleta de atrações históricas e saindo cedo de Fasano, em uma hora se chega lá. É possível conhecer a cidade e partir rumo a Otranto no final do dia. Lecce conta um pouco da história italiana. No centro histórico, sempre a pé, é possível conhecer um anfiteatro Romano, um castelo erguido no século XVI por Carlos V e monumentos barrocos como a Basilica di Santa Croce e a Cattedrale di Santa Maria Assunta na Piazza del Duomo. Já na área do bem comer, uma das vinícolas do grupo Antinori, a Tormaresca Vino & Cucina (Via Cairoli 25; tormaresca.it), abriu um simpático restaurante que fica pertinho do centro histórico e foi providencial para meu almoço. 

Mais duas horas e estava em Otranto, onde escolhi a Masseria Muzza como ponto central da segunda etapa da viagem. A Masseria Muzza convida a preguiça. Uma estrutura ótima de spa, uma piscina deslumbrante com direito ao pôr do sol mais bonito da viagem e um serviço impecável. Mas a Puglia tem muitas atrações e logo pela manhã parti para Gallipoli do outro lado do salto da bota italiana. A cidade tem, como todas as outras, um centro histórico interessante, com igrejas e monumentos lindos. Porém passear pelo “lungomare”, a calçada que vai circundando o mar é de tirar o fôlego. A paisagem vai se alternando entre o porto, as docas de pescadores, praias e recifes. Na Itália, na falta de uma referência abalizada, pare um gordo simpático na rua e pergunte onde ele gosta de comer. Assim fiz e comi muito bem no La Puritate (Via Sant’Elia 18), com comida boa e ar condicionado, ingrediente importante na comida, quando a temperatura começa a subir. 

Tormaresca Vino e Cucina em Lecce

Tormaresca Vino e Cucina em Lecce Foto: Braulio Pasmanik

Na volta de Gallipoli, passei em Otranto para uma primeira visita, já que o hotel é na zona rural da cidade. A Puglia é inteira deslumbrante, mas se um lugar se destaca pelo “conjunto da obra”, esse lugar é Otranto. A cidade por si só, emociona. A catedral reserva resquícios da invasão turca com um deslumbrante mosaico no chão. Há também o Castelo Aragonês de onde se descortina uma linda vista do porto e da cidade.

Atravessando o centro histórico, se chega ao coração da cidade numa praça em frente ao mar, repleta de restaurantes, sorveterias e lojinhas. E o melhor, ao longo da costa, praias de areia branca, com boa infraestrutura de atendimento e bons restaurantes. Lá se encontra a encantadora Grotta della Poesia, um complexo rochoso com piscina de água do mar de azul cristalino, que por si só já vale a viagem. Em Otranto não perca o Laltrobaffo (Via Cenobio Basiliano 23, Centro histórico). O restaurante é moderno, sofisticado e de comida saborosa da Chef Cristina Conde é um ponto fora da curva na normal simplicidade dos restaurantes da Puglia. 

Pertinho de Otranto existe ainda um outro fantástico complexo de piscinas salgadas escavadas nas rochas, Melendugno. No dia seguinte, iniciei minha jornada de volta a Roma.

Ao lado da Puglia, fica a região da Basilicata, também conhecida por Lucânia. Fica no caminho de retorno e lá se encontra uma importante relíquia da vida e da cultura italianas. É Matera, cidade de construções escavadas na rocha, com aquedutos e cultura imperdíveis. Mas essa história: fica para uma próxima vez !

*Empresário e foodie 

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