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Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

Em Paris, as mesas caras andam vazias

Com a cidade em estado de emergência desde os atentados terroristas, os restaurantes mais formais e mais caros sofrem com a falta de turistas e com o clima de pessimismo

25 maio 2016 | 12:05 por Elaine Sciolino

The New York Times

De Paris

Há tempos Les Bouquinistes é um dos restaurantes de luxo favoritos dos visitantes à cidade. Localizado na Margem Esquerda, fundado por Guy Savoy, chef três estrelas do Michelin, ele oferece recepção simpática em ambiente contemporâneo, cardápio criativo, preços que não são estratosféricos e uma vista sensacional do Sena e da Catedral de Notre-Dame.

Porém, em uma noite de quinta recente, os 50 lugares da casa estavam vazios, com exceção de um casal em uma mesa na parte da frente e um pequeno grupo comemorando um aniversário na parte de trás.

"É o medo do terrorismo. Dependemos muito dos turistas norte-americanos, japoneses, e eles não estão vindo mais para cá", explica o gerente, Cédric Jossot.

Paris está com os nervos à flor da pele há mais de um ano. Primeiro foram os ataques à revista Charlie Hebdo e ao supermercado kosher, em janeiro de 2015, que deixaram vinte mortos (17 franceses e três jihadistas); depois vieram os atentados, muito mais amplos e violentos, em novembro, ocorridos em um estádio, uma casa de espetáculos e vários bistrôs e bares de bairro, que mataram 130 pessoas. O presidente François Hollande declarou que a França estava em guerra e impôs um estado de emergência ao país que ainda está em vigência.

Bruxelas foi atacada em março – e os relatos de que os responsáveis pela violência estavam ligados ao massacre parisiense, quatro meses antes, e que tinham querido atacar a capital francesa primeiro deixaram a impressão de que a cidade não é segura.

Tudo isso, além de tendências econômicas mais amplas que afetam os negócios dos setores de luxo, resultou em mesas vazias em alguns dos restaurantes mais famosos e refinados de Paris. Os bistrôs animados, que atendem ao pessoal local, parecem lotados; já os estabelecimentos formais e mais caros, nem tanto.

Em seu restaurante Pavillon Ledoyen, Yannick Alléno criou um cardápio mais enxuto para o almoço.

Em seu restaurante Pavillon Ledoyen, Yannick Alléno criou um cardápio mais enxuto para o almoço. Foto: Ed Alcock|NYT

"É uma catástrofe. Tentamos manter a postura positiva e reafirmar que Paris continua sendo um destino mágico, como sempre foi. Sim, estamos em guerra contra os terroristas, mas o mundo inteiro também está", lamenta Yannick Alléno, outro chef três estrelas e um dos mais criativos da cidade, no Pavillon Ledoyen.

Para atrair a clientela na hora do almoço, Alléno introduziu um cardápio mais enxuto, sem entrada, mas com um prato principal perfeito: por exemplo, filé de rodovalho assado; pérolas de batata temperadas com pele de peixe seca; ravióli de pepino com queijo cottage defumado. O chá picante de algas marinhas, a água mineral e o café estão incluídos, mas o vinho é extra; mesmo assim, 72 euros (US$ 83) é um preço salgado para uma refeição comum.

E assim o universo gastronômico de Paris se tornou mais complicado. Os hotéis de luxo estão sofrendo tanto por causa do medo do terrorismo como pelo aumento da oferta de apartamentos para aluguel de curtas temporadas, o que, segundo Philippe Faure, funcionário do ministério das Relações Exteriores responsável pela promoção do turismo, significa menos recomendações de restaurantes por parte dos concierges. "E o estado de emergência significa que a política de muitas seguradoras internacionais não cobre mais as viagens a negócios à França", completou.

Aumentou também o número de estrangeiros que, hospedados em apartamentos e não mais em hotéis, seguem o exemplo dos parisienses, usando os serviços de delivery de alta qualidade ou mesmo contratando chefs particulares.

Os restaurantes estrelados, principalmente os dos tais hotéis de luxo, são os que mais estão sofrendo no momento. "O pessoal entra, vê o salão vazio e vai para o bistrô do outro lado da rua", conta Faure.

A casa de Alain Ducasse, no hotel Plaza Athénée, e o Le Cinq, restaurante de luxo do George V, administrado pelo Four Seasons, ambos com três estrelas do guia Michelin, às vezes ficam quase totalmente vazios. Outro dia, era uma e meia da tarde e o Plaza estava servindo apenas duas mesas com duas pessoas cada; na hora do jantar, também há pouco tempo, o Le Cinq servia apenas dois casais.

"Isso está gerando um clima de estresse e ansiedade para todo mundo, os chefs, os donos, os clientes", lamenta François-Régis Gaudry, crítico de gastronomia da L'Express, que come fora diariamente.

E continua, lembrando que não faz muito tempo, almoçando no Le Gabriel, dono de duas estrelas situado no luxuoso La Réserve, ficou espantando de ver que só um terço das mesas estava ocupado; no Chez L'Ami Jean, bistrô famoso especializado em culinária basca presente em muitos guias e blogs norte-americanos, a situação era ainda pior. "Estava lá com um crítico dos EUA e não tinha ninguém, só nós dois."

Estabelecimentos que antes tinham lista de espera de um mês, como Le Jules Verne, no topo da Torre Eiffel, hoje aceitam reservas quase imediatas, principalmente se for para o almoço.

Ducasse pode cobrir suas perdas em parte por ter várias casas destinadas a vários tipos de clientela e diferentes orçamentos. Champeaux, sua nova brasserie em Les Halles, por exemplo, anda lotada desde a inauguração, em abril, mas ele está preocupado com a nova extensão do estado de emergência decidida pelo governo.

"Eu estava em Nova York depois do onze de setembro e o prefeito de lá foi sensacional, garantindo a todos nós que tínhamos comércio que a vida ia e tinha que continuar. Esse clima de medo aqui na França é terrível, não só para os restaurantes, mas para toda a comunidade."

Outros chefs estão tentando reverter o estrago cortando preços. Gilles Epié, do Citrus Étoile, perto do Arc de Triomphe, começou uma campanha pela internet, oferecendo trinta por cento de desconto nas refeições (mas não no vinho) para as reservas adiantadas feitas online.

Ele acabou se visitar Las Vegas e ficou surpreso de ver que os restaurantes da Paris artificial de lá estavam todos cheios. "Aí comecei a dizer para todo mundo que era hora de irem visitar a verdadeira."

Para Faure, não há outra saída a não ser esperar. "É muito frustrante porque é só Paris que está sendo prejudicada; o resto da França, as casas nas montanhas, à beira-mar, está tudo lotado. Mas não podemos seguir o argumento que contradiz as autoridades, que dizem que estamos em estado de emergência por causa da ameaça terrorista."

"Não há nada a fazer, a não ser ter muita paciência."

Ficou com água na boca?