Paladar

Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

Ao ponto

José Orenstein

No italiano Salvatore Loi, a conta faz suspirar, mas a experiência será grandiosa

Refeição não sai por menos de R$ 200 sem vinho, e não há água nacional, mas a orquestra da cozinha ao salão é de altíssimo nível

25 maio 2016 | 15:52 por José Orenstein

O Salvatore Loi é um restaurante a que os mortais vamos uma ou poucas vezes na vida. A brincadeira ali começa, por baixo, em R$ 200 por pessoa, sem vinho. Já reclamei um bocado aqui neste espaço dos preços nos restaurantes paulistanos. Não é o caso aqui. Ele cobra alto, sim, mas entrega comida de altíssimo nível – com serviço impecável, em ambiente agradável.

Se você vai se sentir à vontade no restaurante, aí é uma questão de estilo: do lado de fora, a porta permanece fechada e guardada por leões de chácara de terno e gravata, como que a perguntar: você quer e pode mesmo entrar aqui? Você estufa o peito (ou encolhe os ombros, questão de estilo) e vai.

Lasanha. Esqueça aquela versão paulistana pesada – a de Salvatore Loi é leve e delicada

Lasanha. Esqueça aquela versão paulistana pesada – a de Salvatore Loi é leve e delicada Foto: Gabriela Biló|Estadão

O salão varia entre tons de cinza das confortáveis cadeiras, bege das paredes e toalhas de mesa de fino tecido e marrom das luxuosas paredes de mármore. Ao fundo, entrevê-se a colorida movimentação da cozinha, que dissipa o clima austero.

À mesa, você vai ser paparicado por todos os lados, um apanha seu casaco sem que você perceba, outro o acomoda na cadeira; só faltou uma massagenzinha nas costas – o que nunca aconteceria: a populosa brigada de salão é supertreinada, educada; beira o servilismo, mas para um pouco antes disso, na medida certa. É coisa rara uma casa com só uma semana de vida ter salão tão afinado como o do.

Aí você vai ao ponto, enfim: abre o enorme cardápio e saliva já na seção de antipasti. Você acerta com as entradas mais leves: a salada com tenras vieiras interessantemente perfumadas com baunilha em favas ou a burrata com grana padano dentro e sutil toque doce de chocolate branco ralado. Acerta também com a encorpada polenta taragna com nacos de taleggio ou a reconfortante sopa de feijão, com polvo e massa fresca.

Tudo de bom. Pão de mel com cassata.

Tudo de bom. Pão de mel com cassata. Foto: Gabriela Biló|Estadão

Vai ser difícil decidir entre os pratos principais: fatalmente a seção de massas vai seduzir – e você vai acertar com as receitas sardas, mais rústicas: prove as loreghitas, aneizinhos de massa retorcida com linguiça caseira, azeitonas e pecorino num equilibrado molho de tomate. Mas deixe-se levar pela lasanha, de massa delicada, levemente tostada, ela vai crepitar à primeira dentada, ela é o caminho do meio no yin yang do prato, metade rôti de trufas negras, metade creme de grana padano. E tem ainda risotos, peixes e carnes, como a boa porchetta de javali no molho de tamarindo com nhoque de catalônia, verdura amarga.

Os garçons o tempo todo vão se certificar do bom andamento da refeição, com o péssimo hábito de encher seu copo d’água sem que isso seja solicitado. (Água importada, pois nem nacional há, que dirá água filtrada da casa... Até quando?).

Das sobremesas, tudo é muito bom. Pão de mel com cassata pode soar démodé, mas no Salvatore Loi você pede isso e vem um bolo fofo encimado por um creme sedoso de ricota com cereja amarena e, é possível!, ótimas frutas cristalizadas salpicadas no prato. Fora as carolinas, a panna cotta com laranja, o tiramisù... 

Você vai receber a conta e vai suspirar (ou chorar, questão de estilo), mas dificilmente vai sentir que não teve, no Salvatore Loi, uma grande experiência. 

CONTEXTO

Salvatore Loi é italiano da Sardenha.

Salvatore Loi é italiano da Sardenha. Foto: Gabriela Biló|Estadão

O chef Salvatore Loi é italiano da Sardenha. Veio para o Brasil para comandar as cozinhas do grupo Fasano, onde trabalhou de 1999 a 2012. Nesse período, destacou-se como um dos grandes cozinheiros no País. Comandou por um curto tempo o extinto Girarrosto e, na sequência, o Loi Ristorantino – onde ficou por pouco mais de um ano como sócio; a casa virou apenas Ristorantino depois de sua saída. 

O MELHOR E O PIOR

PROVE

A lasanha, um pequeno milagre operado por Loi, faz potência e delicadeza darem as mãos.

A fregula com frutos do mar. Prato sardo que fala ao coração, vale pelas vieiras com presunto.

As carolinas da sobremesa: massa perfeita recheada com creme de avelã que é um veludo; poderia comer mil delas. 

EVITE

O couvert. O pão e a manteiga não valem os R$ 22. Reserve espaço para as várias boas entradas.

O risolio com limão, queijo e ovas de salmão – falta cremosidade e as ovas falam alto demais.

O salão do novo restaurante é sóbrio e austero.

O salão do novo restaurante é sóbrio e austero. Foto: Gabriela Biló|Estadão

Estilo de cozinha: italiana refinada, com receitas clássicas e releituras. 

Bom para: almoço ou jantar em ocasiões especiais.

Acústica: boa, ruído é controlado – embora vaze a zoeira da cozinha, que é aberta para o salão.

Vinho: carta variada e cara, com muitos grandes italianos. Garrafa mais em conta é um Sangiovese a R$ 103; preços vão daí à estratosfera. Taças são quatro, de R$ 36 a R$ 75. Taxa de rolha: R$ 80.

Cerveja: pobre do cervejeiro – só Moretti (R$ 22), Stella (R$ 14) e Cerpa (R$ 16).

Água e café: água só importada, Panna e San Pellegrino a R$ 8 (250 ml) ou R$ 14 (500 ml); o café é o ponto fora da curva da casa: você espera um belo expresso italiano e recebe apenas café encapsulado, Nespresso, por R$ 8!

Preços: entradas (R$ 49 a R$ 66), pratos (R$ 63 a R$ 168), sobremesas (R$ 32 a R$ 35).

Vou voltar? Sim, para comemorar meu bilhete premiado da Mega Sena. 

SERVIÇO

 SALVATORE LOI

R. Joaquim Antunes, 102, Jardim Paulistano

Tel.: 3062-1160

Horário de funcionamento: 12h/15h 19h/0h (sex. até 1h; sáb. 12h/16h e 19h/1h; dom. 12h/17h e 19h/22h30)

Valet: R$ 25

Não tem bicicletário

salvatoreloi.com.br

 

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