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Restaurantes e Bares

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Ao ponto

José Orenstein

Macaxeira: um Nordeste na Zona Leste

Restaurante inspirado no Mocotó, de Rodrigo Oliveira, tem falhas, mas se mantém fiel ao cardápio

02 dezembro 2015 | 15:13 por José Orenstein

Até o laranja das paredes é parecido. O novo restaurante Macaxeira, aberto há dois meses no Tatuapé, é, em tudo – da decoração ao cardápio –, uma tentativa de clone do tradicional Mocotó, da Vila Medeiros. Tem dadinho de tapioca, carne de sol com pimenta biquinho e alho, caipirinha de três limões. Os clássicos do restaurante nordestino de Rodrigo Oliveira estão todos lá, aparentemente servidos da mesma forma, o que torna a comparação inevitável: o que se come e bebe na cópia fica bem longe do original.

Ao ponto, pois: se ir ao Mocotó vale muito a viagem, o Macaxeira funciona para quem já está ali por perto. O que não é pouco, afinal.

Dadinho. No menu, receita dá o crédito para o Mocotó. FOTOS: Clayton de Souza/Estadão

Dá para comer e passar bem neste novo endereço na zona leste paulistana. O baião de dois é caprichado, a carne de sol é saborosa, o dadinho de tapioca não tem como ser ruim, o caldo de mocofava é rico, equilibrado, o atolado de cupim é gostoso, há ampla oferta de cachaças, o café é correto. Bonus track: das caixas de som da casa sai uma agradável sequência de baião, xote, forró. E como disse um dos garçons numa das visitas, no Macaxeira, diferentemente dos vizinhos de rua, não tem televisão no salão – ainda bem. O cardápio, enfim, atém-se ao que se propõe, uma cozinha nordestina original, que não se rende a modismos. Estão lá a dobradinha e o sarapatel, a galinhada com quiabo. Ponto para o Macaxeira.

Sertão. Das caixas de som do Macaxeira sai boa sequência de baião, xote e forró

O serviço, porém, ainda que esforçado e simpático, é confuso. Garçons não dominam os itens do cardápio e as formas de preparo das comidas. Tampouco parecem conhecer a história da casa: numa das visitas, o garçom disse que o chef do Mocotó, Rodrigo Oliveira, tinha dado consultoria para o Macaxeira (chequei a informação depois, com Rodrigo e com os sócios do Macaxeira: não houve consultoria; três funcionários que passaram pelo Mocotó há dois anos estão na cozinha do novo restaurante do Tatuapé).

Por fim, a brigada do salão, às vezes, forçou a amizade me chamando de “ô, meu querido”, “meu irmão” e “queridão”, entre outras intimidades, para avisar, por exemplo, que tinha acabado o escondidinho meia hora depois de feito o pedido.

Em resumo, o que sobra no Mocotó – esmero nos preparos, matéria-prima fresquíssima, equipe afiada –, falta no Macaxeira. A nova casa do Tatuapé se aproxima mesmo do seu modelo na Vila Medeiros é pela alta frequência no fim de semana. A espera por uma mesa pode ser longa na hora do almoço.

Ainda assim, é louvável o aparecimento do Macaxeira. Acho que São Paulo seria melhor se mais restaurantes se inspirassem no Mocotó e se espalhassem pela cidade – dando os devidos créditos, claro. A descrição do dadinho de tapioca no cardápio diz: “criação do Rodrigo Mocotó” (sic). O problema mesmo é começar com um padrão tão alto de comparação.

Carne de sol com pimenta biquinho e alho

Baião de dois

ESTREIA NO RAMO

O Macaxeira acabou de completar dois meses de funcionamento. A casa tem seis sócios, que estreiam no ramo da gastronomia. Tenta replicar, no Tatuapé, o modelo do restaurante Mocotó.

O MELHOR E O PIOR

Prove 

A carne de sol, com pimenta biquinho, manteiga de garrafa e alho assado, tem um toque adocicado interessante.

A mocofava, um caldo vigoroso e bem temperado.

Evite

O torresmo. Na porção, é puro sal; por unidade, tem um gosto artificial de defumado.

Dadinho de tapioca doce. O cubo frito é mergulhado em açúcar e fica exageradamente doce.

Os fins de semana. O restaurante lota, a espera é mal organizada e os itens do cardápio começam a faltar.

Estilo de cozinha: comida nordestina, com alguns pratos típicos da culinária do sertão.

Bom para: almoço entre amigos, se você estiver na região.

Acústica: salão mais para o barulhento, mas tolerável. Nas mesas da calçada, porém, no fim de semana, ouve-se o pagode do vizinho.

Vinho: “carta” tristíssima, com apenas dois tintos; um branco e um tinto em taça (a R$ 22). É melhor mirar nas dezenas de cachaças e cervejas.

Cerveja: chope só mesmo Brahma (R$ 6,90); dez opções de rótulos artesanais, contudo, são alento entre as geladas.

Água e café: garrafinha de 310 ml (R$ 4,90). O expresso da Fazenda é correto (R$ 3,90).

Preços: entradas e petiscos de R$ 6,90 a R$ 24,90; pratos de R$ 28,90 a R$ 46,90; sobremesas de R$ 7,90 a R$ 18,90.

Vou voltar? Não tão breve. Mas, se eu estiver na área, sim.

SERVIÇO – Macaxeira

R. Emilia Marengo, 185, Tatuapé

Tel.: 2671-2233

Horário de funcionamento: 12h/23h (5a, 6a, sáb. até 0h; dom. até 18h)

Ciclovia: na Av. Abel Ferreira (a 1 km)

Sem bicicletário

Valet (R$ 15, no almoço; R$ 20 no jantar e no fim de semana)

>> Veja a íntegra da edição de 4/12/2015

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