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Restaurantes e Bares

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Mario Batali afasta-se de restaurantes em meio a acusações de assédio sexual

Chef-celebridade americano é acusado de assédio por quatro mulheres; casos estariam ocorrendo há pelo menos duas décadas

15 dezembro 2017 | 19:43 por Christine Hauser, Kim Severson e Julia Moskin

The New York Times

Em meio a acusações de assédio sexual, o chef-celebridade Mario Batali, um dos mais famosos restaurateurs dos Estados Unidos, está deixando as operações do dia a dia de seus negócios e o programa diário na rede ABC The Chew, do qual é coapresentador.

Batali divulgou uma declaração após reportagem do site de culinária Eater informar nesta segunda-feira, 11, que quatro mulheres o acusaram de tocá-las de modo impróprio, num padrão de comportamento que viria ocorrendo há pelo menos duas décadas. Segundo a reportagem, três das mulheres trabalhavam para Batali e a quarta em outra área do setor de restaurantes.  

Em sua declaração, Batali pediu desculpas e admitiu que as acusações  refletiam seu comportamento. “Embora a identidade da maioria das pessoas mencionadas na história não me tenha sido revelada, o comportamento descrito, de fato coincide com o modo como agi”, disse ele. “Foi um erro  para o qual não há desculpa.” E prosseguiu: “Estou empenhado em reconquistar a confiança daqueles a quem magoei e desapontei. Por isso, vou me afastar do dia a dia de meus negócios.” Não ficou claro por quanto tempo ele pretende ficar longe do trabalho. 

 

  Foto: Evan Sung|NYT

Batali, de 57 anos, divulgou a declaração especificamente em resposta à reportagem do Eater, que deu detalhes das entrevistas feitas com as quatro mulheres, não identificadas na matéria. Elas afirmaram que Batali costumava apalpar-lhes os seios e abraçá-las por trás. Uma delas disse que certa vez teve de passar por cima de Batali, que estava sentado no chão bloqueando a saída.

Batali foi recentemente repreendido por causa de uma queixa feita em outubro por uma funcionária de um dos mais de 20 restaurantes do Batali & BastianichHospitality Group, informou um porta-voz da rede. O porta-voz não revelou em qual dos restaurantes a funcionária trabalhava, nem ficou claro se ela estava entre as mulheres ouvidas por Eater. 

Após a divulgação da reportagem, na segunda-feira, o Batali & Bastianich Hospitality Group divulgou nota informando que havia tomado outras medidas preventivas, extentivas a todos seus restaurantes. “O sr. Batali e nós concordamos em que ele deixaria as operações da empresa, incluindo os restaurantes, o que de fato já fez”, disse a nota. O grupo, segundo a nota, abriu aos funcionários o acesso a uma investigação conduzida por um escritório especializado, podendo assim eles apresentar queixas contra executivos ou proprietários da rede. 

A rede ABC de televisão também pediu a Batali que se afastasse de The Chew, programa que apresenta desde 2011, “enquanto são apuradas as acusações que chegaram a nosso conhecimento”. “A ABC leva esse assunto muito a série, uma vez que está comprometida com um ambiente seguro de trabalho”, disse a rede. “Embora não saibamos de nenhum caso de comportamento impróprio envolvendo o apresentador ou qualquer membro da equipe do programa, encaminharemos imediatamente para apuração qualquer violação de nossos padrões de conduta.”

As acusações contra Batali estão entre muitas surgidas recentemente envolvendo pessoas de destaque de vários ramos de atividade, como o magnata de Hollywood Harvey Weinstein, acusado por várias mulheres de assédio e ataques sexuais.

Assédio no mundo dos restaurantes. As revelações sobre Batali estão agitando o setor de restaurantes. Além de chef, ele é autor de livros de culinária de sucesso e personagem muito conhecido de TV, tendo participado de programas de concursos culinários de grande audiência como Iron Chef America e Top Chef. No ano passado, ele foi escalado por Michelle Obama para organizar o último jantar da presidência do marido.

O caso Batali provocou uma agitação imediata no setor de culinária, com gente sugerindo que esse tipo de comportamento é generalizado. TIffani Faison, uma chef que foi finalista na primeira temporada do reality show Top Chef, da Bravo, disse que existe uma “cultura do silêncio” nas cozinhas profissionais. Traci Des Jardins, chef e restaurateur de São Francisco, que conhece Batali desde o fim dos anos 1980, disse que ficou confusa com as notícias.

Ela e outros manifestaram preocupação com os milhares de pessoas que dependem da marca Batali para viver. Preocupações semelhantes surgiram quando outro chef famoso, John Besh, de New Orleans, foi acusado em outubro de comportamento parecido e moradores da cidade ameaçaram não ir mais a seus restaurantes. 

Agora também já há sugestões de boicote a casas de Batali, mas muitos pedem cautela temendo que um boicote vá prejudicar trabalhadores que nada tiveram a ver com o comportamento do chef. Batali faz parte de um pequeno grupo de chefs que ajudou os clientes de restaurantes a fazer a transição de décadas de uma culinária eurocêntrica para outra mais marcadamente americana. Ao fazer isso, ele se tornou uma celebridade. 

Embora chefs ítalo-americanos já viessem havia muito se dedicando a  especialidades culinárias regionais, Batali é amplamente creditado por ensinar a um país inteiro as delícias de pratos como dobradinha, beef cheek ravioli e spicy squid. Seu primeiro programa de TV, Molto Mario, foi ao ar de 1996 a 2004. Seu primeiro restaurante, o minúsculo Po, aberto em Greenwich Village, Nova York, em 1993, projetou o nome de Batali com suas massas frescas. O Babbo Ristorante, aberto em 1998 no West Village, também em Nova York, tornou-se um sucesso imediato e recebeu 3 estrelas de Ruth Reichl, então crítica de culinária do New York Times. Outra casa de Batali, o  Del Posto, no Meatpacking District , ainda em Nova York, tornou-se o primeiro restaurante italiano a ganhar 4 estrelas do New York Times, concedidas pelo editor de culinária, Sam Sifton.

/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ  

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