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Restaurantes e Bares

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Ao ponto

José Orenstein

Emiliano não faz jus ao preço

Restaurante do hotel tem novos pratos no menu, mas serviço e comida ficam aquém da encomenda

17 fevereiro 2016 | 20:09 por José Orenstein

É inevitável que a crise econômica afete os restaurantes. Donos de negócio aqui e ali já reclamam da queda no movimento. Quanto a nós, paulistanos, é duro abrir mão de um dos principais programas da cidade: sair para comer. A busca, então, é pelas raras casas de bom custo-benefício. Mas às vezes topamos pagar mais em troca de uma experiência excepcional. O restaurante Emiliano, agora com um novo chef na cozinha, o milanês Andrea Montella, quer ser esse lugar. O resultado, no entanto, fica aquém da encomenda. 

Entre as novas opções de entrada, a vieira selada por fora com molho de uva passa vem no ponto certo.

Entre as novas opções de entrada, a vieira selada por fora com molho de uva passa vem no ponto certo. Foto: Gabriela Biló|Estadão

O ambiente continua agradável, salão pequeno, com pé-direito alto e um jardim na parede ao fundo. É bem refrigerado, as mesas são confortáveis, a iluminação é boa, até aí, tudo certo. 

Os problemas começam com o serviço. Embora educado e simpático, tem falhas graves. A primeira é a desinformação. O paccheri, uma das novas pastas do menu – aquele tubo que parece um rigatone grandão – , foi descrito pelo garçom como uma massa inteiriça que “lembra a massa de pastel”. Fiquei intrigado. Seria uma versão autoral do chef? O que veio foi o paccheri mesmo. 

Os garçons ali podem ser ostensivamente servis. Numa das visitas, no jantar, um deles não arredava pé da mesa. O jeito foi pedir qualquer coisa só para acalmar a ansiedade do rapaz em servir. Tem também o problema da água: ela não fica na mesa e basta o seu copo ameaçar esvaziar para o garçom vir preenchê-lo, sem perguntar. E dá-lhe abrir garrafas a R$ 8 cada uma. Por fim, uma implicância meio pedante, mas, bem, o Emiliano se propõe à alta gastronomia e cobra caro por isso (o serviço, aliás, é 12%): a pronúncia errada dos itens do cardápio, como o coulis, que virou “cólis”.

Ao ponto, enfim: à comida. A principal mudança no cardápio do novo chef foi na ala de massas, toda renovada. Por ser um cozinheiro milanês, esperava pratos que demonstrassem o refinamento típico do norte da Itália. Mas o pici, massa fresca alongada, veio soterrado por um ragu de cordeiro saboroso, porém gorduroso. O espaguete à carbonara com frutos do mar, com lulas, vieiras, polvos, camarões, vinha num molho branco pesado e a massa estava molenga (para não falar na heresia de chamar o prato de carbonara). Faltava delicadeza à massa dos agnolotti dal plin; o molho do paccheri não tinha sabor. No setor de entradas, as vieiras são um acerto, mas o tal coulis de manga que o chef acrescentou à terrine de foie gras não combina com a sutileza do fígado gordo – que vem numa porção minúscula, a R$ 72.

A ótima codorna, recheada com foie gras e cogumelos, que vem sobre risoto de alecrim.

A ótima codorna, recheada com foie gras e cogumelos, que vem sobre risoto de alecrim. Foto: Gabriela Biló|Estadão

Um ponto alto, altíssimo, foi a codorna, também novidade. Recheada por foie gras e cogumelos vem com um risoto de alecrim perfeito. Fazia tempo que não provava risoto tão bom, cremoso, al dente e quente como deve ser. As sobremesas permanecem inalteradas, da época em que Arnor Porto, antigo confeiteiro da casa, as criou.

No fim, fica a sensação de que, no serviço e na comida, falta atenção aos detalhes, que fazem um restaurante ser refinado e até poderiam justificar os altos preços. Não justificam.

O CHEF

O restaurante do hotel Emiliano tem um novo chef no comando: o milanês Andrea Montella, que incluiu 15 novas receitas no menu. Nos anos 1990 ele trabalhou em São Paulo no extinto Bice, que tem filiais pelo mundo. Depois disso, passou por diversas cozinhas pelo mundo, como a do hotel Emirates Palace, em Abu Dhabi.

Estilo de cozinha: italiana contemporânea. 

 

Bom para: ocasião especial – a conta sai bem alta – e mais intimista.

 

Acústica: pé-direito altíssimo dissipa o ruído das conversas; apenas 12 mesas no salão com boa distância entre elas garantem papo em volume normal.

 

Vinho: a carta enfileira prêmios, enumera grandes vinhos; mas, para quem pede de olho na coluna da direita, é proibitivo. Rótulos começam em torno de R$ 150 e vão ao infinito e além (ok, um tinto a R$ 88 é listado, mas estava em falta). Taxa de rolha: R$ 80.

 

Cerveja: só Heineken, Stella, Bohemia e Erdinger. Para um restaurante de altas ambições gastronômicas, é risível ter apenas essas opções.

 

Água e café: não pode ser normal míseros 300ml d’água mineral comum custarem R$ 8 – um real mais caro que a xicrinha de Illy.

 

Preços: Entradas de R$ 38 a R$ 72; pratos de R$ 62 a R$ 98; sobremesas (R$ 28 a R$ 78). Menu-degustação (5 pratos), R$ 290.

 

Vou voltar? Com um amigo (imaginário) de conta bancária ilimitada, talvez.

Do cardápio antigo permaneceu a excelente vellutata de abóbora.

Do cardápio antigo permaneceu a excelente vellutata de abóbora. Foto: Gabriela Biló|Estadão

O MELHOR E O PIOR 

PROVE

A codorna. Recheada com foie gras e cogumelos, tem ar pomposo, mas é muito boa. Vem sobre um excelente risoto de alecrim.

A vieira. É uma das novas entradas. Cocção acertada, dourada por fora, em molho de uva passa.

A vellutata. Sopa de abóbora, é do cardápio antigo e faz jus ao nome: é um veludo.

EVITE

O carbonara com frutos do mar. A ideia soa amalucada, a execução confirma: não dá certo. 

O paccheri. A massa vem com insosso molho de tomate e lagostins mais crus que cozidos.

 

SERVIÇO

EMILIANO

Rua Oscar Freire, 384, Jd. Paulista

Tel.:3068-4390

Horário de funcionamento: 12h/15h, 19h/0h

Não tem bicicletário, mas dá para parar a bicicleta no estacionamento do hotel

Ciclorrota na própria rua. Valet (R$ 25)

>> Veja a íntegra da edição de 18/2/2016

 

Ficou com água na boca?