Paladar

Restaurantes e Bares

Restaurantes e Bares

O fim do futuro

O El Bulli vai fechar em 30 de julho. O que virá depois do restaurante que transformou a gastronomia?

25 maio 2011 | 23:58 por Luiz Américo Camargo

A previsão partiu lá dos EUA: a ira divina se abateria sobre todos e o mundo acabaria no último sábado, dia 21. Como estamos aqui, podemos considerar que escapamos. Mas o futuro, este sim, tem data para terminar: 30 de julho, assim que o El Bulli servir o último jantar.

Quando o século 20 terminou, nada estava à frente da concepção de cozinha do Bulli. E quando o Paladar nasceu, em 2005, o restaurante marchava inabalável na direção de algo que só ele parecia enxergar. Era uma ética de investigação, apoiada numa estética que mostrava a comida como ela nunca havia sido vista: por dentro, por fora, desfigurada, refigurada. Adrià mudou o jeito de pensar e montar uma refeição: com a mão ou com o garfo? Sólido, líquido ou gasoso? Doce ou salgado? Afinal, com quantos sentidos se devora um menu-degustação?

A mesma cozinha que gerava espumas e esferas em profusão, até pouco tempo atrás, dava a impressão de que chegaria também à fórmula da imortalidade. A linguagem proposta por Ferran Adrià parecia até ter inventado um novo tempo verbal, o futuro do futuro.

O projeto de mundo novo que Ferran Adrià processou no Thermomix, passou no sifão e modelou com alginato durou tanto quanto o último grande futuro vivido pela gastronomia, a nouvelle cuisine - movimento do qual Adrià se diz grande devedor. Curiosamente, nos dois casos foram menos de duas décadas. Mas com uma diferença. Se a corrente liderada por Paul Bocuse, Michel Guérard, Alain Chapel, Jean e Pierre Troisgros, por um lado, chegou aos anos 80 já sem muita força, o chef catalão encerra as atividades ainda na condição de melhor do mundo.

Em 1996, Joël Robuchon, o chef mais celebrado naquele momento, saiu de cena anunciando que Adrià era o tal. Quinze anos depois, o El Bulli fecha para se transformar em centro de pesquisa. Não está claro se o público voltará, um dia, a provar de suas criações. Mas é difícil acreditar que o chef deixará de inventar novos tempos e espaços.

Esta edição trata do fim deste e de outros futuros já idos. Narra um brilhante jantar dias atrás no El Bulli, com o último menu da última temporada. E discute o que significa ser criativo no mundo pós-Adrià. Para tanto, montamos uma mesa com Jeffrey Steingarten, René Redzepi, Andoni Luis Aduriz, François Simon e muitos outros ótimos convidados. Só que nenhum deles precisou esperar um ano na fila para conseguir reserva.

Ficou com água na boca?