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Restaurantes e Bares

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Ao ponto

José Orenstein

Lambe-Lambe: comida boa a preços terrestres em Higienópolis

Conheça o restaurante que abriu há pouco próximo à praça Vilaboim

21 outubro 2015 | 17:46 por José Orenstein

Daqui do meu pequeno privilegiado observatório, vejo o crescente movimento dos preços de pratos de comida paulistanos em direção à estratosfera. Alguns até escapam rumo ao espaço, exorbitam, fogem à nossa órbita. Por isso, é muito bem-vinda a aparição de um restaurante que serve boa comida a preços terrestres. É o caso do Lambe-Lambe, que abriu há pouco em Higienópolis.

Ao ponto, pois: no Lambe-Lambe (o nome refere-se aos cartazes comuns pela cidade e que decoram as paredes do restaurante, não à forma de sorver a comida), são servidos pratos triviais, versões mais bem acabadas da comida de botequim, paulista e mineira. Não é gourmetização, é só esmero na escolha da matéria-prima e na feitura. O ambiente é pequeno e aprazível. O restaurante, próximo à praça Vilaboim, cheia de restaurantes mais ou menos, supre uma lacuna no bairro.

FOTOS: Gabriela Biló/Estadão

Um bom jeito de abordar o Lambe-Lambe é, se numa turma mais numerosa, dividir entradas, que casam bem com a amplíssima oferta de cervejas, com o ótimo caju amigo e com as mesas da varanda, nessas noites calorentas. Há uma dúzia de entradas, no geral boas, como a panela de jiló com fígado, linguiça da casa ou queijo, a sardinha escabeche com pão de alho e tomate (R$ 7!) e o ovo mole empanado servido com purê de mandioquinha.

Ficou com água na boca?

Frigideira de jiló com linguiça para abrir o apetite é uma das boas pedidas no novo restaurante

Já os pratos principais são nove, mais a feijoada às quartas e sábados. Têm mais cara de almoço: vêm no esquema PF, sempre acompanhados de arroz, feijão e farofa de pilão. Escolhe-se entre feijão carioquinha, tutu (o melhor) ou feijão fradinho. Repetiria a chuleta, a galinha caipira com quiabo e o cupim com canjiquinha e escarola. Não tive coragem, nem sei se algum dia terei, de pedir o picadinho de soja. Ponto negativo para o arroz, que veio sempre frio, e para uma mão pesada no sal – isso em todos os pratos. Não é uma comida fina e sutil a que se serve no Lambe-Lambe. Também não cruzaria a cidade só para garfá-la. Mas vale quanto pesa.

Chuleta com escarola, arroz, feijão e farofa de pilão

As sobremesas, como no MoDi, são encomendadas, feitas por Arnor Porto. Há quatro opções, todas com o mesmo e bom preço (R$ 11), mas nenhuma brilhante. Só cumprem a nobre função de adoçar a boca (às vezes até demais) ao fim da refeição.

O serviço é gago, como escreveu certa vez Apicius sobre uma casa carioca. Hesita, mas não chega a comprometer a refeição. A casa é nova, pode melhorar. Uma brigada de salão afinada e afiada continua coisa rara em São Paulo.

O MELHOR E O PIOR

Bom e Barato. O Lambe-Lambe ocupa espaço da extinta Casa Rovigo. Os donos são os mesmos do MoDi, de cozinha italiana. Eles replicam sua boa fórmula, com roupagem e cozinha brasileira: bons ingredientes, preparos simples, mas não óbvios, ambiente sem salamaleques, mas com graça, e preços razoáveis. São lugares honestos – adjetivo da moda, talvez porque haja muita desonestidade gastronômica por aí?

Prove

O caju amigo. Vem num copão, com compota caseira da fruta e castanha torrada e triturada por cima.

As entradas. Recomendo o jiló, a coxinha (estilo coxa-creme), a sardinha, o ovo mole e a linguiça artesanal com salada.

A chuleta grelhada, crosta firme, suculenta por dentro.

Evite

O couvert. Promete, mas não entrega: vem com biscoito de polvilho murcho e ricota.

O pastel de mandioca. Recheado de carne-louca, é massudão, na pior tradição dos “risolis”.

Estilo de cozinha: brasileira – entre paulista, mineira e de boteco.

Bom para: almoços e jantares despretensiosos.

Acústica: Falta isolamento no salão, que é bem barulhento. Se o papo nas mesas ao lado está animado, grita-se para se fazer ouvido, mesmo a dois.

Vinho: Carta bem variada, para diferentes bolsos (de R$ 55 a R$ 153). As taças destoam dos baixos valores do menu: de R$ 21 a R$ 32. Taxa de rolha: R$ 50.

Cerveja: Um acerto da casa, que encampa a revolução de artesanais brasileira. Tem geladas à mancheia, quase cem rótulos. O chope muda toda semana.

Água e café: Garrafinha (300 ml) a R$ 4; café expresso Suplicy (R$ 4,50). Teria tudo a ver, aqui, uma água da casa, filtrada, de graça… Mas não, não há.

Preços: Entradas de R$ 7 a R$ 16; pratos de R$ 29 a R$ 44; sobremesas R$ 11.

Vou voltar? Sim. O custo-benefício, nosso fantasminha camarada, existe aqui de verdade. Convida a voltar.

Nunca é demais lembrar. O Paladar paga todas as contas e não aceita convites.

SERVIÇO – LAMBE-LAMBE

R. Aracaju, 239, Higienópolis

Tel.: 3473-9782

Horário de funcionamento: 12h/23h (fecha seg.)

Valet (R$ 18)

Ciclovia da Vilaboim a 20m. Não tem bicicletário

>> Veja a íntegra da edição de 22/10/2015

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