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Restaurantes e Bares

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Gigetto, reduto da boemia e intelligentsia paulistana

Com 77 anos, o Gigetto fechou. Relembre a história desse clássico restaurante e conheça seu legado para a gastronomia paulistana

18 setembro 2013 | 23:31 por José Orenstein

* ATUALIZAÇÃO em 2/2/16

Sem nenhum aviso, o Gigetto fechou suas portas na última semana de janeiro de 2016, com 77 anos de história. A casa vinha perdendo movimento desde sua mudança, em 2013, da Rua Avanhadava para a Rua 13 de Maio. Os funcionários reclamavam do atraso nos pagamentos e os horários de funcionamento não estavam mais sendo respeitados. Relembre a história desse clássico restaurante paulistano neste texto de 2013 que relata justamente a última mudança de endereço. 

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Os olhos desviaram do mofo marrom que grassa ao redor das saídas de ar condicionado no teto quando um largo sorriso se abriu à beira da mesa dando as boas vindas ao Gigetto. Era o maître João Cláudio Jesus de Lima, que logo emendou, num tom ao mesmo tempo melancólico, alegre e resignado: este é o último jantar do Gigetto neste endereço.

Depois de 44 anos instalado no número 63 da Rua Avanhandava, na Bela Vista, o restaurante, que já funcionou na Avenida Rio Branco e marcou época na Nestor Pestana, fechou as portas exatamente na data em que completava 75 anos de vida.

Parte da brigada gigettina de 1998. FOTO: Epitácio Pessoa/Estadão

Na noite do último domingo, contavam-se dez mesas ocupadas. As lâmpadas econômicas pendendo espetadas do forro esfriavam o clima. Atrás do balcão no fundo do salão, aberto para a cozinha, dois mestres-cucas observavam parados o parco movimento de clientes que foram se despedir.

O terno cinza do maître que corria de mesa em mesa destoava da resto da brigada à moda antiga, de terno branco sobrando nos ombros e gravata borboleta preta. Era ele o emissário da notícia da despedida da Avanhandava.

A casa ganhou fama por acolher madrugada adentro intelectuais, boêmios e principalmente gente de teatro. Resistiu às modas e mudanças de hábito da cidade. Nem a proibição do cigarro, nem a recente lei seca – que drenou o álcool que abundava nas mesas do Gigetto – conseguiram fechar suas portas.

E na domingueira do adeus, estava tudo lá: o extenso cardápio, quase um documento histórico, ostentava o clássico capelete à romanesca, o renitente coquetel de camarão, o tradicional cabrito à fiorentina, o outrora glamouroso steak à diana.

O sempre sorridente João Cláudio, 40 anos de vida, 20 de Gigetto – foi de faxineiro a maître nesse tempo – sugere fusilli à parlatore, um molho branco de gorgonzola e pedaços de filé mignon. Tira o pedido e logo volta com o generoso couvert, servido por conta da casa, já que não havia mais fusilli. Vamos de talharim.

As bolinhas de manteiga num prato em forma de concha, um pote de azeitonas pretas e as torradas de alho num vasilhame de alumínio são a confirmação de que ali sobrevive a refeição clássica de cantina paulistana, gênero por excelência do Gigetto.

A antiga casa na Rua Nestor Pestana. FOTO: Reprodução

A mesa mais cheia do salão é composta por atores. A maioria jovem. Mas sobressai a voz do mais velho dos convivas, alta, em tom épico – uma eloquência cada vez mais rara nos salões contemporâneos paulistanos onde predomina o sussurro low profile, a afetação dissimulada.

Por um momento vêm à mente as mesas lotadas, o ambiente esfumaçado, vozes tonitruantes, gargalhadas e discussões, roteiros, peças e movimentos sendo gestados. Plínio Marcos observando tudo de sua mesa cativa. Paulo Autran devorando um filé à osvaldo aranha.

Chega o talharim fumegante mergulhado no molho branco. João Cláudio saca as duas colheres, que nas mãos de garçons universitários só serviriam para misturar Nescau, e com destreza maneja a farta porção de macarrão.

Garçom serve um dos últimos pratos da Rua Avanhandava, domingo. FOTO: José Orenstein/Estadão

Se o produto da cozinha do Gigetto não é unanimidade na cidade, pode-se dizer que o serviço cordial e amistoso e o ambiente repleto de história são patrimônio paulistano. Famílias, casais, amigos dividem memórias de épocas da vida que passam pelo Gigetto.

A face oculta do vanguardismo de São Paulo é a tendência de apagar tradições, memórias, demolir o passado. Mas o “antivanguardismo” do Gigetto levará sua história de resistência, seus funcionários com mais de 30 anos de casa, para um sobrado na Rua Treze de Maio, 686 – próximo ao Bassi. O Gigetto deve reabrir por lá até outubro (de 2013)*. Ana Paula Lenci, administradora do restaurante, mulher de Henrique Lenci, neto de Enrico Lenci, um dos fundadores do Gigetto, celebra o momento de renovação: “Agora é rumo ao centenário”. O prédio em que funcionou o Gigetto até domingo, parcialmente abandonado há anos, foi desapropriado pela Prefeitura para dar lugar a moradias populares, como parte do plano de reocupação do centro da cidade.

* Este texto, de 2013, fala sobre a mudança de endereço do Gigetto, que saiu em setembro da Rua Avanhandava para reabrir em outubro do mesmo ano na Rua Treze de Maio. Em janeiro de 2016, a casa fechou as portas definitivamente. 

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 19/9/2013

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